Eleições

''Se a esquerda não ficar pelo caminho nas eleições de SP, o PT ficará''

Primeiro debate na TV comprova desafio da disputa e mostra Boulos e Orlando Silva mais preparados que Jilmar Tatto para o confronto direto de ideias

02/10/2020 17:51

Onze candidaturas defendem suas propostas para a Prefeitura de SP no primeiro debate da campanha na TV (Reprodução/Band)

Créditos da foto: Onze candidaturas defendem suas propostas para a Prefeitura de SP no primeiro debate da campanha na TV (Reprodução/Band)

 
SÃO PAULO – As últimas pesquisas eleitorais para a Prefeitura de São Paulo, divulgadas neste início de campanha oficial, mostram o tamanho do desafio político do Partido dos Trabalhadores. Tanto no Datafolha de 24 de setembro quanto no levantamento da Paraná Pesquisas divulgado nesta quinta-feira (1), Jilmar Tatto larga com cerca de 2%, embolado com candidaturas de partidos pequenos como Patriota e PSTU, e empatado tecnicamente com Andrea Matarazzo (PSD). Foi com o objetivo de engatar a segunda marcha na campanha pela maior cidade do país que o PT entrou no debate transmitido pela Rede Bandeirantes na última noite, mas a missão se mostrou bastante mais complexa.

Na opinião de analistas políticos ouvidos pela CARTA MAIOR, Tatto não apenas não se destacou no debate como foi incapaz de defender o legado petista na cidade e no país. Enquanto o partido foi atacado por vários oponentes – entre outros, Joice Hasselmann (PSL) disse que o PT quebrou o país e o atual prefeito Bruno Covas (PSDB) chegou a mentir, por duas vezes, que Fernando Haddad teria deixado a Prefeitura com um “rombo de R$ 7 bilhões” – , Jilmar Tatto preferiu deixar as acusações sem resposta e destacar suas ações à frente da Secretaria de Transportes da cidade.

Falou da criação do bilhete-único, das ciclovias e corredores de ônibus e disse, sem que alguém conseguisse entender, que vai criar a casa do entregador de aplicativos. Não respondeu que o caixa da administração paulista foi entregue ao tucano com R$ 3,15 bi de saldo positivo, algo raríssimo em administrações locais.

Na avaliação do cientista político Cláudio Couto, professor do Departamento de Gestão Pública da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, embora o petista tenha um discurso substantivamente mais amplo do que outros candidatos da esquerda, ele não deve conseguir chegar ao segundo turno.

Jilmar Tatto: candidato do PT larga mal nas pesquisas e no debate eleitoral (PT na Câmara)

“Ele é tão sem graça e tão ruim de se expressar que vai ficar pelo caminho. Seu desempenho no debate foi de alguém que não faz política profissional, que não conseguia expressar suas ideias. É um cara de máquina partidária e não de grandes embates eleitorais; e uma coisa é se eleger deputado, outra é disputar o Executivo, onde é preciso seduzir o eleitor. E Tatto foi muito pouco sedutor, para dizer o mínimo”, avalia Couto.

Cresceu, portanto, a leitura de que Guilherme Boulos, que divide a chapa do PSOL com a ex-prefeita Luiza Erundina como vice, é quem pode abocanhar este eleitorado. Nas duas pesquisas citadas anteriormente, Boulos aparece em terceiro lugar – com 9% ou 8%, respectivamente –, empatado tecnicamente com outro nome que se coloca no campo progressista: Márcio França (PSB ). Apesar de ter sido eleito vice-governador na chapa tucana de 2014 e ter assumido o governo de São Paulo em 2018, quando Geraldo Alckmin foi disputar a presidência, França foi quem angariou mais recentemente o apoio da esquerda, em sua disputa pela reeleição que o levou ao segundo turno contra João Dória em 2018.

“Boulos hoje tem mais chance do que Tatto de ocupar um eventual lugar da esquerda no segundo turno. É muito mais desenvolto e articulado e consegue ter um discurso, por incrível que pareça, que atinge setores mais amplos da sociedade. Acho muito provável que o PT não chegue no segundo turno, talvez Boulos chegue. Orlando Silva, apesar de ter ido bem no debate, tem a limitação de ser do PCdoB e das pessoas terem preconceito pelo fato de ser um candidato comunista. Não sei se a esquerda vai ficar pelo caminho nessas eleições, mas o PT vai”, afirma Couto, para quem Márcio França teve o melhor desempenho na noite de quinta, ao conseguir falar de problemas concretos de maneira mais palpável para o cidadão comum.

Campanha nacionalizada

Não seria diferente diante do poder político e econômico de São Paulo: a agenda nacional, uma vez mais, foi uma das tônicas do debate para a Prefeitura. Líder das pesquisas com uma preferência de 25% a 29% do eleitorado, Celso Russomano (Republicanos) foi quem mais tentou se beneficiar de sua relação com o presidente Jair Bolsonaro, citando-a várias vezes.

“Criei o Auxílio Paulistano [política nos moldes da renda emergencial federal] porque Bolsonaro pegou no meu braço e disse: “Celso, cuide de São Paulo”. E para isso temos que cuidar das pessoas que passam dificuldade. O Auxílio Paulistano vai acontecer porque sou o único candidato com amizade com o presidente e com condições de trazer isso pra cá”, disse no debate da Band. O atual deputado federal também fez questão de dizer seu seu “trânsito junto ao Executivo” vai permitir a renegociação da dívida da cidade.

Orlando Silva, num dos melhores momentos do debate, respondeu que recurso público “não é dinheiro de rachadinha do Queiroz”, que deve ser aplicado com regras e impessoalidade. E que renegociação de dívida é algo que depende de aprovação do Senado. “Tem que falar a verdade, Russomanno. E o governo Bolsonaro é um estelionato; você deveria chamar o Procon”, ironizou. Boulos disse que era muito estranho acreditar que um presidente que defendia R$200 de auxílio emergencial e que agora quer acabar com o apoio aos mais pobres no final do ano sejam quem vai garantir recursos pra proposta de Russomanno.

Mas o republicano seguiu defendendo o presidente, dizendo que “foi o único que fez alguma coisa na pandemia”, aproveitando para bater no adversário do PSDB, que para ele teria errado ao fechar o comércio durante a pandemia. A medida, inclusive, adotada pelo partido tanto no governo estadual quanto na Prefeitura, foi mencionada de maneira crítica por diferentes candidaturas ao longo do debate.

Russomanno e Bolsonaro: deputado abraça presidente na disputa por SP e apanha ainda mais (crédito: Marcos Corrêa/PR)

Pegar carona no bolsonarismo, entretanto, pode não ser boa estratégia em São Paulo, onde o presidente em 46% de taxa de rejeição, também segundo o Datafolha do último dia 24. Sabendo disso, tanto Orlando Silva como Boulos bateram forte em Bolsonaro, sobretudo em temas como a pandemia e a reforma da previdência.

“Nacionalizar a disputa pode ser uma boa estratégia para quem quer ganhar um debate, e o clima político país faz com que isso acabe sendo algo quase natural. Para Russomanno, entretanto, trazer Bolsonaro para o debate foi ruim. Bolsonaro pode ser bom para criar uma base mínima de apoio, mas isso Russomanno já tem sozinho. Ele sempre parte de um piso razoavelmente alto nas campanhas. A questão é saber se, para além deste piso, consegue chegar no segundo turno. Acho que isso talvez não aconteça”, analisa o professor da Fundação Getúlio Vargas.

“É terceira vez que ele está concorrendo e ainda não tem um discurso claro de políticas públicas para a cidade. No debate, ficou repetindo o mantra de “cuidar das pessoas”, algo meio parecido com o que Alckmin fazia, mas sem entrar em políticas específicas que queria desenvolver. Russomanno vai numa linha assistencialista, quase que numa extensão do programa de televisão dele. Quer se mostrar alguém sensível aos dramas das pessoas, e isso é bom, mas não é suficiente para ganhar uma eleição”, aponta Couto.

Discurso afiado na extrema-direita

Quem deve desidratar um pouco do eleitorado de Russomano neste pleito são as duas vozes da extrema-direita radical na disputa: a deputada federal eleitoral Joice Hasselmann (1% nas pesquisas) e Arthur do Val (Patriota), youtuber integrante do MBL, conhecido pelo apelido “Mamãe Falei” que dá nome ao seu canal online, eleito para a Assembleia de São Paulo na esteira de Bolsonaro em 2018. No debate da Band, a retórica de ambos funcionou muito bem para seus públicos.

Joice apelou aos ultraconservadores, defendendo igrejas na Prefeitura, internação compulsória e “cristolândia” na cracolândia. Exaltou o lava-jatismo acima de tudo e seu tradicional ódio à esquerda. “Se você votar em qualquer um desses, o dinheiro da Prefeitura vai sumir pela incompetência, pela covardia ou pela corrupção”, bradou.

Arthur do Val seguiu abraçado ao ultraneoliberalismo, propondo privatizações em massa. Disse que quem depende da Prefeitura “está ferrado” e atacou a política. Propôs aula de direito e economia via o “Programa Jovem Capitalista", para o qual vai buscar parcerias com empresas “com o poder influente que tem na Faria Lima”.

Entre esquerda e extrema-direita, as chances do prefeito Bruno Covas conseguir se reeleger não são pequenas. Alvo prioritário no debate, ele mostrou tranquilidade ao responder aos ataques dos concorrentes e segue em segundo lugar nas pesquisas. Para quem enfrentou ao mesmo tempo uma pandemia e a luta contra um câncer, não é pouca coisa.






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