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A nova Venezuela? A tática de pânico do populista brasileiro Bolsonaro ganha tração

O candidato da extrema-direita procura, com pouca evidência, conectar seu oponente do Partido dos Trabalhadores aos problemas dos vizinhos brasileiros

14/10/2018 11:30

Mulher venezuelana em rua da cidade de Pacaraima, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela (Antonio Lacerda/EPA)

Créditos da foto: Mulher venezuelana em rua da cidade de Pacaraima, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela (Antonio Lacerda/EPA)

 

Antes de liderar a corrida para se tornar o próximo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro tentou ser produtor de filmes.

O filme em questão? Uma polêmica de 26 minutos postada no Youtube chamada “Venezuela: um alerta para o Brasil”.

A história? Uma covarde conspiração comunista para tomar controle da maior democracia da América Latina e torná-la um inferno bolivariano de selvageria e destituição.

“É POSSÍVEL QUE O BRASIL SE TORNE A VENEZUELA DE AMANHÃ?” tuitou o populista de extrema-direita junto com um link do seu curta político, produzido em parceria com seu filho político, Eduardo Bolsonaro.

A luta pelo poder de Jair Bolsonaro foi impulsionada por uma dupla de perturbações brasileiras: medo de uma crescente crise na segurança pública que, no ano passado, chegou à quase 64.000 mortes e a fúria com os níveis extremos de corrupção.

Mas um terceiro tema, cada vez mais dominante, também emergiu na sua luta pela presidência: a crise na Venezuela e a repetida alegação de que seu oponente, Fernando Haddad, do PT, traria a mesma dor para o Brasil.

Dificilmente uma entrevista ou declaração pública de Bolsonaro não contêm uma menção à vizinha sul-americana em crise.

Em seus primeiros comentários desde a vitória no primeiro turno, Bolsonaro alertou que somente dois caminhos estavam disponíveis para os eleitores brasileiros – seu caminho de prosperidade, liberdade e santidade ou o de Haddad: “o caminho da Venezuela”.

Na manhã seguinte, um dos filhos de Bolsonaro, Carlos, ecoou a mensagem no instagram. “Juntos vamos evitar que o Brasil vire uma Cuba ou Venezuela”, ele escreveu.

Harold Trinkunas, expert em América Latina da Universidade de Stanford, disse que os problemas da Venezuela, que causaram a mais severa crise de migração na história moderna da América Latina, se tornaram “ferramentas muito poderosas para o Bolsonaro atacar o PT e Haddad”.

Alegações similares foram usadas contra a esperança de esquerda derrotada na Colômbia, Gustavo Pedro, que era constantemente – e de maneira errônea – descrito como um agente do “castrochavismo”.

A acusação de Bolsonaro é fantasiosa, disse Trinkunas. “Quando o PT estava no governo, com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, o Brasil certamente não tomou o caminho que a Venezuela tomou”.

“Na realidade, eu acho que para os brasileiros a ameaça que Bolsonaro apresenta para as instituições é um pouco mais parecida com Chávez do que a apresentada por Haddad. Bolsonaro [que, repetidamente, já louvou ditadores] é a pessoa que fez declarações anti-instituições durante sua carreira, ao invés de Haddad”.

O ex-presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, um conhecido crítico do PT e de Lula, também já chamou as alegações de Bolsonaro de “exageradas”.

Mas o vasto fã clube de Bolsonaro parece estar convicto disso tudo, com apoiadores ao redor do país repetindo teorias de ameaça comunista que o PT apresenta.

“Querem transformar nossa bandeira em uma bandeira vermelha – a bandeira do comunismo!” declarou Cleuzenir Barbosa, membro do partido de Bolsonaro no estado de Minas Gerais, alertando que “comunismo severo” e “falência moral” pairam por trás das “lindas e serenas palavras do PT”. “Pior, eu diria, do que a Venezuela ou do que Fidel Castro!”

Paulo Henrique Villas Boas, bolsonarista de Pernambuco, concordou: “Apóiam ditadores como Fidel Castro! Como Maduro! Hugo Chávez! Ditadores na África! Hamas!”

Críticos dizem que o PT – que aproveitou laços com o governo de Chávez com Lula – falhou em neutralizar tais ataques por não ter se distanciado do regime autoritário de seu sucessor, Nicolás Maduro.

Algumas pessoas mais à esquerda do partido até apoiaram publicamente Maduro. Ano passado, a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, indicou apoio ao seu partido socialista por resistir a uma “ofensiva violenta de direita”.

Maurício Santoro, expert de relações internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, chamou a relutância do PT em questionar Maduro como um “grande erro” que trouxe para Haddad “uma série de problemas e nenhum benefício”.

Em uma entrevista recente ao Guardian, Haddad disse que o “ambiente democrático da Venezuela” estava comprometido” mas não criticou Maduro.

Na quarta-feira, ele desviou da questão sobre se considera a Venezuela uma democracia ou uma ditadura, admitindo somente que a situação é “dramática”.

“O papel do Brasil é de líder do seu continente. Não precisamos tomar lados. Não precisamos declarar guerra aos nossos vizinhos”, disse Haddad aos correspondentes internacionais em São Paulo, apontando que o compromisso do PT é com o “princípio da não-intervenção”.

“[A resposta] não são mais balas, mais bases militares, mais guerra...o continente precisa de mais cooperação.”

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores de Lula, era similarmente cauteloso. “A Venezuela está em uma situação complexa, tem muita desigualdade, pode ter cometido erros”, ele disse ao Guardian.

Mas Amorim disse que tais alegações de que seu partido quer que o Brasil siga Caracas, são uma “invenção da direita radical”: “Imaginar que o Brasil seria influenciado pela Venezuela é uma fantasia... um mito, uma mentira”.

Mônica Valente, secretária de Relações Internacionais do PT, acusou Bolsonaro de tentar polarizar a eleição ao “caricaturar” a campanha de Haddad: “Não pode caracterizar a candidatura de Fernando Haddad como sendo de extrema esquerda”.

Isso, no entanto, é exatamente o que a campanha de Bolsonaro está fazendo – com energia e sucesso.

Eduardo e Jair Bolsonaro já enviaram mais de 50 tuites sobre a Venezuela esse ano, salientando a suposta ameaça socialista ao Brasil.

Seu pai retornou ao tema na terça em sua última transmissão falando sobre o  Bolivarianismo, acusando o esquerdista brasileiro de estar “apaixonado pela Venezuela”. “É contra eles. É o Brasil contra os regimes cubano e venezuelano”, declarou Bolsonaro.

A tática parece estar funcionando: na quarta, outro populista de direita alertou para “sofrimento, miséria e falência” que os esquerdistas planejam inflingir.

Em um raro editorial para o USA Today, Donald Trump escreveu que “os novos Democratas são socialistas radicais que querem modelar a economia da América do Norte igual a da Venezuela”. A afirmação indignou oponentes políticos e experts em América Latina, com uma nota do Washington Post: “Não conhecemos nenhum líder democrático que apontou a Venezuela como modelo econômico”.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Isabela Palhares

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