Eleições

A tarefa do momento

No fundo, o apoio ao candidato Bolsonaro se explica mais pelo medo da classe média e da elite com a redistribuição de renda para reduzir a desigualdade social

11/10/2018 12:11

Grupo pró-Bolsonaro cria coreografia (Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: Grupo pró-Bolsonaro cria coreografia (Reprodução/Youtube)

 

Não há nada mais parecido a um fascista do que um burguês assustado
(Bertold Brecht)

Todas as críticas dirigidas ao candidato Bolsonaro procuraram destruir o mito provando que ele é desonesto, incompetente, nunca fez nada, sempre recebeu auxílio moradia tendo casa própria em Brasilia, não entende de nada, nunca contribuiu nem com segurança pública, é misógino, homofóbico, racista, defende a violência com idéias fascistas etc.

Na realidade, essas críticas não colaram no candidato que continuou crescendo. Uma das razões para isso é a grande rejeição ao PT. Muitos eleitores mal conhecem ou mesmo desconhecem o candidato, apenas votam contra o PT.

O envolvimento com corrupção durante o governo do PT é o argumento utilizado, mas não passa de pretexto. Ninguém bateu panela contra a corrupção do governo Temer. Dito isso, é lamentável que o PT nunca tenha feito autocrítica de seus erros no plano ético e político. Aliás, a esquerda em geral sempre considerou o problema da corrupção como questão secundária da superestrutura política, na contramão do que pensa a sociedade e do que dizia o próprio PT na oposição.

No fundo, o apoio ao candidato Bolsonaro se explica mais pelo medo da classe média e da elite com a redistribuição de renda para reduzir a desigualdade social. O temor de ver novamente os pobres se aproximando leva o pequeno burguês a votar em qualquer candidato que garanta, a seus olhos, sua superioridade econômica em relação aos setores de baixa renda.

Outro fator importante foi o apoio dos evangélicos e católicos ao candidato fascista. Metade dos evangélicos (48%) e 35% dos católicos votariam em Bolsonaro, segundo  pesquisa da DataFolha. Esses números podem ter aumentado na onda final da campanha. Isso se deve provavelmente à sua agenda conservadora em matéria de costumes, principalmente no que se refere à liberdade sexual. Os setores religiosos, em nome da "família", rejeitam os direitos relacionados à questão da identidade sexual e o direito de a mulher dispor do próprio corpo: homossexualidade, transgênero, aborto etc.

O crescimento de Bolsonaro na reta final se deve também à absorção de votos dos outros candidatos de direita que desidrataram. No segundo turno, teremos uma eleição plebiscitária: democracia x ditadura, esquerda x nova (extrema) direita, civilização x barbárie. É o momento e  última oportunidade de a esquerda propor uma frente democrática ampla contra o fascismo que, lamentavelmente, não foi feita no primeiro turno.

Num olhar retrospectivo,  já nas Manifestações de 2013 havia soado o alarme do avanço da direita: eram manifestações confusas, com reivindicações misturadas de direita, centro e esquerda. Mas havia algo em comum: a rejeição do sistema político vigente, do sistema representativo e da institucionalidade.  A esquerda ficou confusa e paralisada. Quem extraiu frutos políticos de 2013 foi a direita que depois ganhou as ruas com a campanha do impeachment. E agora, com Bolsonaro, a direita rompe com a legalidade institucional no discurso, prenúncio do que virá na prática.

Se ganhar, o candidato fascista não vai governar com Atos Institucionais, como ocorreu na ditadura militar. Ele já tem o apoio das instituições jurídicas, que lhe foram favoráveis: Ministério Público e Poder Judiciário. A condenação de Lula, sem provas, abriu caminho para Bolsonaro que, se for vencedor, contará com o apoio de boa parte do Legislativo para impor à sociedade a agenda neoliberal liderada pelo capital financeiro: privatizações, supressão  da liberdade e direitos sociais, repressão à cultura,  reformas trabalhistas e da previdência, desnacionalização da economia em favor das empresas multinacionais etc.

Sua promessa de acabar com o "ativismo político" anuncia o Estado Policial que pretende implantar. É típico do fascismo impor o medo por não conseguir  conviver com a diversidade e diferença de opinião. A  repressão às manifestações  populares em defesa dos direitos individuais, sociais e culturais, bem como do patrimônio nacional, estará na ordem do dia.

Diante disso, a tarefa urgente hoje é construir uma Frente Democrática Antifascista. Cabe a nosso candidato Haddad ir além do discurso lulista e  petista. Essa Frente tem de ser Pluripartidária para mobilizar todas as forças democráticas, onde quer que se encontrem, para derrotar a ameaça fascista. E Haddad deveria anunciar que o governo será da Frente, e não apenas do PT.

 Reduzir a rejeição que, junto com os votos,  Haddad herdou de Lula é a grande tarefa do momento.

*Liszt Vieira foi deputado pelo PT/RJ nos anos 80 / Professor da PUC-Rio

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