Eleições

Bolsonaro não trará a paz, e sim a guerra

Guerra contra os pobres, os campesinos e a classe média trabalhadora

12/10/2018 11:07

 

 

São dois os principais argumentos pelos quais muitas pessoas votaram na extrema direita no Brasil: o combate ao crime e à corrupção. A legítima indignação de muitos eleitores é simples: as pessoas querem viver em paz e com segurança, não querem mais enganações e abusos, desejam prosperidade para eles e suas famílias. Pois bem: Bolsonaro, os que movem os fios que o controlam e que o apoiam, representam exatamente o contrário.

Se confirmar sua vitória no segundo turno eleitoral, ele não combaterá os corruptos no parlamento, nem o aparato do Estado, o empresariado ou os meios de comunicação, porque precisa deles para governar.

Se Bolsonaro triunfar, não trará a paz, e sim a guerra.

Guerra contra os pobres, os campesinos e a classe média trabalhadora

O programa econômico do fascismo brasileiro será comandado pelo economista Paulo Guedes, educado e exercitado no fanatismo neoliberal. Privatizará as empresas e bens do Estado e instaurará um regime similar ao de Pinochet no Chile: cortará direitos trabalhistas, como o 13º salário garantido por lei, as horas extras, privatizará o sistema previdenciário, condenando os atuais aposentados à miséria, e acabará com os programas de ajuda aos pobres, como o Bolsa Família e outros.

Guedes também é sócio e membro do comitê executivo de um fundo de investimentos, o que leva à fácil conclusão de que o Brasil se tornará uma economia financeira, dependente, e de preponderante exportação primária, deixando de lado o desenvolvimento industrial e científico, o que dificultará a inserção no trabalho de pessoas com formação técnica e terciária.

Com a especulação e a venda de ativos e instituições do Estado, se liquidarão milhões de postos de trabalho que hoje são o sustento da classe média trabalhadora, e diminuirá o consumo e o mercado interno, do qual vivem os comerciantes e a maior parte da classe média independente, como acontece hoje na Argentina.

Ao aumentar o desemprego, os salários serão mais baixos e o trabalho mais precário, dependente da vontade do patrão, como eram antes das reformas da Era Vargas.

O candidato apoiado pelo poder disse também que acabará com “todo tipo de ativismo”, em clara referência aos movimentos que reclamam por terra e por teto, no âmbito rural e urbano respectivamente. Com isso, ele dá um sinal claro aos seus sócios latifundiários, que agora, mais do que nunca, terão carta branca para atacar, com jagunços e milícias, primeiro os camponeses organizados e depois as comunidades indígenas e tudo o mais que se opor às suas ordens e à extensão de seus domínios no campo. Da mesma forma, esse discurso abre espaço à repressão de qualquer protesto social pacífico que reivindique direitos sociais, consolidando as premissas antipopulares e escravistas que impulsaram o golpe contra o governo de Dilma Rousseff.

Por tudo isso, nenhum pobre, nenhum camponês e ninguém que se considere de classe média deveria votar por Bolsonaro no segundo turno.

Guerra contra a Educação, aa Saúde e a Cultura

Bolsonaro será somente um títere, não a pessoa que dará as ordens. Os verdadeiros governantes serão os bancos, os militares, um setor da igreja pentecostal e os Estados Unidos. Será um país para poucos, para os que podem pagar. Deste modo, a educação e a saúde de qualidade serão caras. As universidades perderão o financiamento, a educação pública perderá investimento, os programas de assistência ao desenvolvimento educativo aos setores marginados serão cortados, centros de saúde serão fechados nas periferias e hospitais do Estado ficarão desabastecidos.

O que é público será esvaziado para obrigar as pessoas a se entregarem ao domínio do privado, tal como aconteceu nos Anos 90. A cultura será um privilégio para os endinheirados, como foi na época aristocrática e monárquica. Não haverá fomento estatal para o cinema e as artes, a cultura livre terá que sobreviver com outros trabalhos, se é que os encontrará.

Por tudo isso, nenhum estudante ou professor, nenhum médico ou enfermeiro ou paciente da saúde pública, nenhum cantor, pintor, escultor, escritor, ninguém do mundo da arte e da cultura deveria votar por Bolsonaro no segundo turno.

Guerra armada

No caso de ser eleito, o candidato extremista militarizará o combate ao delito. Acreditar que isso acabará com o delito ou o narcotráfico é um pensamento ingênuo. O único que se consegue com isso é o aumento indiscriminado da violência e dos homicídios. Basta ver o que acontece no México. De acordo com fontes oficiais, entre 2006 – data na qual o governo de Felipe Calderón instalou a “guerra contra o narcotráfico” com efetivos militares – e 2018, morreram no país cerca de 250 mil pessoas. A grande maioria pobres, tanto do lado do crime quanto das Forças Armadas. Mas também houve milhares de vítimas inocentes, mulheres, crianças, jornalistas e defensores de direitos humanos. O Brasil tem 200 milhões de habitantes, 75 a mais que o México, e uma política dessas características terminaria claramente em um genocídio.

Por outro lado, Bolsonaro diz explicitamente que quer liberar o porte de armas, ao estilo norte-americano. Isso levaria a matanças nas escolas, justiça pelas próprias mãos em cada esquina, ajustes de contas permanentes, um virtual estado de guerra civil. Com isso, longe de diminuir, o delito aumentará pela facilidade dos delinquentes em conseguir armamento.

Por isso, quem realmente quiser viver em paz, quem odeia o delito e a violência, não deveria votar por Bolsonaro no segundo turno.

Guerra religiosa

O Brasil tem sido, ao longo de sua história, uma nação que sempre tolerou as mais diferentes crenças. Neste grande país, conviveram o cristianismo, os cultos de origem africana, além de grandes comunidades imigrantes de credo muçulmano, judeu, xintoísta e budista, que foram acolhidas e integradas. Do mesmo modo, floresceu neste país a cultura espírita, o ateísmo e várias gerações cresceram ao calor da fé positivista, que plasmou sua influência no lema inscrito na bandeira verde-amarela.

Há cerca de duas décadas, começou a crescer no seio do cristianismo uma corrente pentecostal militante que ganhou forte adesão na população esquecida das periferias.

Bolsonaro foi católico durante quase toda a vida e recentemente se converteu à igreja evangélica – provavelmente por cálculo político –, estabelecendo uma aliança com o milionário pastor Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e também dono da Rede Record de televisão, como aliado chave para chegar ao poder. O objetivo é claro: transformar o país, progressivamente, numa espécie de teocracia evangélica, modificando o aparato legal, como faz o fundamentalismo islamista em diversos países do Oriente Médio e da África.

Por isso, quem preza sua tolerância religiosa e vive sua espiritualidade com amor pelos demais, quem rejeita com indignação a possibilidade de que uma única fé seja imposta e que se discrimine e se persiga os diferentes, aquele que, sobre todas as coisas, sente a humanidade em todos, independentemente de sua adesão a um credo, não deveria votar em Bolsonaro no segundo turno.

Guerra aos que pensam ou vivem diferente

A diferença é o que horroriza o fascismo. A liberdade de expressão e opinião, a livre eleição sexo-afetiva, a multiplicidade de formas familiares e comunitárias, as opções, a diversidade. A visão do mundo do fascismo é uniformar tudo e todos, é pensar de um só modo, é não questionar o mundo, as normas, os hábitos. Tudo deve ser determinado e obedecido, sob pena de ser castigado ou excluído.

O discurso intolerante, homofóbico, machista e a justificação do ódio vão envenenar a atmosfera social, desatando a agressividade de um setor da população que, independente das práticas governamentais, se lançará sem dúvida em novos atos de violência.

Por isso, toda pessoa crítica, democrática, que ame a liberdade e goste do intercâmbio de opiniões, da diversidade de cores do arco íris e a profusão de formas e espécies existente na própria natureza, todo aquele que admire a maravilha da invenção e da criatividade humana, não deveria votar em Bolsonaro no segundo turno.

Guerra aos negros e aos indígenas

Ao observar como votaram as regiões no Brasil, se manifesta uma verdade histórica. Embora seja verdade que os governos de Lula e Dilma fizeram muito pelo esquecido Nordeste brasileiro – o que foi retribuído nas urnas com o apoio a Haddad – é evidente como o Sul, que concentra a maior parte da economia brasileira, favoreceu o candidato direitista. Assim como sucedeu com os estados escravistas do sul dos Estados Unidos antes da Guerra da Secessão, o Sul brasileiro parece albergar ainda um setor racista, enquanto o Nordeste, pátria de quilombos, parece se constituir novamente no reduto de independência para os descendentes daqueles que foram liberados da escravidão.

A memória histórica e a intuição dificilmente se equivocam. Um governo tutelado pelos militares brasileiros teria pouco o que oferecer aos negros, a não ser a renovação dos horríveis grilhões, através da retirada do direito a gozar de oportunidades iguais.

Algo similar ocorreria com os povos indígenas. Continuariam sendo humilhados, discriminados, expulsos de seus territórios para favorecer a indústria madeireira, a mineração em grande escala, as extensões de cultivo de biodiesel, os megaprojetos de infraestrutura, a exploração dos aquíferos. Em suma, a total degradação de um meio ambiente que alimenta material e culturalmente as 250 comunidades indígenas que habitam no território brasileiro.

Por isso, a população negra, mestiça e indígena não deveria votar em Bolsonaro.

Guerra na América Latina e no Caribe

Assim como um governo de Fernando Haddad favoreceria a reaproximação do Brasil com a América Latina, ajudando a recompor a bloqueada integração regional e sendo um fator de importante distensão diplomática, um triunfo de Bolsonaro no segundo turno levaria a um aumento da agressão contra países governados pela esquerda, como Venezuela, Bolívia, Nicarágua e El Salvador. Pior ainda, o militarismo que hoje comanda a campanha do candidato seria a voz decisiva nesse governo, e por isso não seria estranho pensar que ele estabeleceria um eixo comum com o governo colombiano, hoje nas mãos do uribismo, para aumentar a ameaça de eventuais ações bélicas conjuntas na fronteira com a Venezuela.

De ser uma potência aliada ao pujante multilateralismo emergente através dos BRICS (junto com Rússia, Índia, China e África do Sul), o Brasil passaria a ser, novamente, apenas um estado subalterno dos Estados Unidos, degradado ao grau de sargento para a América Latina e o Caribe.

Ao mesmo tempo, a ascensão de um governo sob a tutela militar – em claro paralelo ao gabinete de Trump – estimularia alguns integrantes e facções de diversos exércitos latino-americanos a pensar em replicar o exemplo, conduzindo a região toda de volta à época obscura das ditaduras militares.

A possibilidade de novos conflitos bélicos, a guerra interna e a ameaça de um governo ditatorial deveriam bastar para que os amantes da paz e do desenvolvimento humano retirem todo o apoio a Bolsonaro.

Guerra contra as mulheres

O candidato da extrema direita mostrou uma atitude discriminatória e uma total falta de respeito às mulheres. Dizer que uma mulher é “feia demais para merecer ser estuprada”, considerar que ter uma filha mulher é um sinal de “fraquejada”, justificar a diferença salarial entre homens e mulheres ou se opor às cotas femininas porque “se colocam mulheres porque sim vão ter que contratar negros também”, são alguns dos insultos com os que Bolsonaro transparentou o que realmente pensa das mulheres (e dos negros).

Se além desta atitude pessoal, agregamos o caráter profundamente retrógrado e violento dos grupos que o apoiam, a conclusão é óbvia: seu governo vai se opor aos direitos conquistados pelas mulheres em árdua luta, modificará os programas de educação sexual e reprodutiva, freará qualquer iniciativa que vise despenalizar o aborto. O estupro e a violência contra a mulher voltarão a ser assunto privado e não de Estado, o que se desentenderá de qualquer promoção ativa da mulher no âmbito educativo, trabalhista ou científico.

Esta visão de mundo relega a mulher a um papel submisso e obediente assignado pelo patriarcado.

É por isso, e por todos os casos anteriores, que as mulheres brasileiras têm uma missão crucial neste 28 de outubro. Assim como milhões de irmãs de todas as épocas, elas têm em suas mãos, em seus corações e seus votos, junto com a maioria de homens bons e verdadeiramente piedosos, a possibilidade de evitar a guerra. Desta vez, antes dela começar.

Javier Tolcachier é investigador do Centro Mundial de Estudos Humanistas e comunicador da agência internacional de notícias Pressenza. Investigador do Centro Humanista de Córdoba e associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicada em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli


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