Eleições

Bolsonaro, o menino do Brasil

O possível triunfo de Bolsonaro pode ter graves consequências, e não só para o gigante sul-americano

19/10/2018 16:13

 

 

Joseph Mengele, o médico nazista que realizou vários experimentos genéticos na Argentina, Uruguai e Brasil, se transformou em uma lenda que inspirou relatos e filmes, como “Os Meninos do Brasil” e “Wakolda”.

Em “Os meninos do Brasil”, o propósito de Mengele era produzir uma geração de clones de Hitler. Ele estudou na Alemanha as especialidades científicas de eugenia e da limpeza racial, na busca por encontrar os elementos de superioridade da raça ariana.

Era conhecido como o “anjo da morte”, devido aos muitos assassinatos cometidos sob suas ordens e com a sua participação, especialmente no campo de concentração de Auschwitz, e também por seus experimentos de métodos e resultados letais. Foi declarado pelo Tribunal de Nuremberg como um dos criminosos de guerra mais atrozes do regime nazista.

Entretanto, Mengele sempre conseguiu escapar, da polícia da Alemanha pós-nazi, do Mossad israelita e dos caça-nazis, durante mais de três décadas. Nesse tempo, seguiu com seus experimentos cruéis na América austral. Não se sabe de nenhum deles que tenha produzido os frutos esperados. Os cientistas nazistas, como Mengele, partiam de premissas falsas a respeito da transmissão da herança genética. O processo do descobrimento do DNA, que rende suas primeiras certezas em 1953, passou batido por suas pesquisas, ou foi deliberadamente ignorada, por não confirmar as crenças ideológicas do regime. Com tudo o que pode haver de influência dos genes nas características de condutas dos indivíduos, pode-se dizer que o meio social e sua carga educativa, emocional e cultural são mais determinantes neles que sua bagagem genética.

Os nazistas nos herdaram menos ciências que capacidade para manipular as consciências. Mengele é um monstro de segunda categoria ao lado do seu refinado xará Goebbels e seu conhecimento das respostas coletivas para facilitar o alcance de objetivos políticos de domínio. Essas que agora se expressam em certos lugares da Europa, nos Estados Unidos e em outros países. Já nos levaram e continuam levando a reedições do discurso nazista elaboradas com terminologia de aparência científica. Seus frutos amargos são o racismo, a intolerância e o ódio à multiculturalidade, provocada pelas migrações em massa de diferentes latitudes. Ilustrativo é o caso do massacre de Utoya, uma ilha da Noruega habilitada para a realização de acampamentos de verão, que foi recriado literariamente e levado às telas de cinema em duas versões. Planejado e realizado a sangue frio por um único indivíduo, esse episódio sangrento registrou um saldo de mais de 70 vítimas, e deu uma ideia da demência que pode se tornar realidade a partir da reinvindicação da supremacia ideológica do Terceiro Reich.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, em uma carta dirigida aos intelectuais do mundo, adverte sobre o perigo que ameaça o Brasil, com inegáveis repercussões no resto do planeta, se for confirmada a eleição do ultradireitista Jair Bolsonaro. Xenófobo, misógino, homofóbico, partidário da pena de morte, da tortura e apologista da ditadura militar, entre outros absurdos, ele ganhou o primeiro turno contra Fernando Haddad, candidato da esquerda. No país, já se fala em queima de livros que contenham ideias marxistas, e outras medidas inspiradas pela barbárie contra a cultura. O anúncio claro de uma criatura ideológica do nazismo contra a arte degenerada.

A descendência manipuladora de Hitler, Goebbels e demais correligionários segue presente. Os brasileiros – e muitos outros – devem ter se esquecido que o nazista chegou ao poder através de eleições legais e com o apoio da classe média seduzida pela propaganda demagógica, e que seu ídolo foi obra do precursor dos profissionais do marketing em voga. Os críticos acusaram Hitler de vulgaridade, violência, gestos agressivos. O mesmo que se viu em Trump, e que vimos também em certos personagens mexicanos (por exemplo, o presidenciável Jaime “El Bronco” Rodríguez Calderón). Triunfaram, embora sua própria fusão de campanha política e exercício de governo os desinflou. Muitos dos seus eleitores entenderam o erro, mas tarde demais para que ele pudesse ser corrigido. O fenômeno agora se repete no Brasil, que vê como sua crise econômica e política pode parir um monstro impulsado pela via eleitoral.

A direita, os renegados da esquerda e outros setores malqueridos se prepararam no Brasil para buscar os pontos fracos do Partido dos Trabalhadores e golpeá-lo no momento certo. E os encontraram. É a mesma fórmula que pretendem usar (e que o farão) as forças parecidas e que atuam contra o próximo governo do México. O problema não está nessa busca das fragilidades, e sim no fato das que os seus integrantes mesmos demonstram: inconsistências, contradições, patifarias, justificações e não razões, que os levam a ceder às tentações, abandonando a solidez em sua prática em nome de um sistema pervertido, cujos edificadores se vão, mas deixam os espaços pegajosos aos novos ocupantes.

Tem razão Manuel Castells, o possível triunfo de Bolsonaro pode ter graves consequências, e não só para o gigante sul-americano.

*Publicado originalmente no La Jornada

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