Eleições

Brasil: Lula desiste, mas fará campanha das profundezas da penitenciária

Com o ultimato de justiça eleitoral, o ex-presidente do Brasil anunciou que Fernando Haddad, seu ex-ministro da educação, o substituirá na eleição presidencial de 7 de outubro, em que era franco favorito

13/09/2018 19:01

Fernando Haddad, o candidato presidencial, com sua mulher, Ana Estela; à direita, Manuela d'Ávila, candidata a vice do Partido Comunista do Brasil, e Dilma Rousseff, a presidente brutalmente deposta (Rodolfo Buhrer/Reuters)

Créditos da foto: Fernando Haddad, o candidato presidencial, com sua mulher, Ana Estela; à direita, Manuela d'Ávila, candidata a vice do Partido Comunista do Brasil, e Dilma Rousseff, a presidente brutalmente deposta (Rodolfo Buhrer/Reuters)

 

Luiz Inácio Lula da Silva "nunca aceitou a injustiça e nunca a aceitará", diz o ex-presidente do Brasil de sua cela em Curitiba (sul), onde está arbitrariamente detido há quase 160 dias. Ao final de uma cabala político-judicial, iniciada na esteira do golpe institucional que desalojou Dilma Rousseff do poder em 2016, o histórico fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) anunciou que estava desistindo da eleição presidencial de 7 de outubro. Uma decisão tomada com relutância, sob a restrição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o intimou a encontrar um substituto antes da terça-feira. Pouco importa, já que na própria segunda-feira o Comitê de Direitos Humanos da ONU mais uma vez solicitou ao Estado brasileiro a garantia do pleno exercício a Lula de seus direitos políticos.Três dias antes, o juiz do TSE, Felipe Salomon, havia banido as palavras "Eu sou Lula" do material de campanha da principal formação de esquerda e dos comícios. "Eles não querem apenas deter e banir o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Eles querem deter e banir o projeto de Brasil que a maioria dos brasileiros aprovou em quatro eleições consecutivas (...) Na verdade, eles proíbem o povo brasileiro de votar livremente para mudar a realidade do país", afirmou ele em "carta ao povo brasileiro".

"UM HOMEM PODE SER INJUSTAMENTE PRESO, MAS NÃO SUAS IDÉIAS"

Neste discurso, o ex-metalúrgico confirma, sem renunciar à luta, que será substituído por Fernando Haddad, que "até agora desempenhou com extrema lealdade o papel de candidato à vice-presidência". No contexto da coalizão O Povo Feliz de Novo, a líder comunista Manuela d'Avila completará a chapa presidencial com Haddad. Este último, muito menos conhecido do que Lula - que, vamos lembrar, deixou a presidência em 2010 com uma taxa de aprovação de 87% - foi, no entanto, uma figura chave no sucesso das políticas de inclusão de seus governos. "Haddad é o coordenador do nosso plano do governo para tirar o país da crise. Ele recebeu milhares de contribuições de pessoas e discutiu-as, ponto por ponto, comigo. Ele será meu representante nessa luta para retomar o rumo do desenvolvimento e da justiça social", afirma Lula.

Quer dizer, se o líder da esquerda não capitular. Das profundezas de sua penitenciária ele fará campanha "porque um homem pode ser injustamente aprisionado, mas não suas ideias. Nenhum opressor é superior ao povo ", escreve ele.

"É um momento de dor, indignação e revolta", disse a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, acrescentando que seu partido assumia "o desafio da presidência do Brasil". Em um primeiro comício de campanha às portas da prisão onde Lula se encontra, Fernando Haddad aceitou a responsabilidade que agora lhe era confiada. "Sinto a dor de muitos brasileiros que sabem o que nossos governos representaram, a dor de dois terços da população" até agora excluída e privada de direitos, lembrou o ex-prefeito de São Paulo, tendo a seu lado, Dilma Rousseff, Manuela d'Avila e vários líderes do Partido dos Trabalhadores, candidatos à reeleição. Em seu discurso, ele lembrou os grandes avanços registrados desde 2002, começando com os 36 milhões de brasileiros que saíram da pobreza. Ele também se lançou em um sincero apelo por Lula, um homem "do povo, que representou um antes e um depois". "Qual é o seu grande pecado? Ele fez o que os (outros) nunca fizeram em quinhentos anos (...) em favor do povo (...). Um povo que não pede um favor, mas uma oportunidade ", disse ele.

A DEMOCRACIA BRASILEIRA ESTÁ EM DECLÍNIO

Fernando Haddad terá assim a tarefa titânica, em tempo muito curto, de convencer os eleitores, a fim de se beneficiar da melhor transferência de votos. Para isso, ele poderá contar com seu maior trunfo, a saber Lula. Pois, apesar de seus revezes com a justiça, sua popularidade permanece intacta, como atestam as intenções de voto nas pesquisas de opinião. Evidência de que sua detenção não teve o efeito esperado por seus detratores. O ex-presidente também recebeu o apoio de muitas personalidades latino-americanos e europeias - incluindo François Hollande, Romano Prodi, Martin Schulz -, convencidos de sua inocência depois da sentença de doze anos de prisão por um suposto caso de corrupção, mas sem qualquer indício de culpa, como reconheceu o controverso juiz Moro, que proferiu a sentença,.

Na verdade, desde o golpe de Estado contra Dilma Rousseff, a democracia brasileira está em decomposição. Os mais altos escalões do exército proferem ameaças, enquanto a extrema direita se fortalece. O candidato Jair Bolsonaro, racista, homofóbico, favorável à liberação do porte de armas e nostálgico da ditadura militar, espera beneficiar-se da ausência de Lula, enquanto aparece com 24% das intenções de votos, após o ataque fracassado que sofreu na última quinta-feira. A detenção de Lula e agora sua desistência não põem fim à crise política. Ela está bem viva.

Lula, no centro das atenções na vila do mundo

Lula e os progressistas brasileiros estarão no centro das atenções no Village du monde no sábado, 15 de setembro, às 18 horas, na área de debate de Fernand-Tuil. Um primeiro encontro em torno do tema "Do golpe de Estado de 2016 ao encarceramento do candidato Lula, podemos falar de democracia no Brasil? reunirá Raul Amorim, do Movimento dos Sem Terra e membro da Frente Brasil Popular, Maud Chirio, historiadora e especialista da história contemporânea do Brasil, e Carla Sanfelici, membro do Partido dos Trabalhadores. Após o debate, haverá uma noite de solidariedade musical, Lula libre!, animada pelo Monica Passos Quartet.

*Publicado originalmente no l'Humanité | Tradução de Aluisio Schumacher

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