Eleições

Cerca de 25% das eleições nacionais no mundo são decididas pelo Google, afirma especialista

Entrevista com Dr. Robert Epstein, pesquisador em psicologia do Instituto Estadunidense de Tecnologia e Pesquisa Comportamental, autor de um inovador estudo do Efeito da Manipulação de Mecanismo de Busca, publicado nos anais da Academia Nacional de Ciências dos EUA

28/09/2018 14:27

(REUTERS/Mike Blake)

Créditos da foto: (REUTERS/Mike Blake)

 

O Wall Street Journal reportou, citando e-mails da empresa vazados, que empregados da Google tinham estudado alterar resultados de buscas para se contrapor ao que eles viam como "islamofobia" e "preconceito".

Entretanto, segundo a empresa, nenhuma das sugestões foi implementada e ela nunca manipulou seus resultados de buscas ou modificou nenhum de seus produtos para promover uma ideologia política específica.

A Sputnik conversou sobre o assunto com o Dr. Robert Epstein, um experiente pesquisador em psicologia do Instituto Estadunidense de Tecnologia e Pesquisa Comportamental, que produziu um inovador estudo do Efeito da Manipulação de Mecanismo de Busca, que foi publicado nos anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América.

Sputnik: Qual é a sua visão sobre a reportagem que afirma que empregados da Google podem ter influenciado as buscas? Você acredita que este é realmente o caso ou isso é somente uma invenção?

Robert Epstein:
Estou convicto de que é este o caso. Estou ciente já há muito tempo de que empregados e executivos da Google são muito metódicos, premeditados e estratégicos quanto a alterar seus rankings de buscas de forma a ter segurança para a empresa. Inclusive, no ano passado, a UE multou a Google em € 2,4 bilhões especificamente por haver resultados de busca que foram distorcidos a favor do serviço de compras comparativo da Google. Simplesmente não há dúvidas de que isso é feito regularmente na empresa, e acho que este vazamento que vimos alguns dias atrás deu-nos uma indicação precisa do que eles fazem.

Sputnik: É possível acreditar que a Google faça algum tipo de manipulação empresarial, embora tivesse que ser neutra. Tem havido algumas notícias recentemente sobre alguns de seus executivos reclamando do fato de Donald Trump ter chegado ao poder; eles estavam fazendo discursos quanto a quão tristes eles estavam que o Partido Democrata não tinha vencido. Você tem alguma sugestão ou sensação pessoal em relação à intolerância deles em relação a figuras adversárias intimidadoras específicas?

Robert Epstein:
Acho que temos um enorme problema aqui porque minha própria pesquisa, bastante extensa, mostra que quando um candidato, causa ou produto é favorecido nos resultados das buscas, isso muda a opinião, o comportamento e os votos de forma bastante intensa. Isso é com certeza um sério problema que precisa ser abordado de forma muito enérgica pelas autoridades governamentais, não só nos EUA, mas, provavelmente, em todo o mundo.

Sputnik: Que consequências podem ter esses problemas vindos das gigantes de tecnologia na liberdade de expressão online? É uma pergunta geral que vem sendo feita durante os últimos doze meses, e existe uma regulação dessas gigantes da tecnologia, mas é algo muito difícil para a polícia avançar, não é mesmo?

Robert Epstein:
Na verdade não. Primeiro, só para dar uma ideia de quão poderosas essas manipulações são, através do favorecimento a um candidato nos mecanismos de busca, pode-se facilmente modificar 20% dos votos dos indecisos, e até 80% dos votos dos indecisos em alguns grupos demográficos, sem que ninguém saiba que eles estão sendo manipulados. Ou seja, essas manipulações são muito poderosas; elas são completamente invisíveis para as pessoas e estão entre as manipulações mais poderosas que já foram descobertas nas ciências comportamentais.

É preciso fazer alguma coisa; isso não é opcional. E também existe a forma de se verificar o que é que eles estão fazendo. O Washington Post fez uma reportagem no ano passado sobre meu sistema de monitoramento que desenvolvi em 2016 para monitorar parcialidade nos mecanismos de busca antes das eleições presidenciais de 2016 nos EUA. Encontramos extensa parcialidade em todas as dez posições de busca na primeira página dos resultados de busca no Google, todos favorecendo Hillary Clinton. Dado o poder que resultados de busca parciais têm para mudar opiniões, comportamento e votos, esta é uma questão muito séria.

Sputnik: O procurador-geral dos EUA supostamente vai se reunir com procuradores-gerais estaduais para discutir preocupações sobre uma parcialidade anticonservadora por parte da indústria da tecnologia; quão sério é o assunto?

Robert Epstein:
É sério mas não estou tão preocupado com a parcialidade anticonservadora. Estou preocupado com uma questão muito maior, que é quem deu à Google esse tipo de poder de decidir o que devemos ver, qual ordem devemos ver e qual não devemos ver; em outras palavras, o que deve ser censurado ou suprimido. Quem deu a eles esse poder é a maior questão.

Eles podem estar suprimindo conteúdo conservador hoje, mas amanhã podem estar suprimindo conteúdo liberal; não importa. Eles não deveriam ter esse tipo de poder porque esse poder modifica opiniões e votos por todo o mundo. Estimei que cerca de 25% das eleições nacionais no mundo estão hoje em dia sendo decididas pela Google.

Sputnik: Isso é muito interessante, surpreendente e até um pouco chocante; que medidas podem ser implementadas para resolver essa questão? Você tem um prognóstico sobre isso?

Robert Epstein:
Estou trabalhando com parceiros de negócios e acadêmicos em três continentes hoje em dia para construir sistemas de monitoramento que realmente serão capazes de detectar o que a Google e outras empresas de tecnologia como o Facebook estão de fato mostrando às pessoas. Eles realmente serão capazes de detectar em uma escala muito grande se existe parcialidade ou favoritismo, se há manipulações, e seremos capazes de juntar uma enorme quantidade de dados para documentar isso à medida que ocorre.

No momento, estes sistemas de monitoramento não existem; construí um pequeno em 2016 mas como eu disse, estou trabalhando agora com pessoas em várias partes do mundo para construir grandes sistemas de monitoramento. Estes sistemas vão fazer com que essas empresas prestem contas ao público agora e no futuro, e nos muitos anos que virão.

As opiniões expressas neste artigo são somente do Dr. Robert Epstein e não necessariamente refletem a posição oficial da Sputnik.

*Publicado originalmente no Sputniknews.com | Tradução: equipe Carta Maior

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