Eleições

Comentários a respeito do debate, organizado pelo DCE-UFRGS, entre os candidatos a governador do Rio Grande do Sul

 

22/08/2018 16:04

Debate do DCE da UFRGS reuniu três candidatos e dois representantes na noite desta segunda-feira (20) (Guilherme Santos/Sul21)

Créditos da foto: Debate do DCE da UFRGS reuniu três candidatos e dois representantes na noite desta segunda-feira (20) (Guilherme Santos/Sul21)

 
No dia vinte de agosto desse ano, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) promoveu um debate entre os candidatos a governador do Rio Grande do Sul, no auditório da faculdade de Ciências Econômicas. O auditório esteve lotado, diante de uma iniciativa de tamanha relevância, sobretudo pelo período turbulento pela qual atravessa a democracia brasileira. Não custa lembrar que a universidade, por excelência, é o lugar onde deve reinar o diálogo, os projetos, as ideias e os ideais.

Não obstante, ainda que de acordo com a organização do evento todos os candidatos tenham sido convidados, confirmaram presença no debate somente os candidatos Miguel Rossetto (PT), Roberto Robaina (PSOL) e Júlio Flores (PSTU).

Os partidos do PDT e do NOVO enviaram apenas representantes. Sem dúvida alguma um menosprezo substantivo dos candidatos Jairo Jorge (PDT) e Mateus Bandeira (NOVO) para com o evento. Afinal, o que justificaria as suas ausências? Não estaria a principal Instituição de Ensino Superior do estado às suas alturas? Ou, então, quem sabe não seria a educação pública uma de suas prioridades?

O desprezo do partido NOVO para com a educação pública, contudo, não causa espanto. Basta olhar o patrimônio de seus principais candidatos. Tanto Mateus Bandeira, candidato a governador do RS, como João Amoedo, postulante ao cargo de presidente do Brasil, classificam-se como os mais ricos em suas disputas. O patrimônio do primeiro é estimado em R$ 25 milhões, uma cifra 401% maior do que a soma do patrimônio de todos os outros candidatos a governador do RS. Já o patrimônio declarado de Amoedo calcula-se em R$ 425 milhões. Tal partido, portanto, não tem compromisso com o povo, dialoga com a elite (seria a elite do atraso a qual descreve Jesse Souza?). Não há compromisso com o serviço público de qualidade, pois para o seu eleitor potencial quanto maior a segregação da sociedade, e o seu exclusivismo, melhor. As palavras-chave no discurso desse partido são: liberdade de impostos, livre mercado, soberania da propriedade privada e não interferência do estado nas esferas sociais e econômicas. Nesse sentido, não deixa de ser curioso notar que do quase meio bilhão de reais declarado do Sr. Amoedo, metade está em renda fixa, o que significa que ele lucra sobremaneira comprando títulos da dívida pública brasileira, através da remuneração das taxas de juros brasileiras, uma das maiores do mundo. Pari passu, o seu partido, assim como o atual governo federal e estadual do RS, apoia incessantemente o congelamento de investimentos em áreas sociais, de modo a direcionar qualquer aumento de receita para os bolsos destes mesmos detentores de títulos da dívida pública (obedecendo a cartilha do superávit primário ditada pela Elite Financeira do Capitalismo Neoliberal).

No caso de Mateus Bandeira, também é notória a demagogia em sua retórica. Tanto este último (como o seu partido de modo geral) clamam não serem políticos, mas sim gestores, empreendedores. Indivíduos externos ao círculo político tradicional, destinados a acabar com as regalias daqueles que se apoderam do estado. Bandeira, todavia, além de ter sido servidor concursado do Estado, acumula em seu currículo Cargos de Confiança (assessor) sob o comando de diversos partidos. Trajetória esta, do ponto de vista político, bastante convencional, nada novo (ou seria tudo novo?).

A ausência direta do Partido Democrático TRABALHISTA no debate da UFRGS também levanta inquietação[1]. Como confiar em um candidato que dispensa o diálogo com a universidade, com estudantes - seja no presente ou no futuro - trabalhadores? Não se pode perder de vista que esse mesmo PDT há não muito compunha a base aliada do Governo Sartori (vide secretaria da educação) e não foi capaz de obter unanimidade de sua bancada na defesa das Fundações do estado (aproximadamente 30% dos parlamentares do PDT votaram pela extinção das fundações). É digno recordar que ao decretar o fim de 9 fundações, o governo abdicou justamente de instituições que têm como prerrogativa o planejamento socioeconômico, a proteção da biodiversidade e a valorização da cultura e da comunicação pública no Rio Grande do Sul.

Já os candidatos José Ivo Sartori (PMDB) e Eduardo Leite (PSDB) foram ainda mais longe no seu desprezo à educação e à universidade pública. Negaram o convite para participar do debate na UFRGS e não enviaram ninguém para representá-los.

De líderes políticos esperam-se propostas, projetos, mas também coragem para encarar as dificuldades que a realidade concreta impõe. E poucos não são, os emblemas que a comunidade universitária, composta em grande parte por jovens, enfrenta.

De acordo com dados do IBGE – da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (PNAD) –, por exemplo, o rendimento médio real mensal dos jovens gaúchos, entre 18 e 24 anos, declinou de R$1408 no 1º trimestre de 2015 (o 1º trimestre sob o governo PMDB de Sartori) para R$ 1304 no 2º trimestre de 2018 (último período com dados disponíveis), o que representou um decréscimo de 7,4% no rendimento médio real desses jovens gaúchos. Ao mesmo tempo, a diferença do rendimento médio real mensal dos jovens gaúchos, entre 18 a 24 anos, para o rendimento dos jovens brasileiros de mesma idade declinou 3,6% nesse mesmo período (no 1º trim de 2015 essa diferença de rendimento era de R$ 169 em favor do RS, já no 2º trim de 2018 a diferença caiu para R$ 163). Isto é, tanto em termos absolutos como em termos relativos à média nacional, o jovem gaúcho tem experimentado perda de rendimentos ao longo do governo Sartori (PMDB).

Este cenário se torna ainda mais paradoxal aos defensores da teoria neoclássica se observarmos que a média de horas trabalhadas por semana do jovem gaúcho é maior do que a média do jovem brasileiro (no 2º trimestre de 2018 foram 37,9 horas para o RS ante 36,8 para o Brasil) e essa diferença aumentou de 0,6 horas no 1º trimestre de 2015 para 1,1 horas no 2º trimestre de 2018.

Per se, tal situação já justificaria moralmente a presença do atual governador no debate, com o intuito, ao menos, de propor alternativas e explicar o porquê desse pífio desempenho. Contudo, o panorama é ainda mais nefasto. 

Se analisarmos a taxa de desemprego dos jovens gaúchos entre 18 e 24 anos, por exemplo, verifica-se que esta aumentou de 13,9% no 1º trimestre de 2015 para 18,8% no 2º trimestre de 2018. Ademais, a diferença (em termos de pontos percentuais) entre a taxa de desemprego gaúcha para todas as faixas de idade e a taxa de desemprego exclusiva dos jovens gaúchos aumentou de 8,3 no 1º trimestre de 2015 para 10,5 no 2º trimestre de 2018, dado que a taxa de desemprego total gaúcha nesse período relativo ao governo Sartori se elevou de 5,6% para 8,3%.

O comportamento escuso destes políticos, candidatos ao cargo mais importante do Poder Executivo do estado e que se recusam ao debate em ambiente universitário, reforça o resultado de recente pesquisa Datafolha. Segundo indica esta última, ante o manifesto desejo de sair do país de 43% da população adulta, 62% dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos declararam que mudariam de país se pudessem. O equivalente a 19 milhões de cérebros (ou corações), tão vitais ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Conforme também revela essa pesquisa, o total de vistos para imigrantes brasileiros nos Estados Unidos dobrou entre 2008 (ano de crise global) e 2017, bem como desde 2016 dobrou o número de vistos para estudantes, empreendedores e aposentados que pretendem fixar residência em Portugal.

Estes são apenas alguns sintomas de que a frustação e a desesperança dos jovens brasileiros, e em particular dos jovens gaúchos, não são infundadas. Muito pelo contrário. Encontram base material no agravo de inúmeras variáveis, algumas apontadas acima, econômicas e sociais.

Por tais razões, com a proximidade das eleições é preciso estar atento à seriedade e ao respeito pela qual os candidatos devotam às pautas da comunidade universitária (estudantes, estudantes-trabalhadores, professores, funcionários administrativos e terceirizados, instalações físicas e tecnológicas, verbas a pesquisa, além de muitas outras).

A despeito das distintas candidaturas, visões e planos de governo, há de se concordar que ausentar-se de um debate vai de encontro ao comportamento esperado de todos aqueles que possuem compromisso com o aprimoramento dos processos democráticos e o pleno desenvolvimento da sociedade.

*Antônio Albano de Freitas, bolsista de Pós-Doutorado CAPES na New School for Social Research

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[1] Mais tarde foi alegado pelo PDT que o candidato Jairo Jorge foi notificado do convite para participar do debate muito em cima da hora e que sua agenda já estaria ocupada.






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