Eleições

Da incerteza radical à necessidade de se construir uma alternativa progressista. Entrevista especial com Giuseppe Cocco e Moysés Pinto Neto

Entrevista especial com Giuseppe Cocco e Moysés Pinto Neto

07/08/2018 10:09

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Créditos da foto: Reprodução

Por Ricardo Machado

Fora do tabuleiro eleitoral, mas dentro do jogo político, Lula observa a movimentação do xadrez das eleições de 2018 e faz sua aposta. Não é um xeque-mate, longe disso, apenas tenta confundir o adversário entregando peças que poderiam ter certo impacto mais à esquerda, às custas de não perder a majestade no campo político. A jogada do PT de manter o PSB neutro e Ciro Gomes isolado reorganizou o jogo, oferecendo aos adversários a possibilidade de um “soldado” colocar o rei em xeque-mate. A questão, porém, é que não está em jogo uma vitória ou derrota do PT, o “trono” em disputa é o próprio Brasil.

Para Giuseppe Cocco, que concedeu entrevista por e-mail à IHU On-Line, “o que o PTquer mesmo é um segundo turno com Bolsonaro e o Bolsonaro quer o PT. Isso ficou claro já nas eleições de 2014. O PT e Lula são, o digo faz muito tempo, um problema sem tamanho para o Brasil e a maior ameaça a qualquer prática reformista e à própria noção de esquerda”.

Moysés Pinto Neto considera que a estratégia adotada pelo PT pode levar o Brasil a um cenário parecido com o das últimas eleições francesas. “Do ponto de vista da esquerda, estamos perigosamente muito perto de um cenário francês em que a extrema fragmentação levaria a um segundo turno entre Alckmin e Bolsonaro, dado que – mesmo que o primeiro tire votos do segundo – a parte residual pode ser suficiente para garantir a ida ao segundo turno e um esmagamento total do campo progressista", pondera, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Com relação ao futuro, Cocco considera que a situação é dramática e que se configura como incerteza radical. “O desafio é trabalhar na construção de uma confiança potente, alimentada por um novo patamar democrático: para essa perspectiva urgente, o tema da nova proteção social é estratégico, a proposta política capaz de deslocar o debate”, analisa.

Na mesma linha, ao analisar os cortes de gastos previstos para a pesquisa no Brasil, Pinto Neto recorda que o tipo de cortes implementado no Brasil ilustra bem um projeto de país de base neoextrativista. “Os liberais sonham com a extinção da gratuidade das universidades públicas – que são os principais polos de pesquisa e inovação no Brasil – em um cenário norte-americano de grandes fundações da sociedade civil financiando pesquisa, fingindo não se dar conta de que a elite brasileira é fundamentalmente extrativista e que não é um acaso que nada disso exista”, argumenta.

Giuseppe Cocco é graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova, mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne), e doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes. Coordena a coleção A Política no Império (Civilização Brasileira).

Publicou, entre outros livros, New Neoliberalism and the Other. Biopower, antropophagy and living money (Lanham: Lexington Books, 2018), em parceria com Bruno Cava; Hélio Oiticica para além dos mitos (Rio de Janeiro: CMAHO, 2016), em parceria com Barbara Szaniecki e Izabela Pucu; e Creative Capitalism and Multitudinous Creativity (Lanham: Lexington Books, 2015), também em parceria com Barbara Szaniecki.

Moysés Pinto Neto é graduado em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e doutor em Filosofia nessa mesma instituição. Leciona no Programa de Pós-Graduação em Educação – ULBRA e no curso de Direito da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA Canoas. É autor, entre outros, do artigo Identidade de Esquerda ou Pragmatismo Radical?, publicado na edição nº 259 dos Cadernos IHU ideias, e do artigo Esquecer o neoliberalismo: aceleracionismo como terceiro espírito do capitalismo, publicado na edição nº 245 dos Cadernos IHU ideias.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que significa a estratégia do PT, de isolar Ciro Gomes, do ponto de vista político e da esquerda?

Moysés Pinto Neto – Significa que o PT preferiu apostar na sua saída com vantagem de Lula a arriscar-se em uma aliança. Levando em consideração os seus índices altos de popularidade, presume-se que – diante de um contexto fragmentado – o PT ainda tem chance de ir para o segundo turno. Os problemas são como construir alianças a partir de um não-candidato e, se for para o segundo turno, se tem possibilidade de vencer.

A rigor, desde que o impeachment se tornou uma possibilidade real, o PT vem cada vez mais se mantendo numa atitude defensiva e reativa, utilizando o mecanismo de duplo vínculo no qual negocia com realismo por trás dos panos enquanto afirma um discurso radical, às vezes até sectário em relação a adversários e mesmo organizações próximas, ainda que não alinhadas. (Poderia citar meia dúzia de episódios de 2016 para cá.) Enquanto seus eleitores “se decepcionam” com as atitudes do partido – alguns até já o tinham abandonado, mas recuaram diante do golpe – o partido constrói uma estratégia voltada para a sua sobrevivência. Aliás, toda leitura política do PT pós-2002 envolve pensar como essas duas faces – partido e movimento – construíram diferentes relações com o restante da sociedade, alternando entre ganha-ganha e perde-perde. Desde 2014, com o #naovaitergolpe, o partido retoma parte do eleitorado orgânico da esquerda que perdeu em 2013, retomou com voto útil (“voto crítico”) no segundo turno de 2014 e reconquistou, usando a retórica anti-Temer, até agora. Perde, em compensação, boa parte de votos centristas que consideram essa retórica pesada demais – sobretudo o eleitor pragmático e de baixo interesse na política – e a outra parte do apoio que já perdera em 2013, frustrado com a atitude estrategicamente bizarra adotada pelo partido e a extrema dificuldade de conversar com qualquer outra força política de esquerda.

Ciro Gomes, por outro lado, jogou na sua melhor forma, mas perdeu como sempre. Tentou três jogadas que, se funcionassem, o empurrariam para a cabeça das pesquisas: começar despertando a solidariedade petista e confrontando a política de austeridadede Temer, a fim de conquistar parte do lulismo; depois, montar uma aliança com PCdoB e PSB na qual aglutinaria a esquerda não-petista, produzindo o isolamento do PT; finalmente, ainda tentou levar consigo, como bônus para excelência das alianças, o Centrão a fim de ganhar tempo de televisão. Só que deu tudo errado. O PT atraiu a centro-esquerda de volta mediante um acordo para autopreservação, o Centrão resolveu apostar em Alckmin e o lulismo continua batendo pé pelo seu candidato, sem transferir parcela significativa dos votos. Com isso, Ciro isolou-se e passou a ser uma zebra na disputa – abaixo de Marina Silva.

Do ponto de vista da esquerda, estamos perigosamente muito perto de um cenário francês em que a extrema fragmentação levaria a um segundo turno entre Alckmin e Bolsonaro, dado que – mesmo que o primeiro tire votos do segundo – a parte residual pode ser suficiente para garantir a ida ao segundo turno e um esmagamento total do campo progressista.

Guiseppe Cocco – Creio que esse ponto de vista da "esquerda" não existe mais e, portanto, isso não significa absolutamente nada de novo, a não ser a confirmação do mesmo: a esquerda é o PT e o PT é Lula e Lula é puro cinismo, ação em causa própria, corrupção e irresponsabilidade política com relação ao país e sobretudo aos mais pobres. O grande legado do PT é mesmo ter destruído a esquerda no Brasil.

O que o PT quer mesmo é um segundo turno com Bolsonaro e o Bolsonaro quer o PT. Isso ficou claro já nas eleições de 2014. O PT e Lula são, o digo faz muito tempo, um problema sem tamanho para o Brasil e a maior ameaça a qualquer prática reformista e à própria noção de esquerda. A corrupção constitutiva do PT não é apenas uma questão de dinheiro e moral, é mesmo uma corrupção política: o Lulo-petismo dissolveu qualquer tipo de pauta reformista, só discute "direito de roubar que nem os outros" e se Triplex é ou não é de alguém.

O Ciro recebe a moeda que procurava. Antes desse episódio do PSB, ele foi participar do tradicional "leilão" do chamado "centrão" e ficou vencido pela oferta que o Alckmin conseguiu fazer. Que setores de esquerda "agora" se indignem, também não significa absolutamente nada. Não apenas porque tudo isso vem desde a década de 1990 (lembrem da negociata com Garotinho no Rio de Janeiro contra o Vladimir Palmeiras), mas porque eles contribuíram – depois de 2013 e sobretudo apoiando o estelionato eleitoral de 2014 – à resiliência do Lulo-petismo que agora os coloca nos seus devidos lugares e papeis de puxadinhos auxiliários do PT. A esquerda que se diz não-petista-mas-apoia-o-PT e como um bando de Walking Dead que anda à procura de fantasmáticas e impossíveis unidades ou refundações. Quem apostou na falsa polarização, no PT, na defesa do indefensável, na luta pelo espolio do PT e do voto-populista que o Lula carrega não apenas errou, mas quis ser refém desse aparelho mistificador que é o Lulo-petismo. Não há espetáculo mais esquálido da classe média carioca – limpinha e pura – se mobilizando para... ir da praça São Salvador até os arcos da Lapa escutar músicos que pararam de pensar, no coração do Rio de Janeiro falido pela coalizão mafiosa do PT e do PMDB, para gritar "Lula Livre".

A ruptura com essa inércia é uma questão mesmo de sobrevida e vai acabar acontecendo. A questão que conta é como essa ruptura vai acontecer: pela quebra do país como na Venezuela? Pela vitória da extrema direita? Ou pela vitória de um candidato moderado capaz de proporcionar uma fase de transição democrática? Ninguém sabe.

Aqui é preciso ter clareza: a esquerda e até a socialdemocracia não têm mais nada a oferecer ao que tem de positivo nessa demanda por ruptura, ou seja a procura por uma nova proteção social, por um novo pacto social, isso que nós vimos em junho de 2013, nas multidões de 2015 e 2016 e depois na greve selvagem dos caminhoneiros. Essa demanda tem uma outra cara, terrível, que é a guerra de facções que disputam os mercados gigantescos da economia criminal, muito além do narcotráfico.

Sem essa proposta de uma nova proteção, a ruptura que vai acontecer será mesmo pelo voto protesto como se anuncia o voto Bolsonaro (e a popularidade do Lula), como foi com Trump, Brexit e Salvini: a proteção vai ser por cima dos mais vulneráveis (os refugiados, os mais pobres) e do desmonte da globalização por meio da multiplicação de guerras comerciais que apenas confirmam e amplificam a uma guerra de outro tipo que já está acontecendo.

Precisamos de uma nova proteção social que saiba responder ao fato que o trabalho e o emprego no capitalismo contemporâneo não coincidem mais (como nesse fenômeno que é o UBER com São Paulo e Rio que já são a segunda e a terceira cidades mais importantes para esse capitalismo de plataforma, um capitalismo sem capital). E isso sem contar com a onda anunciada de destruição massiva de empregos de todos os tipos, inclusive nos serviços qualificados, anunciada pela automação baseada na Inteligência Artificial. Só uma uma renda de cidadania é capaz de fazer da flexibilidade, das plataformas, da informalidade momentos de mobilização produtiva para a paz. A necessária reforma da previdência tem que ser a oportunidade para um novo pacto: a necessária estabilidade macroeconômica deve ser uma das pernas do pacto e não a única. Implementar – mesmo que de maneira progressiva – a renda de cidadania é a outra perna necessária para romper mesmo a armadilha da "renda média", da violência generalizada das periferias e nas metrópoles como um todo: o que se gasta de segurança tem que ir para essa renda e reforma tributária tem que – eliminando todos os subsídios não essenciais – criar um fundo que redistribua parte da renda financeira e da renda da automação em Renda de Cidadania.

IHU On-Line - De outro lado, qual o significado da aliança entre o PSDB e o Centrão?

Moysés Pinto Neto – Torna Alckmin favorito. Apesar da fama de quem não decola, Alckmin vai contar com uma estrutura gigantesca, despertar uma onda de confiança na sua capacidade de articulação e isso pode gerar a naturalização do seu nome. Nesse caminho, ele deve fazer alguns gestos mais conservadores a fim de reconquistar o eleitor de Bolsonaro, que pode voltar ao ninho tucano pelo voto útil. Na campanha do boca-a-boca, os cabos eleitorais de Alckmin deverão usar o argumento de que Bolsonaro certamente perde para qualquer um no segundo turno e, por consequência, é um voto perdedor. Mas não podemos continuar mais tempo subestimando o peso do populismo autoritário de Bolsonaro, que conseguiu uma base orgânica poderosa, similar à esquerda em eleitores que se identificam ideologicamente – e não apenas utilitariamente – com sua candidatura. Com isso, Bolsonaro conta com um piso fixo.
De resto, o apoio do Centrão a Alckmin – na ausência de Lula, a quem eu acho que apoiariam (fora o DEM) – mostra que o “medebismo” continua vivo e pulsando a plenos pulmões e que, se não priorizarmos as eleições legislativas, continuaremos com esse regime de coalizão comprada que 2013 buscou contestar na demanda pelo aprofundamento democrático.

Guiseppe Cocco – Um significado bastante simples: mostra que Alckmin, apesar de poder apresentar uma gestão do Estado de São Paulo mais digna do que o PT e PMDB fizeram alhures, não é nenhuma alternativa, mas a reprodução do mesmo que era a coalizão corrupta liderada por PT e PMDB. A campanha eleitoral do Alckmin é organizada em torno de um leilão: da reprodução do mecanismo básico da corrupção sistêmica contra a qual se levantou a multidão em junho de 2013 de onde nasceu a Lava Jato.

O Alckmin e o PSDB fazem o mesmo que Lula e o PT: é "mais do mesmo", uma tábua de salvação para o centrão corrupto. Mais uma vez, a única alternativa real, de ruptura para uma verdadeira transição democrática para fora da república nova está nas mãos de quem se recusa a essas alianças espúrias.

IHU On-Line - Como avalia o comunicado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes, de que a previsão orçamentária assegura recursos somente até agosto de 2019?
Moysés Pinto Neto – Mostra que o Brasil continua sem a capacidade de fazer investimentos estratégicos necessários para seu desenvolvimento como país. Não há como avançar no que quer que seja sem ter pesquisa, apenas recebendo passivamente o que os outros países produzem. Sequer na nossa própria construção interna, uma vez que – como vimos nos últimos anos – estamos permanentemente redescrevendo o Brasil, agora mais periférico, negro, mulher, indígena, quilombola, por exemplo.

A política de pesquisa melhorou no período petista com duas visões diferentes. No período Lula, a ideia – pensada ou improvisada, tanto faz – era de que liberar as forças da sociedade civil era suficiente para que o tanto reprimido pela falta de investimento se mostrasse produtivo e o Brasil, pela via da bricolagem e da criatividade dos seus habitantes, apresentasse um novo modelo de desenvolvimento. Uma política mais rigorosamente democrática, elaborada de baixo para cima, tal como ocorrera também, por exemplo, com os Pontos de Cultura. No período Dilma, o investimento atrelou-se a uma noção desenvolvimentista de impulsão do Brasil como potência mundial dos BRICS, associando aos países asiáticos o grande salto. A visão era mais tecnocrática. A pesquisa, por exemplo, realçava a importância das engenharias para a construção de uma nova infraestrutura nacional, bastando lembrar por exemplo da exclusão das humanidades do programa Ciências sem Fronteiras.

Como tudo no governo Dilma, contudo, “faltou combinar com os russos”. A aliança com os grandes empresários na “Agenda FIESP” acabou naufragando pela falta das condições políticas que supostamente estariam presentes e, com a mudança do eixo de avaliação para a austeridade a partir de 2014, o equilíbrio fiscal entrou em colapso, gerando cortes orçamentários que acabaram interrompendo projetos de longo prazo. Se o desenvolvimentismo foi um “ensaio”, dá para dizer que não ultrapassou um curto período de tempo, foi feito de modo desorganizado (a decisão voluntarista de Dilma sobre o Ciência sem Fronteiras é um exemplo claro) e deixou a aparência de puro wishful thinking, pois não foram criadas as condições políticas, econômicas e sociais para seu prolongamento.

O duro é que não há projeto algum alternativo a isso. Os liberais sonham com a extinção da gratuidade das universidades públicas – que são os principais polos de pesquisa e inovação no Brasil – em um cenário norte-americano de grandes fundações da sociedade civil financiando pesquisa, fingindo não se dar conta de que a elite brasileira é fundamentalmente extrativista e que não é um acaso que nada disso exista.

Outras vezes, o projeto educacional inspira-se na Coreia do Sul, por exemplo, como se não houvesse diferenças antropológicas imensas e tudo pudesse ser medido por números e planilhas, sem pensar no próprio aspecto qualitativo do que significa desenvolvimento.

Ainda carecemos drasticamente de uma imagem de política educacional consistente e bem estruturada, pensada de baixo para cima e levando em consideração as variáveis antropológicas que caracterizam a nossa ideia de “bem viver” para além das métricas economicistas que preponderam tanto na direita quanto na esquerda.

IHU On-Line - Que relações são possíveis estabelecer entre este anúncio e os cortes que vêm sendo feitos desde 2015, no governo Dilma?

Moysés Pinto Neto – A virada em 2015, com o estelionato eleitoral do PT, implicou que investimentos tidos por estratégicos em um contexto de crescimento acabaram sendo tomados como gastos. A tesoura da austeridade acaba valorizando os números a partir de uma linha reta sem nuances, evitando que posições fundamentais a longo prazo possam ser resguardadas, enquanto outras – como os inúmeros privilégios distribuídos na sociedade – pudessem perecer. O PT tampouco teve força para repactuar os investimentos pela sua linha política caótica e por negar qualquer necessidade disso ao longo da campanha, demonizando os adversários.

Fala-se muito da “geringonçaportuguesa por aqui, mas os portugueses não deixam de ajustar inúmeros pontos a fim de produzir um equilíbrio fiscal. Voltados, porém, para privilégios. No nosso caso, muitas vezes a própria esquerda acaba aderindo de modo não-crítico ao corporativismo e ao patrimonialismo. Exemplos disso são as isenções fiscais para a indústria – que nunca deu o retorno que não simplesmente manutenção de empregos para a sociedade – e a Previdência/Assistência Social, que poderia ser reconfigurada a fim de evitar ser simplesmente uma caixa de acumulação patrimonial de boa parte dos contribuintes para funcionar também como plataforma redistributiva, de justiça social e política pós-emprego (com a renda mínima cidadã).

IHU On-Line - Quais os impactos deste anúncio, levando em conta a Emenda Constitucional - EC 95?

Moysés Pinto Neto – A Emenda é a responsável pelo teto de gastos. Não sou economista para ingressar na polêmica entre ortodoxos e heterodoxos em torno do orçamento público. Minha percepção é como cidadão e alguém que estuda um pouco sobre política a partir das humanidades. Pragmaticamente, para o cidadão, o equilíbrio fiscal trouxe associações positivas, em especial o controle da inflação. Por outro lado, estava mais ou menos claro que era uma regra que seria aplicada burramente, isto é, sem a necessidade de se movimentar os pontos em que os cortes seriam justos. O sacrifício viria, ao contrário, pelos mais vulneráveis e os serviços essenciais. Pode até ser que quem redigiu essa Emenda tivesse a boa intenção de produzir “na marra” a revisão desses vários privilégios, sob pena do colapso da educação, saúde e segurança pública, mas às vezes parece mais fácil o mundo perecer que os donos do Brasil abrirem mão. Com isso, quem paga a conta dos excessos são os pobres e os projetos que envolvem pensamento estratégico, como a própria pesquisa acadêmica que nem sempre corresponde a uma utilidade imediata, mas nada do que é relevante é inventado sem antes se passar por um momento em que se foge da necessidade instantânea.

Guiseppe Cocco – As Bolsas, como a Renda de Cidadania tem que aumentar e não diminuir, mas isso não pode acontecer até que uma dinâmica de "confiança" não aparecer no horizonte. Em primeiro lugar essa situação tremenda é herança do PT, assim como o governo Temer.

A situação é muito grave. Não estamos diante de "cortes" desde 2015, mas da falta mesmo de "recursos" e, pois, das escolhas que essa falta de recursos e a perspectiva que ela se agrave impõem. Ou seja, a situação é muito pior do que aquela na qual estariam acontecendo alguns "cortes". O que acontece desde 2015 não são "cortes", mas as consequências nefastas da tentativa neodesenvolvimentista da Dilma: vejam o Rio de Janeiro, estamos tendo que pagar as dívidas dos estádios, vilas olímpicas, arco metropolitano, porto maravilha, teleféricos, BRTs, dos bilhões enterrados no Polo Petroquímico de Itaboraí, do assalto à Petrobras... sem esquecer as centenas de milhões gastos para as UPPs e que resultaram na guerra generalizada de facções etc. Nada disso funciona, nada disso melhora a qualidade da vida, mas temos que pagar com um dinheiro que não temos: não temos dinheiro não apenas porque foi torrado, mas porque torraram as condições sócio institucionais para criá-lo.

Essa é herança de Lula e do PT.

A reeleição da Dilma foi uma tragédia sem tamanho para o país e a forma disso foi o "ajuste desajustado" que ela implementou no dia seguinte do segundo turno (e determinou seu impeachment): tivemos todas as consequências negativas (cortes etc.) sem sequer aqueles efeitos "positivos" (retomada da confiança) que os ajustes procuram. Como o chavismo quebrou a Venezuela e milhões de venezuelanos morrem de fome, falta de remédios, violência civil ... e outros milhões emigram, o PT e o PMDB juntos ao "centrão" assaltaram o país, quebraram a economia brasileira e continuam querendo nos governar. O resultado ainda não é aquele da Venezuela, porque o Brasil tem uma economia diversificada, mas também porque o PT e o PMDB não conseguiram confirmar o golpe que deram em 2014 e tiveram que fazer o "impeachment" para sobreviver. A Dilma foi meio que um bode expiatório que Lula e Temer sacrificaram aos deuses da "opinião" para organizar sua resiliência: Ciro, por um lado, o esquerdismo pelo outro, ajudaram nessa operação mistificadora.

Mas a situação é dramática e o resultado eleitoral é fundamental para que um caminho de saída se desenhe.

Narrativas falsas significam dinheiro falso.

O dinheiro nos falta hoje porque a moeda de Lula e Temer é falsa e só a reconstrução da confiança pode nos tirar desse buraco sem fundo. Corremos o risco de cair do fundo do poço para um poço sem fundo: a moeda que Lula e o sistema do "centrão" oferecem é tão explicitamente falsa que até um candidato tosco e totalmente despreparado parece estar dizendo alguma verdade.

Essa demanda por confiança hoje se apresenta como pânico, incerteza radical, crise e guerra. O desafio é trabalhar na construção de uma confiança potente, alimentada por um novo patamar democrático: para essa perspectiva urgente, o tema da nova proteção social é estratégico, a proposta política capaz de deslocar o debate.
 
Publicado originalmente no IHU On-Line

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