Eleições

Eleições presidenciais no Brasil: o que está em jogo no segundo turno?

Entrevista com Christophe Ventura, pesquisador do IRIS - Institut de Relations Internationales et Stratégiques

16/10/2018 11:12

 

 
Após o primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, no domingo, 7 de outubro, que avaliação podemos fazer dos resultados e dos candidatos? Com Jair Bolsonaro representando a extrema direita e Fernando Haddad como candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) frente à frente no segundo turno, o que propõem os dois candidatos e com que apoios cada um conta? Finalmente, em meio a crises políticas e morais, quais são os principais desafios a serem enfrentados pelo vencedor? A seguir, o ponto de vista de Christophe Ventura, pesquisador do IRIS - Institut de Relations Internationales et Stratégiques.

Qual é a sua avaliação deste primeiro turno das eleições presidenciais? E o que o resultado nos diz do Brasil hoje?

Os resultados do primeiro turno confirmam uma série de preocupações que já tínhamos antes da votação, mas que se acentuam. As urnas confirmam uma ascensão e desempenho bastante impressionantes de Jair Bolsonaro. Com mais de 49 milhões de votos obtidos (em um eleitorado de 149 milhões de pessoas - e 20% de abstenção, quase 30 milhões de votos), o candidato do Partido Social Liberal (PSL) estabeleceu um novo recorde. Ele é o candidato com mais votos no primeiro turno de uma eleição presidencial brasileira.

Bolsonaro obteve 46% dos votos válidos e, portanto, tem uma vantagem sólida para uma vitória no segundo turno. Ganhou em 17 dos 26 estados (incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, assim como no sul e no centro-oeste do país). É um feito. Fernando Haddad e o Partido dos Trabalhadores (PT) ganharam em nove outros estados (notadamente no Nordeste, um reduto do "lulismo").

Este mapa nos dá uma primeira informação: a performance de Bolsonaro deve-se à absorção do eleitorado da direita brasileira tradicional, particularmente o PSDB o MDB.

Esses dois partidos políticos estavam na base do governo não eleito de Michel Temer. Seus dois candidatos, Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles, lutaram para superar 6% dos votos. Jair Bolsonaro atraiu esse eleitorado com base em propostas de uma direita radicalizada. Este é um ponto importante na eleição: Jair Bolsonaro é um produto da crise democrática que começou 31 de agosto de 2016 com o impeachment de Rousseff - e da crise econômica dos últimos cinco anos - e dos dois anos de um governo não eleito. Essa sequência de eventos, dos quais Bolsonaro participou votando pelo impeachment, foi iniciada pelo PMDB e pelo PSDB e, escapando do controle dos dois partidos, termina por engendrar o fenômeno Bolsonaro.

Outra maneira de entender a votação de Bolsonaro é ver que ela expressa uma forma de insurreição, de revolta, especialmente da classe média brasileira, mas também uma parte das classes populares que aspira a entrar na classe média ou que teve acesso nos últimos anos a uma maior mobilidade social (pelo consumo, crédito etc). Essa revolta teve como alvos todos os partidos e figuras políticas tanto da direita tradicional quanto do Partido dos Trabalhadores. Por exemplo, a derrota de Dilma Rousseff na eleição para o senado pelo estado de Minas Gerais - quando ela aparecia em primeiro nas pesquisas antes da eleição - é emblemática de um fenômeno importante no Brasil, encarnado e operado de forma sistemática por Jair Bolsonaro: o ressentimento e o ódio contra a "esquerda" e especialmente contra o "Petismo", sinônimo para ele e seu eleitorado de crise econômica, corrupção, de mau governo, violência e delinquência, e também de promoção dos direitos das minorias.

Foi tudo isso que Bolsonaro conseguiu aglomerar em um discurso para o qual convergem três conservadorismos a serviço de um projeto liberal-autoritário. O primeiro conservadorismo é o que está mais presente na mídia (particularmente na França). É um conservadorismo social. Assim, Bolsonaro conseguiu reunir forças que vão das igrejas evangélicas - que abrangem cerca de um terço do eleitorado e articulam uma agenda conservadora em questões de moral e da família, e ultraliberal (teologia da prosperidade) no nível econômico - aos movimentos de direita urbana e rica do Brasil, aqueles que tomaram as ruas do país contra a corrupção e o PT em 2015.

Os segundo e terceiro conservadorismos, bem menos comentados e, no entanto, centrais para a compreensão do "foguete Bolsonaro", são econômico e social. De fato, Jair Bolsonaro adotou um discurso de continuidade e até intensificação das políticas de austeridade e, mais amplamente, de políticas ultraliberais. Ele obteve, na reta final, o apoio explícito de uma parte do setor industrial e financeiro brasileiro. É o economista ortodoxo Paulo Guedes, seu suposto ministro da fazenda, quem incorpora essa dimensão do "bolsonarismo". Há fortes indícios de que um futuro governo de Bolsonaro seria composto por muitos banqueiros e representantes de setores industriais.

Deste ponto de vista, o "bolsonarismo" não se alinha ao período da ditadura brasileira, à qual é comparado. Este último desenvolveu o estado brasileiro, enquanto Bolsonaro pretende reduzi-lo drasticamente, privatizando tudo o que for possível.

Dessa forma, atende também às exigências dos investidores e dos mercados internacionais: redução do déficit orçamentário, cortes nos serviços públicos e no sistema previdenciário, maior flexibilização do mercado de trabalho etc.

A candidatura Bolsonaro é, portanto, uma aliança entre vários setores e expectativas: reservistas militares, igrejas evangélicas, o mundo da indústria - por exemplo, o agronegócio - e das finanças, e um importante estrato da classe média (e uma parte das classes mais baixas).

O que os candidatos propõem para o segundo turno? Com que apoios cada um conta?

Há dois projetos representados pelos candidatos, em um segundo turno muito polarizado. Por um lado, Jair Bolsonaro vai apostar na postura antissistema, dizendo-se um homem livre, que não estaria ligado a um partido tradicional como o PT, nem teria enriquecido com a corrupção etc. Ele vai usar a imagem de anti-esquerda e do antipetismo. Nesta perspectiva, acrescentará o fato de que escolher Bolsonaro é impedir que o Brasil se torne uma nova Venezuela governada pelos comunistas. Ele também aprofunda o discurso da ordem. Afirma-se como alguém que a encarna frente à "violência e corrupção generalizadas". Seu perfil se aproxima com o do filipino Rodrigo Duterte. Por fim, ele completa esse posicionamento com uma defesa da liberdade e da propriedade, do ponto de vista econômico liberal.

Do outro lado, Fernando Haddad, com 29,3% ou mais de 31 milhões de votos. Ele é claramente "de fora" hoje. O resultado não é catastrófico no sentido de que limita as perdas do PT, que manteve a primeira bancada na Câmara (seguido pelo partido de Bolsonaro, que alcança um poderoso avanço). No Nordeste - com um terço dos eleitores -, onde ganhou em oito dos nove estados, Haddad garantiu a hegemonia do partido. O PT continua a ser o mais importante partido político brasileiro. Mas no sistema político local - chamado "presidencialismo de coalizão" - seria tragado, com uma vitória de Bolsonaro, por alianças entre o PSL e outras legendas (de direita e centro) presentes no Congresso. Há 30 partidos representados na Câmara em 2018, sendo onze com 28 a 56 deputados (de 513 deputados eleitos).

O discurso de Haddad tem dois eixos principais. Ele pedirá aos brasileiros que votem nele para defender a democracia no Brasil, independentemente de sua afiliação política. Ele propõe uma frente republicana contra um regime autoritário encarnado por Bolsonaro. Assim, ele tenta convencer uma parte do eleitorado de centro-direita - aqueles 6 ou 7% que votaram no PSDB e no MDB - a se unirem a ele em nome da democracia. O que esses eleitores farão? Além disso, mais de 8% dos votos foram brancos ou nulos no primeiro turno (mais de 10 milhões de votos). Como serão estas taxas no segundo turno? A mesma dúvida vale para as abstenções no primeiro turno. Parte deles irá votar em 28 de outubro?

O outro eixo de seu discurso é o modelo de desenvolvimento econômico com justiça social. A intenção é polarizar o debate contra Bolsonaro nesta questão da justiça social.

O que se pode esperar deste segundo turno? E quais os principais desafios enfrentados pelo eleito?

Os principais desafios dizem respeito a questões econômicas e sociais, pois o Brasil vai mal. Em particular, a situação social está se deteriorando a cada dia para setores cada vez maiores da população. O enfrentamento da violência é outro desafio. É um tema em que Bolsonaro seduz com um discurso militarista e ultrarrepressivo, embora se saiba que esse tipo de política frequentemente leve ao agravamento da situação, à radicalização e à sofisticação da violência, bem como à sua expansão territorial.

Finalmente, o outro desafio que o candidato eleito terá pela frente é a tomada das rédeas de um país radicalizado, em plena crise democrática. O futuro presidente terá que governar um país extremamente polarizado. O Brasil será governável nessas condições? Esta é a pergunta.

Diante da crise regional ou da questão das mudanças climáticas, Bolsonaro já advertiu: em caso de vitória, adotará uma posição de "linha dura" contra a Venezuela e vai retirar o Brasil do acordo de Paris.

*Publicado originamente em iris-france.org | Tradução de Clarisse Meireles


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