Eleições

Em Boston, mais um resultado surpreendente na onda progressista que varre o Partido Democrata

A história se repete: uma jovem negra derrotando um homem branco mais velho que confortavelmente manteve seu posto por décadas, apesar dela arrecadar menos dinheiro e estar atrás nas pesquisas

13/09/2018 11:00

Ayanna Pressley festeja sua vitória nas primárias (Brian Snyder/Reuters)

Créditos da foto: Ayanna Pressley festeja sua vitória nas primárias (Brian Snyder/Reuters)

 

Nos Estados Unidos, candidatos jovens etnicamente diversos, muitos deles com plataformas de extrema-esquerda, estão mudando a face do Partido Democrata. Entretanto, na liberal Boston, o progressismo não é algo novo.

A história se repete. Uma jovem negra derrotando um homem branco mais velho que confortavelmente manteve seu posto por décadas, apesar dela arrecadar menos dinheiro e estar atrás nas pesquisas.

A democrata progressista Ayanna Pressley venceu o atual ocupante do cargo de deputado há dez mandatos Michael Capuano nas primárias de Massachusetts no último dia 4 de setembro. Sua vitória vem na esteira da surpreendente vitória de Alexandria Ocasio-Cortez, que se autointitula socialista e tem 28 anos, em Nova York sobre o deputado Joe Crowley, também no cargo há dez mandatos, em junho.

Isso também vem após (em uma variação do mesmo tema) o prefeito de Tallahassee, Andrew Gillum, do Partido Democrata, ter feito história ao tornar-se o primeiro candidato a governador negro na Flórida na semana passada, ao derrotar o favorito Gwen Graham.

O deputado Michael Capuano, um veterano que está há 20 anos no parlamento, reconheceu a derrota na noite do dia 4 na sua primeira primária desde que entrou no cargo. Pressley, uma afro-americana de 44 anos, fez campanha com uma plataforma progressista que incluiu prover atendimento à saúde universal, acabar com a perseguição e deportação de imigrantes, eliminar as dívidas estudantis e aumentar o salário mínimo.

Pressley teve o apoio de Ocasio-Cortez, cuja vitória em Nova York neste verão levou o presidente do Comitê Nacional Democrata Tom Perez a declará-la "o futuro de nosso partido", à medida que o partido se move à esquerda do estilo gerencial ralo de pessoas como Hillary Clinton.

Pressley compartilha muitas das posições de Ocasio-Cortez, mas não se descreve como uma socialista. Entretanto, embora a mídia dominante retrate seu triunfo como mais uma vitória dos jovens progressistas sobre a velha guarda democrata, o fato é que o distrito de Boston de Pressley é profundamente liberal, e tanto sua plataforma quanto a de Capuano tendem fortemente à esquerda.

Capuano votou contra a Guerra do Iraque e a Lei Patriótica, e apoiou o Medicare para todos e as cidades santuário bem antes delas se tornarem ideias comumente apoiadas. Ele também vem variando em sua posição quanto ao impeachment de Trump desde o ano passado, e ambos os candidatos admitiram que teriam votado da mesma forma em assuntos chave.

Diferentemente de Ocasio-Cortez, o ascenso de Pressley através da estrutura do Partido Democrata foi tradicional. Depois de trabalhar na assessoria do senador John Kerry e do deputado Joe Kennedy, e de se tornar a primeira mulher negra a ser eleita vereadora em Boston, Pressley recebeu um prêmio de "estrela ascendente" do grupo ativista democrata EMILY's List em 2015, discursando na cerimônia de gala da entrega de prêmios do grupo junto com a então pré-candidata presidencial Hillary Clinton.

Capuano fez sua campanha enfatizando sua experiência no parlamento, e sua habilidade de usar seus contatos para trazer dinheiro federal a Boston. Pressley, por outro lado, apresentou-se como uma candidata ativista. Ela apoiou-se no argumento identitário, dizendo que sendo uma mulher negra, ela era mais adequada para representar seu distrito etnicamente diverso.

A campanha de Pressley mobilizou-se contra o "racismo estrutural", e em seu discurso de vitória, ela disse a seus apoiadores que sua vitória é dedicada "àqueles que não veem a si mesmos refletidos na política e no governo."

Ela também não deixou de criticar o presidente Trump. "Nosso presidente é racista, misógino, um homem sem empatia", disse ela a seus apoiadores. "É hora de mostrar a Washington DC, tanto a meus colegas democratas, que eu espero que estejam conosco, quanto aos republicanos que possam ficar em nosso caminho ... a mudança está vindo e o futuro pertence a todos nós."

Ao não haver um desafiante republicano em seu distrito, o caminho de Pressley para o parlamento em novembro está aberto. Seus colegas democratas, tanto os pertencentes ao establishment quanto os progressistas, precisarão ganhar 23 assentos para retomar a Câmara de Deputados.

*Publicado originalmente no RT News | Tradução: Equipe Carta Maior

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