Eleições

Em desespero, candidatura Alckmin apela para ''vaquinha'' de intenções de voto

Nos últimos dias, três mosqueteiros foram vistos lambendo picolé de chuchu apimentado e vertendo lágrimas pelo canto dos olhos

27/09/2018 14:36

Aloisio Mauricio

Créditos da foto: Aloisio Mauricio

 

Chuchu com pimenta

A campanha do insosso Geraldo Alckmin tem feito de tudo para melhorar sua receita. Primeiro, colocou uma pitada de extrema direita em sua chapa, chamando a senadora Ana Amélia para ser vice. 

Ana Amélia é aquela que não sabe a diferença entre a rede de televisão Al-Jazheera, um oásis de liberdade de imprensa no mundo árabe, e o Estado Islâmico. Ora, bolas! Todos comentem confusões. Talvez por isso Amélia, que era a vice de verdade, não se incomodou quando Alckmin trocou seu nome pelo da senadora Kátia Abreu, em uma entrevista.

Depois, Alckmin pisou em solo nordestino e vestiu um chapéu de couro para gravar um vídeo de campanha. Foi a primeira vez que um astronauta de Pindamonhangaba pisou em solo lunar, em busca de um picolé de mandacaru. A missão terminou abortada pelo berro de cabras indignadas que suspeitaram: "não é o Lula!".

Agora, em plena reta final do primeiro turno, resolveram colocar pimenta no picolé de chuchu. Será que vai dar certo?

Os três mosqueteiros

Nos últimos dias, três mosqueteiros foram vistos lambendo picolé de chuchu apimentado e vertendo lágrimas pelo canto dos olhos. São eles: Roberto Giannetti da Fonseca, José Álvaro Moisés e Rubens Figueiredo. Os três escreveram artigos para o jornal Folha de S. Paulo tendo por mote a pergunta: "A democracia corre risco?"

Roberto Giannetti da Fonseca é aquele que, recentemente, pediu afastamento das assessorias que fazia às campanhas de Alckmin e Doria por ter se tornado alvo da 10ª fase da Operação Zelotes, que investiga escândalos de sonegação na casa dos bilhões. Parece que já voltou à ativa - me refiro à campanha ativa, e não, ainda, à dívida ativa.

José Álvaro Moisés, professor de uma ciência política aposentada, pediu ajuda ao consultor marqueteiro de Temer, Rubens Figueiredo, integrante de um tal "grupo de comunicação estratégica" do governo do atual presidente. "Grupo" que, aliás, se notabilizou por também reunir, entre outros, Marco Antonio Villa, que hoje trabalha como radialista revoltado em uma rádio de São Paulo, e José Yunes, amigo pessoal de Temer e advogado em cujo escritório, segundo investigações da PF, se recebia dinheiro vivo para campanhas do partido do presidente. Realmente, algo bem estratégico. 

Os três marqueteiros, ou melhor, mosqueteiros, em uníssono, usaram as páginas do jornal Folha de S. Paulo para rogar aos candidatos de centro que se unam para colocar um alguém confiável no segundo turno, evitando a polarização entre o Coiso e o PT. 

Moisés e Figueiredo citam como sendo o centro: Alckmin, Marina, Álvaro Dias, Meirelles e Amoêdo. Pois é, excluíram o Ciro. Talvez Ana Amélia o tenha identificado como membro da Al Qaeda.

Giannetti foi explícito, em um dos apelos mais patéticos já vistos nas páginas de opinião daquele jornal:

"Não deveríamos avaliar como um ato patriótico, neste momento de flagrante risco institucional, alinharmos um apoio condicional ao candidato Geraldo Alckmin, que, apesar de estagnado na faixa de 10% do eleitorado segundo as recentes pesquisas, parece ser o único que reúne condições de virar o jogo para a vitória dos moderados de centro no segundo turno?" 

Esse tipo de pregação está longe de ser análise. É peça de campanha. A candidatura de Alckmin deveria ter pagado a Folha por uso de espaço publicitário.

O espirro dos espada… atchins

O espirro dos esbirros repercutiu mal. O que os espada… atchins de Alckmin fazem é uma desesperada e vergonhosa  tentativa de organizar uma "vaquinha" de intenções de voto, passando o chapéu em candidaturas que, à exceção da de Marina Silva, se esforçam por superar os 3 centavos de margem de erro.

A campanha vai tão mal que o candidato do centrão já se contentaria em se tornar o candidato do centrinho.

A leitura desses artigos citados mostra que, em eleições acirradas, a primeira vítima é o bom senso.

Esse Giannetti que hoje chama o PT de "extremista" é o mesmo que, não faz muito tempo, defendeu Lula e Dilma como autores de uma política de Estado "não ideológica". Disse ele em seminário sobre financiamentos públicos às exportações de serviços de engenharia: 

“Que história é essa de se chegar no Senado e falar mal destes financiamentos por eles terem sido criados pelos presidentes Lula e Dilma? Isso tem que se tornar um projeto de Estado”. 

(O seminário foi promovido pelo jornal Valor Econômico, das organizações Globo, em 15 de junho de 2015). 

Por sua vez, em artigo amorosamente intitulado "O fenômeno Temer", Rubens Figueiredo mostrou habilidades de um trapezista de circo para fazer rápidas piruetas de raciocínio que precisam de um Dramin para não provocar enjoos. Disse ele:

"É simplesmente admirável que Temer, com toda sua limitação para ser um pop star da política e frente a tantas dificuldades, tenha conseguido, até agora, um desempenho espetacular. Nem mesmo Lula, à época tido internacionalmente como "o cara", chegou a ter a base parlamentar que Temer granjeou. A discrição venceu a idolatria, o mérito superou a fanfarronice."

Como se vê, a fanfarronice não é um privilégio dos políticos. Tem contaminado muito cientista político marqueteiro membro de grupo de comunicação estratégica por aí. 

José Álvaro Moisés, igualmente entusiasmado com Michel Temer, foi profético. Em maio de 2016, ainda em plena ressaca da farra do golpe, escreveu um artigo em que respondia à pergunta sobre se "o governo Temer será capaz de unir o país e superar a crise?". 

De forma taxativa e em letras garrafais, disse: "SIM". A profecia de fato foi cumprida. Uma pena que de forma diametralmente contrária à esperada pelo articulista. Atualmente, "Todo mundo odeia o Temer" é uma série de muito mais sucesso do que "Todo mundo odeia o Chris".

Escalar Giannetti da Fonseca, Álvaro Moisés e Rubens Figueiredo para a tarefa de dourar a pílula indigesta do candidato tucano, a essa altura do campeonato, é um sinal não apenas de mau agouro para Alckmin. É um atestado de que sua candidatura realmente está sem gasolina e sem prestígio. 

Mais uma vez, fomos salvos pelo bom senso de uma Maria

Por sorte, apareceu Maria Hermínia Tavares de Almeida, com a elegância e inteligência que lhe é peculiar, para colocar um pouco de bom senso no debate.

Ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política (2004-2008) e professora da USP que, antes, passou pela Unicamp e CEBRAP, Maria Hermínia escreveu artigo em que afirma, desde o título: a ameaça nas eleições vem da extrema direita, e isso é consequência de o PSDB ter perdido capacidade de reunir a centro-direita em torno de seu candidato.

Mesmo com várias críticas ao PT, a cientista política lembra que Lula, quando foi derrotado em 1989, 1994 e 1998, aceitou os resultados sem contestá-los. Diferentemente do PSDB em 2014.

Lula também poderia, se quisesse, ter dado asas às pretensões de mudar a Constituição em busca de um terceiro mandato, como vimos acontecer em outros países da América do Sul. Não o fez. 

"Ao ascender ao Planalto, a agremiação consolidou uma liderança moderada de centro-esquerda e governou rigorosamente dentro das regras democráticas. Não procurou calar a imprensa que lhe fazia oposição, nem controlar o Judiciário que exerceu com liberdade sua vocação antimajoritária”.

Nas entrelinhas, Maria Hermínia puxa a orelha de quem brinca com o extremismo para, por razões eleitoreiras, atacar uma candidatura de centro-esquerda que é claramente democrática e moderada.

Pena que Alckmin, Ana Amélia e os três mosqueteiros não estejam preocupados com isso. Estão preocupados com o fato de que sua vaquinha está indo para o brejo.

(*) Antonio Lassance é doutor em ciência política pela Universidade de Brasília.

Fontes dos artigos citados:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/09/a-democracia-corre-risco.shtml?loggedpaywall

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares-de-almeida/2018/09/ameaca-nas-eleicoes-vem-da-extrema-direita.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/12/1844809-o-fenomeno-temer.shtml 

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/05/1771270-governo-temer-sera-capaz-de-unir-o-pais-e-superar-a-crise-sim.shtml

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2016/11/19/interna_politica,825146/temer-realiza-reuniao-com-conselho-de-comunicacao-em-sp.shtml

https://www.viomundo.com.br/politica/seminario-discutido-por-lula-em-grampo-com-executivo-foi-promovido-pelo-valor-economico.html

http://www.vermelho.org.br/noticia/315382-1




Conteúdo Relacionado