Eleições

Jair Bolsonaro 'não vai moderar retórica' na corrida presidencial no Brasil

Ele, que é de direita, vai encarar o candidato de esquerda no segundo turno, diz que não se tornará um candidato 'paz e amor'

11/10/2018 15:15

 Jair Bolsonaro conseguiu quase 50 milhões de votos no primeiro turno das eleições presidenciais no domingo - cerca de 46% do total (Evaristo Sa/AFP/Getty)

Créditos da foto: Jair Bolsonaro conseguiu quase 50 milhões de votos no primeiro turno das eleições presidenciais no domingo - cerca de 46% do total (Evaristo Sa/AFP/Getty)

 

O líder de extrema-direita na corrida para se tornar o próximo presidente do Brasil já insistiu que não irá moderar sua retórica combativa ou se tornar um candidato “paz e amor” enquanto continua com seus esforços para se tornar o próximo líder da maior democracia da América Latina.

Jair Bolsonaro, ex-capitão do exército, pró-ditadura, arrebatou quase 50 milhões de votos no primeiro turno das eleições para presidente no domingo – cerca de 46% do total e quase obteve a maioria necessária para ganhar no primeiro turno. O populista de 63 anos irá encarar, agora, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, no segundo turno dia 28 de outubro.

Experts preveem explosões políticas de agora até o dia 28 devido as diferenças visionários dramáticas entre os dois. Em uma entrevista de 20 minutos na rádio brasileira Jovem Pan na segunda, sua primeira desde o triunfo do dia anterior, Bolsonaro disse que espera retornar a fazer campanha em breve, depois de facada que quase lhe custou a vida, e que continuará a ser linha dura contra o crime e contra a esquerda.

“Nosso discurso permanecerá o mesmo – um de união. Precisamos unificar o país, pacificá-lo”, ele disse. “Flertamos demais com a esquerda nos últimos 20 anos. Está na hora de nos movermos para a centro-direita.”

Perguntado se iria continuar sua “pregação conservadora” ou se iria se inclinar ao centro para atrair mais eleitores, Bolsonaro disse: “Não posso me tornar de repente ‘o Jair paz e amor’ ... tenho que continuar e ser a mesma pessoa”.

“É claro, as vezes usamos sinônimos”, ele disse sobre sua reputação de fazer comentários incendiários e ofensivos sobre as comunidades negra, gay e feminina. “Eu usava palavrões aqui e ali. Não faço isso mais.”

Glauco Peres, cientista político da Universidade de São Paulo, previu que na ausência de propostas políticas concretas, o medo permaneceria sendo a principal arma de Bolsonaro para o segundo turno.

“Eu acho que Bolsonaro vai continuar a fazer o que está fazendo. Não acho que ele tem que mudar muito”, disse Peres. “Ele vai continuar usando sua ideia do medo...que o PT representa o retrocesso em direção à corrupção e representa criminosos no governo.”

O candidato da extrema-direita fez exatamente isso na segunda-feira, enquanto Haddad viajava para encontrar com seu mentor político, o encarcerado ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para discutir a estratégia do segundo turno. “É com vocês”, tuitou Bolsonaro aos seus 1.6 milhões de seguidores. “Pode ser governado por alguém que é limpo, ou pelo fantoche de alguém que está preso por corrupção!”

Experts e apoiadores dizem que uma das tarefas mais urgentes de Haddad, se ele conseguir reverte o que andam chamando de “tsunami conservadora” de Bolsonaro, é construir uma aliança anti-Bolsonaro que se estenda por todo o espectro político.

“Para atingir o milagre e reverter essa situação, a missão de Haddad é formar uma frente democrática”, escreveu Ricardo Kotscho, jornalista veterano com laços com Lula e o PT, em uma matéria ponderando como o Brasil pode ser salvo da “tragédia” do “Bolsonarismo”. “Se todos se unirem, poderá ser possível reverter a onda reacionária de domingo”, e prevenir que o Brasil volte à “obscuridade do passado”.

Para fazer isso, Kotscho disse que Haddad precisa ter “a grandeza de procurar o apoio de todos aqueles que não entraram no barco messiânico do capitão...para expandir seu eleitorado e isolar a extrema-direita”.

Na noite de domingo, Haddad assinalou imediatamente que ele iria buscar construir tal bloco. “Queremos unir os democratas do Brasil”, ele disse aos apoiadores em um discurso que foi concluído com os gritos de: “Vida longa ao Brasil! Vida longa à democracia!”

Mas conquistar esse apoio pode não ser simples – ou até mesmo efetivo.

“Apenas não acho que irá funcionar”, disse Brian Winter, editor chefe do Americas Quarterly. “Se um grande grupo de políticos conhecidos se aliar à Haddad, tudo o que Bolsonaro precisa fazer é apontar para eles e dizer: ‘Viram! O establishment corrupto está com ele’ – e pronto, acabou.”

“As pessoas decidiram depositar suas esperanças no Bolsonaro. Eles vêem nele a promessa de um fim ao caos dos últimos quatro anos. E com esse ponto de vista, Bolsonaro se torna o futuro e Haddad o passado.”

Mônica de Bolle, diretora de estudos da América Latina na Universidade Johns Hopkins, disse que espera que Bolsonaro seja atacado nas próximas semanas por Haddad e outros candidatos presidenciais derrotados, sobretudo por causa de seu desdém pela democracia.

“Mas os ataques à Bolsonaro têm a tendência de fortalecê-lo”, ela adicionou. “Então não sei se isso iria funcionar.”

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Isabella Palhares

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