Eleições

No Brasil, somente a maior das coalizões pode derrotar Bolsonaro

Experts acreditam que o rival Fernando Haddad deve se posicionar como centrista campeão da democracia

15/10/2018 10:07

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Créditos da foto: (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 
Os esquerdistas brasileiros ficaram aliviados no domingo de eleição depois de Jair Bolsonaro - o líder homofóbico, pró-ditadura de extrema-direita - não conquistar uma vitória no primeiro turno que teria concedido à ele o cargo de presidente de uma das maiores e mais diversas democracias do mundo.

Seu alívio pode ser curto.

Fernando Haddad, oponente de Bolsonaro no segundo turno da votação do dia 28, tem uma montanha quase tão alta quanto o Pico da Neblina para escalar se ele quiser derrotar a ascensão política dramática do populista de direita.

Bolsonaro garantiu mais de 49 milhões de votos no domingo de eleição - 46% do total e quase a maioria necessária para uma vitória no primeiro turno - enquanto seu oponente do Partido dos Trabalhadores (PT) conseguiu 29% ou 31 milhões de votos.

Defensores de Jair Bolsonaro queimam réplica de urna eletrônica em São Paulo (Alexandre Schneider /AFP)

Para desenhar um paralelo com Bolsonaro, Haddad precisaria virtualmente que cada um dos eleitores que optaram pelos candidatos de terceiro e quarto lugares, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, passassem para o seu lado.

“O caminho para Haddad para fechar essa brecha é quase impossível”, disse Brian Winter, o editor chefe da Americas Quarterly, descrevendo Bolsonaro como um “grande favorito” para a vitória. “Se você somar Bolsonaro com dois terços dos votos de Alckmin [5 milhões], está acabado.”

Aqueles esperançosos de que Haddad ainda pode ganhar acreditam que deve se posicionar como um centrista campeão da democracia que pode prevenir que o Brasil retroceda para o tipo de comando assassino, autoritário que Bolsonaro continuamente alega admirar.

Heloísa Starling, uma historiadora brasileira, disse que acredita que Haddad precisa montar “uma grande coalizão democrática” se o Brasil quiser evitar o retrocesso em direção à “tirania”. “Não pode somente ser uma coalizão de esquerda - deve incluir todos que estão preparados para defender a democracia, quem quer que seja”, disse Starling.

James Green, chefe da Iniciativa Brasil da Universidade Brown, concordou que uma “frente antifascista” é essencial se Bolsonaro deve ser parado.

Candidatos derrotados como a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva seriam pressionados para se alinharem com o bloco pró-democracia, independentemente de suas desavenças com o PT, ele disse. “Isso vai marcar as vidas políticas de muita gente - em qual lado estão no segundo turno.”

No domingo de eleição já aconteceram sinais de que Haddad faria exatamente isso.

“Sempre estive do lado da liberdade e da democracia. Não vou desistir de meus valores”, tuitou o intelectual de 55 anos, alegando que já havia falado com três dos candidatos derrotados e que estava aberto ao ‘diálogo’”.

Gomes, que acabou em terceiro com 12.5% dos votos e potencialmente com o maior apoio a ser transferido para Haddad, disse que ainda era muito cedo para dizer o que iria fazer. Mas descartou apoio para Bolsonaro - “Ele não, definitivamente!” - e disse que estava “angustiado” com o rumo que o país está tomando. “Uma coisa que posso te dizer agora [é que espero]...continuar a fazer o que fiz minha vida toda: lutar pela democracia contra o fascismo” Gomes disse aos repórteres.

Winter, no entanto, disse que tinha dúvida se tal aliança seria suficiente: “Esse é o caminho que [os líderes do PT] veem. Querem fazer algo grande pela democracia. Mas não acho que irá ressoar”.

“Haddad vai se inclinar para o centro - um pouco - vai fazer um apelo pela democracia”, previu Winter. “Mas não é claro se há alguém sobrando no centro e a democracia se tornou uma palavra ruim no Brasil. É sinônimo de fraqueza e caos e leniência com criminosos e eu acho que esses apelos pela democracia vão cair em ouvidos surdos.”

 “A maioria das pessoas que apoiam Bolsonaro sabe qual é a dele”, assim como a maioria dos eleitores de Trump sabiam o tipo de homem em que estavam votando, disse Winter.

Também não é possível que Bolsonaro - cuja carreira política de três décadas foi alimentada com comentários incendiários que, nos últimos anos, parecem só ter adicionado lenha à sua fogueira - possa prejudicar a própria campanha com comentários indelicados.

Em uma transmissão de comemoração no domingo de eleição, Bolsonaro alertou que o Brasil estava na beira de um abismo comunista corrupto e que poderia tomar um dos dois caminhos.

Um era o seu caminho de “prosperidade, liberdade, família e santidade”. O outro era o de Haddad: “o caminho da Venezuela”.

“Não queremos esse tipo de pessoa re-ocupando o Palácio do Planalto”, o palácio presidencial brasileiro, alertou Bolsonaro sobre o PT de Haddad.

Os resultados do primeiro turno mostram que a maioria dos brasileiros concorda.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Isabela Palhares



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