Eleições

O Brasil está sob um feitiço político maligno

Bolsonaro representa a ressurreição da tradição política fascista. Essa tradição descarta qualquer norma de decência, tolerância, compromisso e devido processo legal sempre que estes valores venham obstruir a tomada do poder

14/10/2018 14:23

 

 

O Brasil está sob um feitiço político maligno. O principal candidato às eleições  presidenciais é Jair Bolsonaro, um político de extrema direita. É como se os eleitores estivessem caminhando sonâmbulos em direção à destruição da democracia brasileira. Enfeitiçados, estão cegos para a verdade na política brasileira e cegos para suas próprias virtudes.

A ressurreição da tradição política fascista

Bolsonaro representa a ressurreição da tradição política fascista. Essa tradição descarta qualquer norma de decência, tolerância, compromisso e devido processo legal sempre que estes valores venham obstruir a tomada do poder.

Ele defende abertamente o racismo, o sexismo, a tortura e os esquadrões da morte. Essas visões se somam a um programa econômico neoliberal que visa a aniquilar o estado de bem-estar no Brasil e privatizar os principais ativos da nação. Esse programa econômico lhe rendeu o apoio da elite empresarial, disposta a ignorar suas inclinações fascistas como parte do acordo.

O Brasil está sonâmbulo

A popularidade de Bolsonaro não condiz com as preferências políticas expressas no Brasil. Pesquisas recentes mostram que cerca de 65% dos brasileiros apoiam a democracia. É como se o Brasil estivesse sonâmbulo.

Ainda mais impressionante é o fato de que o ex-presidente Lula era a figura política mais popular antes da eleição. A elite política corrupta do Brasil, no entanto, prendeu-o por falsas acusações de corrupção e, com Lula impedido de se candidatar, Bolsonaro se tornou o favorito. Isso mostra o poder ofuscante do feitiço do mal, já que Bolsonaro é o polo oposto a Lula.

Veneno político, amnésia eleitoral e metamorfose

A condição zumbi dos eleitores reflete o veneno política com que a elite os alimentou. Os tubos de alimentação foram um golpe parlamentar e uma mídia desonesta.

O veneno levou a uma amnésia coletiva, e os eleitores esqueceram como o governo do presidente Lula promoveu um milagre econômico de crescimento com aumento de salários e queda das desigualdades.

O veneno permitiu ainda que o Partido dos Trabalhadores (PT) fosse desonestamente pintado como o partido da corrupção. A realidade é que, por muitas décadas, o roubo para enriquecimento pessoal estava restrito à elite empresarial e ao establishment político. O PT recebeu uma quantia relativamente pequena de dinheiro, usada para fins políticos, para “lubrificar” o Congresso corrupto do Brasil. Infelizmente, o governo do PT, novato no poder, confrontou-se com o fato de que o Brasil é ingovernável sem esse “lubrificante”.

História econômica reescrita

O que é pior: a longa recessão foi erradamente atribuída ao PT. A verdade é que a longa recessão do Brasil foi desencadeada pela crise financeira de 2008, iniciada em Wall Street. A presidente Dilma Rousseff defendeu um estímulo fiscal modesto para ajudar na recuperação, mas seus adversários políticos a obstruíram e, em seguida, derrubaram-na com um impeachment por ter realizado procedimentos impróprios de contabilidade orçamentária também adotados por presidentes anteriores.

Um vácuo político e o apelo do autoritarismo

A acusação contra a presidente Dilma Rousseff foi de impropriedades orçamentárias. O motivo real foi a retomada do poder e a tentativa de frear a operação Lava jato, que atingiu a maior parte do establishment político, mas não Dilma Rousseff.

A elite política voltou ao poder através do seu golpe parlamentar chamado de “impeachment”. No entanto, foi incapaz de esconder sua própria e enorme corrupção e, desacreditada, acabou criando um vácuo político ocupado por Bolsonaro.

Com o PT difamado e o establishment político desacreditado, o neofascismo de Bolsonaro passou a parecer atraente. Ele combina autoritarismo e nacionalismo. O autoritarismo oferece falsas certezas, enquanto o nacionalismo explora a lealdade dos brasileiros ao país. Tudo isso envolto numa capa de conservadorismo social que estimula os hipócritas e engana os explorados.

Bolsonaro e as cinco grandes mentiras

Noventa anos atrás, Joseph Goebbels e os nazistas aprenderam o poder da "Grande Mentira". Conte uma grande mentira com frequência e em voz alta o suficiente, e se acreditará nela. A candidatura de Bolsonaro é construída em cima de cinco grandes mentiras.

A mentira número um - e a mais importante: “o PT é tão corrupto quanto os grandes ladrões da elite brasileira”. A realidade é que a elite enriqueceu roubando dezenas de milhões do estado e do povo brasileiro. O PT nunca fez nada parecido com isso.

A mentira número dois é: “o PT é responsável pela longa recessão econômica”. A verdade é que a recessão foi desencadeada pela crise financeira de 2008 e aprofundada pela elite política do Brasil, que sufocou os planos de estímulo econômico da presidente Dilma Rousseff.

A mentira número três é: “Bolsonaro é o candidato do patriotismo”. A verdade é que ele é o anti-Brasil. O Brasil é o país do “jogo bonito” e de Pelé, do samba e da bossa nova, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. É isso que faz do Brasil uma força cultural mundial. Desde o fim da ditadura, em 1985, os brasileiros têm lutado e conseguido avanços sociais. Bolsonaro é o oposto disso tudo. Ele destruiria a tolerância e o multiculturalismo, reverteria os avanços sociais e imporia uma nova ditadura.

A mentira número quatro é: “Bolsonaro é o candidato anti-crime”. O Brasil tem um problema de gangues e criminalidade nas ruas devido ao narcotráfico e à pobreza. A solução é a recuperação econômica e geração de empregos, além de uma estratégia de combate ao narcotráfico. Bolsonaro vai agravar a pobreza com suas políticas anti-trabalhadores. Ele também diz querer matar os criminosos. A realidade é que muitos inocentes morrerão, os direitos civis serão aniquilados e os criminosos terão a companhia de ainda mais criminalidade policial. O Brasil terá mais crimes de rua e mais crimes policiais, fazendo de Bolsonaro o rei do crime.

A mentira número cinco é: “Bolsonaro é o candidato anticorrupção”. A realidade é que ele é aliado dos banqueiros neoliberais que querem privatizar e pilhar o Estado brasileiro. Ele é autoritário, e autoritarismo sempre gera corrupção e ineficiência econômica, porque impede qualquer fiscalização e prestação de contas.

Agora a pergunta mágica: é isso que vocês realmente querem?

Existe um antídoto para o feitiço. Bolsonaro é o anti-Brasil. Ele é abertamente racista e aprova tacitamente o estupro; é defensor da tortura, de execuções extrajudiciais e da ditadura; e seu programa econômico neoliberal tem como objetivo exterminar o estado de bem-estar social. O antídoto é revelar o verdadeiro Bolsonaro e perguntar aos brasileiros “é isso que você realmente quer do seu próximo presidente?”

Desde o fim da ditadura, o Brasil gozou de três décadas de avanços sociais. Isso significa que os eleitores sabem a resposta para a pergunta mágica.

*Publicado originalmente no blog do autor | Tradução de Clarisse Meireles

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