Eleições

O Brasil se prepara para eleger um hipócrita

Alguns conservadores brasileiros veem o candidato presidencial Jair Bolsonaro como representante de tudo o que eles valorizam. Eles deveriam olhar mais de perto

26/10/2018 11:24

Apoiadores do candidato presidencial direitista brasileiro Jair Bolsonaro em uma manifestação no domingo (Nelson Almeida/Agence France-Presse - Getty Images)

Créditos da foto: Apoiadores do candidato presidencial direitista brasileiro Jair Bolsonaro em uma manifestação no domingo (Nelson Almeida/Agence France-Presse - Getty Images)

 
São Paulo, Brasil — Para uma mulher liberal como eu, é difícil entender por que alguém votaria em um candidato presidencial quem vem sendo descrito pelas publicações internacionais como sendo "racista, homofóbico e sexista" (Libération), "uma ameaça à democracia" (The Economist), um "Trump dos trópicos" (The Guardian), "um xenófobo" (Clarín) e um simpatizante de "ditaduras militares e torturadores" que "expressou abertamente ideias fascistas" (Zeit).

Estou referindo-me, evidentemente, a Jair Bolsonaro, o atual favorito para se tornar o próximo presidente do Brasil. O ultradireitista Sr. Bolsonaro é um ex-oficial do exército que cumpriu sete mandatos como deputado federal, durante os quais, segundo o Le Monde, foi "um insignificante político de Brasília, mais conhecido por seus excessos verbais que por seu ativismo parlamentar". Agora, segundo uma recente pesquisa da empresa de pesquisas Ibope, 59% dos eleitores planejam apoiá-lo no segundo turno das eleições, que ocorrerá no domingo (Fernando Haddad, o candidato do Partido dos Trabalhadores, de tendência à esquerda, vem atrás com 41% dos votos).

A ascendência do Sr. Bolsonaro polarizou profundamente a sociedade brasileira. Ao longo da última década, nossas eleições presidenciais foram palco de um confronto da centro-esquerda com a centro-direita, que às vezes provocava acalorados debates — mas agora parece como se a casa fosse pegar fogo. Mais do que nunca, a eleição tornou-se uma batalha quanto a valores — mérito versus igualdade, liberdade versus autoridade, justiça versus legalidade — na qual ambos os lados apontam a natureza autoevidente de suas próprias visões.

Dessa forma, para entender meus compatriotas brasileiros, voltei-me para o trabalho do psicólogo Jonathan Haidt, cuja teoria dos fundamentos morais faz uma impressionante tentativa de conectar pessoas com visões políticas discordantes. Fazendo isso, admito que há algo no Sr. Bolsonaro que ativa intuições morais profundas em seus apoiadores. Muitas pessoas ficam a seu lado não por suas propostas, mas porque para eles, ele tornou-se um símbolo de tudo o que é bom. O problema é que essas pessoas estão reagindo ao símbolo Sr. Bolsonaro — e não ao homem Sr. Bolsonaro.

O Sr. Bolsonaro fala de mérito, por exemplo. Segundo o Sr. Haidt, mérito tem a ver com proporcionalidade; é a ideia de que as pessoas devem receber somente o que merecem. Os apoiadores do Sr. Bolsonaro estão bravos com um inferido abuso dos programas de bem-estar social como o Bolsa Família, que proporciona ajuda financeira a famílias pobres. Eles se sentem lesados com a imagem de pessoas recebendo dinheiro sem trabalhar (eles também não apoiam ações afirmativas).

Isso é tudo compreensível. Mas se é esse o caso, por que os eleitores do Sr. Bolsonaro não estão mais perturbados pelas vezes em que ele próprio violou o princípio do mérito? Por muitos anos, por exemplo, ele recebeu assistência habitacional do parlamento apesar de possuir um apartamento em Brasília. Quando foi perguntado sobre isso, ele disse a um jornal, em linguagem vulgar, que ele usava a ajuda de custo para fazer sexo. E quanto ao fato de que em seus 26 anos como legislador, ele conseguiu a aprovação de somente dois projetos de lei, ao mesmo tempo multiplicando-se seu patrimônio e o de sua família? O Sr. Bolsonaro e seus filhos possuem propriedades avaliadas em US$ 4 milhões, segundo o jornal Folha de S. Paulo.

O Sr. Bolsonaro fala de patriotismo e autoridade — fundamentos morais que são importantes para os conservadores. Seu slogan de campanha é "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos." Porém, quando era capitão no exército nos anos 1980, ele foi punido por deslealdade após escrever um artigo em uma revista reclamando publicamente de seus salários — uma demonstração interessante de respeito pela autoridade. Posteriormente ele foi acusado e condenado por planejar explodir um quartel e uma tubulação que levava água ao Rio de Janeiro, o que também era parte de seu protesto contra os baixos salários (o Sr. Bolsonaro nega ter planejado as explosões e foi absolvido em um recurso).

Segundo os registros militares, os superiores do Sr. Bolsonaro também o consideravam imaturo. Por um breve período, ele esteve envolvido em mineração de ouro; seu superior, o Coronel Carlos Pellegrino, disse que o capitão tinha ambições "de buscar por outros meios" — fora do exército — "a oportunidade de alcançar suas aspirações de ser um homem rico." Isso não se parece com todo aquele patriotismo.

Entretanto, uma coisa é verdade: o Sr. Bolsonaro é leal. O clan Bolsonaro é um grupo unido, com muitos deles trabalhando na mesma área. O Sr. Bolsonaro apoia tanto as estruturas da família tradicional que já foi casado três vezes. Sua primeira esposa, Rogéria, foi uma vereadora do Rio de Janeiro por dois mandatos, com o apoio do seu então marido. Sua segunda esposa, Ana Cristina, já acusou-o de ameaçá-la, mas acabou desistindo de sua queixa; ela estava concorrendo ao parlamento, mas não conseguiu ser eleita.

Três de seus filhos são políticos. Flávio acabou de ser eleito para o Senado brasileiro; Eduardo foi reeleito para a Câmara dos Deputados; e Carlos é vereador do Rio de Janeiro desde que ele tem 17 anos. O irmão do Sr. Bolsonaro, Renato, tentou mas não conseguiu ser prefeito de Miracatu e tornou-se assessor especial de um vereador. Ele foi demitido do emprego após uma reportagem de televisão revelar que ele estava sendo pago sem apresentar-se para trabalhar.

Muitos eleitores conservadores apreciam a autoridade porque ela cria ordem. Eles desejam eleger um governante forte com pulso firme para o país. Entretanto, não tenho certeza de que o Sr. Bolsonaro é capaz de fazer valer seu comando. Um exemplo: ele reconhece que ele só tem um "conhecimento superficial" de economia. Quando lhe são feitas perguntas sobre impostos ou dívida pública, ele depende completamente da opinião de seu assessor econômico, Paulo Guedes. Além disso, após ser esfaqueado em um recente evento de campanha na rua, ele recusou-se a comparecer a debates políticos com o Sr. Haddad, o que não contribuiu de jeito nenhum para uma imagem de autoridade e autoconfiança.

Segundo o Sr. Haidt, eleitores conservadores também dão especial importância ao valor da santidade (ou pureza), rejeitando ideias de degradação. Mas o Sr. Bolsonaro degradaria nossa nação com sua rudeza e ignorância. Ele desrespeitou mulheres, homossexuais, negros e povos indígenas, e mostrou incapacidade de representar nosso povo com classe e inteligência. Ele está longe de ser um líder mundial.

Em se tratando de intuições morais, o Sr. Bolsonaro parece pronto para realizar as expectativas dos conservadores somente na superfície: olhando-se mais de perto, percebe-se que ele age contra tudo o que eles mais valorizam. Tomara que os brasileiros percebam isso — e rápido.

Vanessa Barbara, redatora colaboradora de opinião, é editora do site literário A Hortaliça e autora de dois romances e dois livros de não-ficção em português.

*Publicado originalmente no The News York Times | Tradução de Equipe Carta Maior

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