Eleições

O que justifica o voto do pobre em Bolsonaro?

Que estratégia peçonhenta é esta, capaz de a um só tempo brecar a revolução, no momento mais crítico da degradação das condições de trabalho, e aumentar a repressão?

16/10/2018 19:46

 

 
Os votos das classes média e alta são bem explicados pela consciência de classe. Entre o risco do socialismo e o avanço da ideologia da barbárie, o trabalhador opta pelo mais concreto, não empobrecer.

Na classe média alta, a transigência com os Sem Terra põe
em risco o direito de propriedade, motivo suficiente para apostar na direita.

Os mais abastados, muito além do princípio do prazer, sonham com os ganhos da privatização, os dividendos, frutos do "capital morto", conforme a expressão do socialista John Bellers. No entanto, o critério de classe não explica o voto do miserável.

Como admitir que vote com o coração, e não pela boca?

Wilhem Reich analisou o paradoxo do voto desinteressado a partir da ascensão do Partido Nacional-Socialista (Nazista), em 1932.

O total de trabalhadores da indústria e classes médias urbana e rural somava 60,4 milhões.

A burguesia, proprietários e grandes agricultores, limitava-se a 2 milhões.

Todavia, enquanto comunistas e social-democratas receberam entre 12 a 13 milhões de votos; o Partido Nacional-Socialista alcançava a expressiva marca de 20 milhões dos votos.

No Brasil de 2018, Bolsonaro perde no Nordeste, mas ganha de Haddad no Acre: 62,24% contra 18,53%. O causador da clivagem entre voto e a pobreza é também a razão do fracasso do socialismo e da social-democracia: a ideologia não se determina exclusiva e diretamente pela condição econômica, como pensava Marx.

O marxismo comum tornava a ideologia rígida e unilateralmente dependente dos fatores de produção, na forma de uma antítese mecânica entre ideologia e economia, superestrutura e estrutura.

O fracasso do marxismo, sentencia Reich, decorre da rejeição da psicologia, que será acolhida pelo fascismo, para capturar a veia do homem comum, forjando as bases da chamada "vida psíquica na história".

A questão permanece em aberto.

Que estratégia peçonhenta é esta, capaz de a um só tempo brecar a revolução, no momento mais crítico da degradação das condições de trabalho, e aumentar a repressão?

Trata-se da denominada impotência orgástica. Segundo o glossário de Reich, a falta de potência orgástica decorre da incapacidade de o organismo entregar-se totalmente à convulsão voluntária no auge do abraço genital.

É a doença mais comum do homem médio da nossa sociedade.

O represamento da energia biológica (orgone) no organismo proporciona a fonte de energia para sintomas de biopatia e irracionalidades de toda a espécie.

A complexidade do conceito pode ser reduzida à lição máxima de Freud: a civilização não reprime em absoluto o princípio do prazer. Sublima-o.

O complexo de édipo permanece após a aculturação, na forma de culpa pela adoração da mãe na infância. A lei da conservação de energia é obedecida pela mudança de foco.

O inconsciente trabalha na maturidade para transformar o desejo pela mãe, repreendido na infância, no amor sexual do casamento. A impossibilidade real de que isso aconteça; pela diferença incontestável entre o amor de mãe, baseado na amizade, no desejo de benquerer; e o da esposa, erótico, nunca é aceita em definitivo pelo homem.

O refúgio dessa guerra vencida, em que se nega a rendição por tudo, será a defesa efusiva do sentimento nacionalista, que espelha, na realidade, o desejo da perpetuação indefinida do vínculo com a mãe.

Goebbels, o Ministro da Propaganda Nazista, escolheu as seguintes palavras como divisa dos dez mandamentos do almanaque nacional-socialista de 1932:

"nunca esqueças que a pátria é a mãe da tua vida".

Seria o caso de defender o voto orgástico, limitando a capacidade eleitoral à plena capacidade psíquica?

O epílogo trágico de Simão Bacamarte aponta o contrário.

O famoso personagem de Machado de Assis, em "O Alienista", sacramentou a anormalidade de todos, para no final concluir ser o único louco, trancafiando-se sozinho na Casa Verde.

O Eros incontrolado é tão funesto quanto a sua réplica fatal, o instinto da morte. Sua força destrutiva deriva de lutar contra uma força que a cultura não pode consentir, a gratificação em si mesmo, o gozo; explica Marcuse, eminente filósofo da Escola de Frankfurt.

Devemos então desviar o foco de energia: trocar o interesse nacional por qualquer outra coisa. Nossa mãe agradece.

*João Paulo Rodrigues de Castro é Defensor Público Federal e Psicanalista



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