Eleições

Para analista, extrema-direita acaba com o conto de fadas sueco

Acabaram-se as ilusões para a Suécia: o país modelo de Estado de bem-estar social-democrata é só um país como qualquer outro. Ele vai ter que se acostumar com novas coalizões e um tom político mais duro, afirma Barbara Wesel

12/09/2018 12:20

M. Campanella/Getty Images

Créditos da foto: M. Campanella/Getty Images

 
Os dias de glória da social-democracia estão chegando ao fim na Suécia. É verdade que o partido que teve o poder por décadas e proporcionou à população um Estado de bem-estar sem paralelos não caiu tanto quanto se dizia. Nem os Democratas Suecos, de extrema-direita, aumentaram tanto quanto as pesquisas prediziam.

Entretanto — como aconteceu em outros países europeus — o ascenso inexorável da extrema-direita na Suécia foi acompanhado por excessiva cobertura da mídia que dava a impressão de que os extremistas já tinham chegado o governo. Assim como em outros países, a maioria dos eleitores votou contra os populistas e sua retórica deletéria.

O fim do status especial da Suécia

Muitos suecos estão preocupados com os novos rumos de seu país. O modelo de comportamento escandinavo por muito tempo apresentou uma imagem de superpoder humanitário. Agora ele percebe que está mais parecido com o resto da política europeia. A Suécia parecia estar mais além dessa história de egoísmo nacional, confronto e xenofobia. Os populistas de extrema-direita do país mostraram que esses sentimentos estavam simplesmente escondidos sob a superfície. Os suecos não são de forma alguma pessoas superiores; eles também são afetados pela insegurança e o medo que tão facilmente se convertem em ódio.

O resultado da eleição também mostrou que não faz sentido a teoria de que os pobres e as classes baixas com problemas econômicos sustentam a nova direita. A Suécia possui um sólido crescimento econômico, um baixo desemprego e um sistema de bem-estar social eficaz.

Porém, a distância entre pobres e ricos aumentou um pouco, o que alguns suecos enxergam como uma afronta a seu direito a uma vida pacífica e segura. A culpa por isso recaiu rapidamente sobre os migrantes. O sucesso dos Democratas Suecos deve-se à insegurança que eles plantam na mente dos eleitores. Eles prosperam a partir da exclusão e pregam um estilo de nacionalismo sueco, que embora antiquado e um pouco caricato, é altamente efetivo. Eles têm os mesmo discurso de seus semelhantes por toda a Europa, como a Alternativa para a Alemanha (AfD).

Reestabelecendo o establishment

Os partidos dos establishment sueco precisarão abandonar suas vidas superconfortáveis e aperfeiçoar suas plataformas políticas. Eles precisam de um novo estilo de liderança, porque o estilo atual de um típico vizinho discreto membro de um sindicato não está mais funcionando. O debate na televisão antes da eleição, o qual foi controlado pelo carismático populista Jimmie Akesson, deixou isso claro. Os social-democratas e os conservadores precisam substituir os frios burocratas por líderes de personalidade forte que possam chegar aos corações dos eleitores.

E mais: os atuais blocos de centro-esquerda e direita precisam ter coragem e conseguir montar uma plataforma comum sobre a qual seja possível construir novas coalizões.

Uma nova era

Ainda não se sabe se os conservadores e social-democratas da Suécia serão capazes de tomar tal decisão e ter essa maturidade. Seus pronunciamentos logo após a eleições apontam para que não. Entretanto, o futuro de seus partidos e de seu país como uma democracia estável depende disso.

De qualquer modo, a Suécia entrou em uma nova era: o idealismo de Bullerby acabou. Tanto políticos quanto cidadãos precisam aprender a lidar abertamente com o conflito social. Acima de tudo, eles têm que se contrapor ao veneno do populismo de direita com sua própria visão de uma Suécia moderna. É triste dizer, mas a Suécia liberal seguiu o caminho de outros países: cheia de dúvidas, insegurança e à procura de um espaço seguro em um mundo perigoso e confuso.

*Publicado originalmente no Deutsche Welle | Tradução: Equipe Carta Maior



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