Eleições

Pesquisas eleitorais são confiáveis? Datafolha ou IBOPE, qual a é a melhor?

Verificamos as metodologias dos dois maiores institutos de pesquisas eleitorais: IBOPE e Datafolha. E vimos que existem erros GRITANTES nos resultados

03/10/2018 16:40

 

 
Pesquisas Eleitorais

As pesquisas eleitorais não fazem uma amostra ideal e tem alguns erros de seleção. Para superar as críticas que são feitas a essas falhas podemos apontar um fator crucial: o objetivo desse tipo de pesquisa. A intenção de uma pesquisa eleitoral é saber qual candidato tem maiores intenções de voto e se estas intensões estão crescendo ou reduzindo durante a campanha eleitoral. Em outras palavras, as pesquisas exigem dinamismo para a tomada de decisão das campanhas e a decisão dos eleitores. Assim as pesquisas não tem o rigor das pesquisas feitas por Órgãos Oficiais como o IBGE, mas atendem seu objetivo.

Verificamos as metodologias dos dois maiores institutos de pesquisas eleitorais: IBOPE e Datafolha. Algumas coisas são comuns em determinados aspectos. Ambas fazem uma amostragem por estágios e os primeiros estágios são semelhantes: primeiro o sorteia o município, depois o local das entrevistas, etc. As entrevistas do Datafolha são pessoais e realizadas na rua utilizando o sistema de quotas. O entrevistador fica entrevistando até conseguir determinado número de pessoas a partir de um critério. Essas quotas são feitas por sexo e idade: basicamente elas tentam reproduzir a pirâmide etária do Brasil. Já as entrevistas do Ibope são feitas em domicílios (essa informação não é fornecida publicamente).

Entrevistas feitas a domicílios tem outros problemas como não ter acesso a determinadas áreas da cidade. Em áreas de risco, condomínios de luxo ou quando a pessoa desconfia e não deixa o entrevistador entrar em sua residência a entrevista não é realizada. Essa limitação traz um viés nos resultados.



A ponderação dos resultados leva em consideração sexo, idade, escolaridade, nível de renda, etc. em ambas as pesquisas utilizam estas variáveis. É preciso fazer enfatizar que, segundo a teoria da amostragem, não é possível calcular nível de confiança e intervalo de confiança para pesquisas onde as entrevistas são feitas por quotas, por ter uma aleatoriedade muito questionável. Contudo os institutos publicam que estimam esses valores. Algo muito estranho e que limita a confiabilidade das pesquisas.

Datafolha ou IBOPE, qual a é a melhor?

Os pontos em que as pesquisas diferem não são muitos, mas são importantes. Primeiramente o número de entrevistas e a quantidade de municípios. Enquanto o Datafolha realiza pouco mais de 9 mil entrevistas em mais de 300 municípios em alguns levantamentos, o Ibope realiza entre duas e três mil entrevistas em pouco mais de 200 municípios. Um tamanho de amostra e uma quantidade de municípios maior torna a pesquisa mais confiável, desde que garantida a aleatoriedade do processo de seleção das cidades e dos entrevistados. Em relação a forma como as quotas são feitas o Ibope utiliza um critério de nível econômico: a População Economicamente Ativa (se trabalha ou está disposta a trabalhar) e no critério de nível de instrução divide apenas em quem estudou até o nível médio e quem tem ensino superior. O primeiro critério torna a amostra mais precisa ao diferenciar quem faz parte da força de trabalho daqueles que estão fora da força de trabalho. Mas o segundo torna a amostra menos parecida com a realidade ao agregar desde pessoas sem nenhuma escolaridade (analfabetos) com aqueles que tem nível fundamental e nível médio.

Outro quesito importante é a checagem dos dados feita pelos institutos. Enquanto o Ibope checa 20% dos questionários o Datafolha checa 30% dos questionários. Outro fator citado é que é verificada a consistência dos dados pelo Datafolha enquanto o Ibope não cita essa verificação na metodologia. Isto torna as estimativas da pesquisa mais confiável, dado que essas pesquisas são feitas em dois dias e no próximo dia já tem que entregar os resultados. Em alguns casos os resultados são entregues no mesmo dia. Essa rapidez exige que o trabalho de tratamento de dados, imputação, etc., que tornam as estimativas melhores, seja feito muito precariamente ou nem feitos em alguns casos. Neste quesito o Datafolha é melhor por ter um pouco mais de cuidado na verificação dos dados a serem apresentados.

Existe manipulação nas pesquisas?

Apesar das críticas feitas aos institutos e a forma de fazerem a amostragem confiamos nos resultados por supor que as pesquisas são feitas sempre com a mesma metodologia. O princípio é o seguinte: se nos pesamos em uma balança desajustada duas vezes e entre uma pesagem e outra fazemos uma dieta para perder peso, essa balança vai mostrar uma variação do nosso peso, mesmo estando desajustada. Entretanto, se a balança for consertada ou sofrer outro desajuste entre uma pesagem e outra, o resultado da segunda pesagem perde a capacidade de perceber a variação de peso. Assim se na realidade perdemos peso e a balança estava desajustada para cima, agora ela vai superestimar a perda de peso. Assim pensaremos que perdemos muito peso enquanto na verdade perdemos pouco peso.

Esse tipo de modificação foi feito pelos institutos nas últimas pesquisas divulgadas. O Datafolha de 2/10 sai com um número muito menor de entrevistados e foi realizada em menos cidades do que nos levantamentos anteriores. Os dados das pesquisas Datafolha mostram o seguinte:



Na pesquisa do dia 19/9 e do dia 28/9 o Datafolha utilizou um grande número de entrevistados (mais de oito mil) na sua amostra, mas na pesquisa do dia 2 de outubro entrevistou apenas um terço de eleitores (3.240 eleitores). Essa alteração causa um grande problema em termos de comparação com as pesquisas anteriores. Assim como no exemplo da balança que sofre um ajuste entre uma pesagem e outra, os resultados podem ser superestimados ou subestimados. E neste caso parece ter acontecido os dois. Esses resultados não deveriam ser comparados devido a alteração feita no tamanho da amostra. A variação apresentada não é válida.

Quanto a outra pesquisa (IBOPE) aconteceram dois erros graves na pesquisa divulgada segunda (1/10). O primeiro foi a realização da coleta no mesmo final de semana que aconteceu uma grande manifestação nas maiores cidades do país contra um candidato a presidência da República. E o segundo erro foi a mudança no filtro de seleção dos entrevistados. O Ibope pergunta se a pessoa votou na última eleição, se ele responde que sim ele prossegue. Ou seja, quem não votou não é entrevistado e causa um viés de seleção da amostra. Em segundo lugar percebemos que uma pesquisa feita em domicílios em um dia onde estava acontecendo uma manifestação de rua contra Bolsonaro vai apresentar crescimento maior que a realidade deste candidato. E por outro lado mostrar uma redução da intenção de votos para o Haddad, muito diferente do crescimento que estava tendo. Enquanto a rejeição apresenta uma mudança de direção para os dois: Haddad aumenta muito e Bolsonaro diminui. O que explica esse resultado estranho é que as pessoas que apoiam Bolsonaro estavam em casa para receber os entrevistadores enquanto as pessoas que apoiam Haddad estavam fora de casa, participando das manifestações.



Tanto o resultado do Ibope quanto do as variações do Datafolha são exemplos de manipulação para o eleitor pensar que determinado candidato vai ganhar. Isto é válido para uma parcela dos eleitores que estão em dúvida e aqueles que tem o chamado voto útil. Alguns eleitores tem a tendência de querer votar no candidato que vai ganhar (chamam isso de “não perder o voto”) e esse tipo de pesquisa tendenciosa ajuda a determinado candidato a ganhar eleitores. Esta atitude dos institutos tira a cientificidade da pesquisa e faz com que a atividade de pesquisa se transforme em um marketing eleitoral. Infelizmente o Brasil vive este cenário difícil.

*José Jaime da Silva é Economista formado pela UFPE-CAA e mestre em estatística pela ENCE (Escola Nacional de Ciências Estatísticas), atualmente é assistente de pesquisa no IPEA.

**Este texto foi alterado às 15h31 do dia 04/10/2018

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