Eleições

Submundo digital atravessa resistência popular nas eleições

A disputa no mínimo desleal exige determinação das instituições democráticas e conta com a resistência do campo progressista

24/10/2018 11:12

Belém defendeu a candidatura de Fernando Haddad no segundo ato nacional em prol da democracia no país (Edson Palheta)

Créditos da foto: Belém defendeu a candidatura de Fernando Haddad no segundo ato nacional em prol da democracia no país (Edson Palheta)

 
Organizações sociais e lideranças de diversos matizes do campo progressista têm usado a luz do dia como território de mobilização de milhares de pessoas na defesa da democracia no Brasil no decorrer das atuais eleições presidenciais. São atos massivos nas grandes avenidas e miudezas dos bairros de cada cidade na perspectiva de um modelo político que tem se consolidado no país há 30 anos, com a promulgação da Constituição Federal e após 21 anos de ditadura militar. Mas é no submundo das redes virtuais que representantes de um regime fascista de governo e seus aliados têm feito estragos de amplas e graves proporções à sociedade, numa evidente força do poder econômico que garante disseminação brutal de mentiras via crimes eleitorais. Estão em xeque não apenas direitos sociais conquistados por meio da resistência popular, mas o sistema que chancela o Estado de Direito no gigante latino-americano.

Desde o início de sua campanha, o capitão da reserva, Jair Bolsonaro (PSL), tem se beneficiado de estratégia obtusa com as chamadas fake news. Uma delas, sobre o esdrúxulo “kit gay”, expressão usada pelo presidenciável e seus apoiadores para atacar, deliberadamente, o Partido dos Trabalhadores e seu candidato à Presidência, Fernando Haddad. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que a notícia mentirosa de que o ex-ministro da Educação teria distribuído livros de cunho sexual para estudantes de escolas públicas fosse excluída das redes sociais. Outra postagem injuriosa, a falsa declaração atribuída a Haddad de que caberia ao Estado decidir se uma criança seria menino ou menina foi condenada ao mesmo veredito.

Agências de checagem de informação têm apontado uma série de notícias fajutas e sua repercussão no mundo virtual, com milhares de compartilhamentos no Facebook, que acaba de remover um grupo de quase 70 páginas e mais de 40 contas da rede social por violação de políticas de autenticidade e spam em benefício de Bolsonaro.

O esquema de caixa dois revelado esta semana coincide com o que próprio PT vem demonstrando. Mas, “por falta de legitimação da denúncia pelo TSE, abrindo uma investigação de forma muito vaga, correndo sob sigilo de Justiça e sem pressa nenhuma de apurar a denúncia, que foi algo que se notou no pronunciamento do TSE deste domingo, muitas pessoas não estão levando a sério”, alerta Sabrina Fernandes, Doutora em Sociologia e professora da Universidade de Brasília. O uso desse subterfúgio tem sido fartamente descrito em sua semelhança com o que usou o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em sua disputa eleitoral, em 2016, sob o comando de Steve Bannon. O estrategista teve foto sua com Eduardo Bolsonaro divulgada pelo próprio parlamentar, em agosto, junto com um anúncio de parcerias em consonância com a candidatura do pai.

Submundo digital
 – A desigualdade no acesso a informações verídicas é fator relevante neste cenário. Pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, da Unesco, divulgada em julho deste ano, reafirma um quadro alarmante: 42 milhões de residências no Brasil, ou 61% dos domicílios, estão conectadas à Internet apenas via banda larga ou dispositivos móveis, com as classes D e E ocupando 70% dessa fatia indigesta do bolo. Há ainda um alto índice de aquisição de pacotes para acesso restrito ao WhatsApp, que se transforma no principal veículo de disseminação de mentiras.

A proporção de usuários de Internet no Brasil cresceu seis pontos percentuais, passando de 61% (2016) para 67% (2017). “É fantástico e ajuda a assegurar a democracia, desde que a gente tenha formas de combater a despolitização e se os tribunais que reagem às questões eleitorais no Brasil estiverem mais atentos. A ferramenta tem sido manipulada para beneficiar um candidato por meio de fake news”, analisa Sabrina.

Ela garante que existem, sim, medidas para o combate imediato das estratégias eleitorais desleais, como “desencorajar campanhas oficias exigindo retratação pública, penalizações em tempo de TV ou penalizações que exijam retratação no próprio tempo de TV”, indica. A professora acrescenta que é possível “mapear certas redes, buscando informações sobre como essas listas e números estão sendo atingidos. Há uma questão sobre as próprias empresas, que se utilizam de listas de transmissão através de números agregados, coletados de formas diversas, inclusive lista de consumidores. O TSE não se preparou para essa eleição”, conclui Sabrina.

Jogo limpo – O Pará foi decisivo para abrir um segundo turno nas eleições presidenciais e foi um dos estados que deu vitória para Fernando Haddad. Na capital, mais 80 mil pessoas sob o protagonismo das mulheres foram às ruas no dia 29 de setembro, em sintonia com os atos em todo o país. Intensificou-se a campanha olho no olho e a integração de várias organizações políticas e partidárias no segundo turno, responsáveis, dentre outras ações, por novo ato nacional no dia 20 de outubro.

Com acúmulo político e organizativo de 35 anos, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) tem cumprido papel crucial nos processos reivindicatórios. “Estivemos unidos por ocasião da PEC 55, da reforma do Ensino Médio, da Reforma Trabalhista e das terceirizações. A defesa da democracia no nosso país é a pauta mais importante neste atual cenário brasileiro”, alerta a vice-presidente da entidade, Carmen Foro.

A agricultora familiar é assertiva. “A Constituição de ´88 garantiu vários direitos, ainda que não possa ser considerada revolucionária. Retroceder é voltar à barbárie, num país de apenas 130 anos de Abolição da Escravatura formal”, compara. E pinça uma observação muito simbólica do levante suprapartidário de mulheres contra Bolsonaro: “Há um vigor muito grande das mulheres brasileiras. Se sem democracia não há direitos garantidos para trabalhadoras e trabalhadores, sem democracia não haverá vida para as mulheres”, sentencia.

Outro aliado da chapa Haddad e Manuela D´Ávila, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) simboliza uma resistência vitoriosa ao longo de seus 34 anos de fundação. “Estas eleições significam a possibilidade concreta do aprofundamento da pauta de retrocessos que vem se dando há dois anos, desde o golpe institucional. É o caso das privatizações de setores estratégicos para a soberania nacional e o aniquilamento de movimentos populares, classificados como organizações criminosas, que levantam a bandeira da luta pela moradia e da reforma agrária, como MTST e o MST”, traduz Ayala Ferreira, dirigente do movimento no Pará. Em seu relato, a certeza de que a natureza contestatória do MST induz ao enfrentamento antes e após o resultado das urnas, ainda que ela traduza a celebração do autoritarismo.

Capitaneado por Guilherme Boulos e Sônia Guajajara no primeiro turno, o PSOL prontamente se posicionou pela composição com a candidatura de Haddad e Manuela no segundo. Jornalista e militante do partido, em São Paulo, Luka Franca encara a disputa eleitoral com a mesma determinação com que mira os dias que se seguirão a ela. Neste momento, é preciso “se munir das informações sobre o que significa o programa de Bolsonaro. Quem lê o programa dele consegue compreender que não existe um projeto de educação ou saúde pública; a proposta da carteira de trabalho verde-amarela é uma piada para os direitos trabalhistas e previdenciários; fora todo o não investimento em temas relacionados aos direitos humanos e a resolução de que haverá privatização de empresas públicas brasileiras não-especificadas. A candidatura de Bolsonaro abriu uma caixa de pandora da violência política que não vai parar no dia 28 de outubro e teremos que aprofundar estratégias e táticas de autoproteção coletiva”. A carteira verde e amarela é mencionada pelo PSL como uma peça que não estará submetida às regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Bolsonaro tem sido exposto no indicador de indigência intelectual, paralelamente às suas vastas declarações chulas e seus estridentes palavreados contraditórios, elementos que desafiam o comportamento eleitoral no Brasil.





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