Histórias do Futuro

Antes, o futuro era tão bom

Há cerca de um ano tudo ia correr bem. O futuro era tão bom, as reformas estruturais tão melodiosas e os políticos tão belos

26/02/2018 18:57

 

 
Há cerca de um ano tudo ia correr bem: Hillary Clinton ia salvar Washington, Juppé ia renovar a França, Cameron ia arrumar a oposição, Renzi ia neutralizar as resistências internas e Schulz, o "Saint Martin" segundo o Der Spiegel, voava de Bruxelas para vencer Merkel. O futuro era tão bom, as reformas estruturais tão melodiosas e os políticos tão belos.

Agora, contamos os dias para saber se Berlusconi ou Grillo ganharão Itália, se Orbán disparará sobre refugiados, se a coligação alemã se faz ou desfaz depois de quatro meses de negociação, se o Brexit sai caro a todos, se a cúpula do PP espanhol é condenada por corrupção, se Macron bombardeia a Síria, se os botões bélicos de Trump funcionam mesmo. Num ano, a política ronda o caos e poderíamos questionar se o que mudou foi a ingenuidade ou a realidade.

Ora, nem se pergunta. O passado que nos atropela é simplesmente a mentira do futuro risonho: afinal, as Bolsas pagam a bolha, Trump é Trump e a União Europeia é castigada pelo esvaziamento das soberanias, entretendo-se com jogos resignados à impostura do centralismo e levando os países a arrastarem-se entre remendos e sustos.

António Costa, fino como sempre, pressente o risco, faz as contas e propõe uma subida da contribuição portuguesa para proteger o seu saldo, mais novos impostos europeus que saem de tinteiros antigos para prometer cooperação onde só há conformismo. Ele nem acredita nessa contabilidade nem no tal futuro tão doce, espera simplesmente esperar mais algum tempo.

(publicado no Expresso)



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