Histórias do Futuro

Chegarão aliados inesperados...

Sem deixar-nos contaminar por um clima político patético e por ortodoxias enlatadas, podemos sonhar

08/01/2019 09:49

Mural do arcebispo Óscar Romero e do jesuíta Padre Rutilio Grande é visto em El Paisnal, El Salvador (CNS/Octavio Duran)

Créditos da foto: Mural do arcebispo Óscar Romero e do jesuíta Padre Rutilio Grande é visto em El Paisnal, El Salvador (CNS/Octavio Duran)

 
Entre os milhões que votaram Bolsonaro há de tudo. Desde uma minoria de mente facistóide, os conservadores que temem mudanças, os que absorveram um antipetismo sem refletir, os que se afogaram em “fake news”, os que aguardam com esperança que este governo acabe com a corrupção e a insegurança... Ali estão não só os poderosos, mas homens e mulheres do povo, ingênuas classes médias.

Há que fazer um esforço para entender porque tantos apoiaram o coiso. Isso deveria ser feito sem tripudiar com aquela frase irritante:“Vêem como tivemos razão?”. Falsa atitude dos que se consideram com "bonne conscience", os "bien pensants" do nosso lado, que tanto indignavam Bernanos.

Saulo era um perseguidor de cristãos (At 7, 58). Indo a Damasco, uma luz brilhou e Saulo caiu por terra. Uma voz lhe disse: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” E logo se identificou:”Eu sou Jesus, a quem persegues”. Cego, Saulo foi levado à cidade.  Quando o Senhor pediu a Ananias que o procurasse, este reagiu incrédulo:“Senhor, quantos males este homem tem feito aos teus santos em Jerusalém”. O Senhor porém disse: “este é um instrumento escolhido para levar meu nome a gentios e judeus”. Seguindo o que lhe foi ordenado, Ananias impôs sobre Saulo as mãos e este voltou a ver. Quando, logo depois, Saulo/Paulo pregava nas sinagogas a Jesus,  muitos diziam atônitos: “Não é este o que exterminava em Jerusalém aos que invocavam o nome de Jesus?” (At 9, 3-21). Sabemos o que se seguiu e Paulo, ao fim de seu fecundo peregrinar, pôde dizer: “combati o bom combate” (2 Tim 4,8).

[Caravaggio: No caminho de Damasco]

Oscar Romero era um bispo conservador e timorato. Ao chegar a San Salvador como arcebispo, recolheu em seus braços o corpo imolado do Padre Rutílio Grande e sua batina branca manchou-se com sangue de mártir. Depois, foi ouvindo pacientemente seu povo. E sua voz levantou-se corajosa, em defesa de seus pobres. Não temeu os poderosos e proclamou a desobediência aos soldados convocados para matar. “Em nome de Deus, em nome deste povo sofrido, cesse a repressão”. No dia seguinte desta homilia, no momento em que ofertava o vinho que se converteria no sangue do Senhor, um tiro certeiro o matou.

Quando o arcebispo Bergoglio foi eleito bispo de Roma, muitos argentinos, a partir de fatos, verdadeiros ou não, durante os tempos da repressão, ficaram céticos. Mas logo que foi proclamado, no balcão da  basílica,  escolheu o nome do pobrezinho de Assis e desde então não parou de  surpreender.

George Bernanos e Miguel Unamuno, num primeiro momento, olharam com simpatia o levante de Franco. Entretanto o primeiro estava na ilha Mallorca e, vendo a terrível repressão militar, escreveu indignado sobre “os grandes cemitérios à sombra da lua”.

Unamuno, como reitor da Universidade de Salamanca, enfrentou o general fascista Millán Astray, que lançara, dizem, seu espantoso “Abaixo a inteligência, viva a morte”. Don Miguel teria respondido altaneiro: “Venceréis, pero no convenceréis”. Retirou-se e morreu logo depois, como um bom cavalheiro de têmpera vasca.

[Aliás, para vergonha nacional nossa, hoje não é um militar, mas um espantoso ministro da educação que declara guerra ao pensamento e à verdade].

Assim, há que acreditar que muitos, pela retidão ou pela graça, podem rever seus passos.

Dentro de alguns meses, com tantos desgovernos e decisões contraditórias, com afirmações logo em seguida desmentidas, muitos se perguntarão: “Afinal, como chegamos a pôr esperança nesses que se lançam, catacegos, num tiroteio sem rumo?”

É hora de ouvir pacientemente os desiludidos e começar  um diálogo aberto. Descobriremos, então, coincidências latentes, por exemplo, na postura contra a corrupção e no desejo de segurança.

Há parâmetros a levar em conta: um desejo de verdade, um coração aberto ao sofrimento alheio, a abertura a outras posições...

Por outro lado, seria necessário afastar-nos de oposições apaixonadas, que só trazem rancor e que  parecem ser, no fundo, reações às avessas  iguais às que condenamos. Alguns possíveis hipócritas dirão: nós, os puros, com “posição correta”, não podemos misturar-nos com quem votou Bolsonaro. Mas numa luta pela liberdade, pela nação e pelo povo, teremos ao lado acompanhantes inesperados, que vêm do outro lado, capazes de repensar seus itinerários e ajudar-nos a revisar nossos próprios preconceitos. E, por outra parte, perderemos talvez antigos aliados, afogados em seu mundinho ideológico rarefeito.

Lembremos então, perto de nós, Teotônio Vilela, convertido pelo sentido de justiça e de fraternidade, acolhido logo como grande companheiro. Ele tinha sido senador do partido dos militares e se transformou na grande voz da liberdade. É ocasião de acreditar que as pessoas podem mudar radicalmente. Quantos não teriam olhado com enorme desconfiança aquele político da Arena de viés coronelesco, como os que escutavam Saulo/Paulo. E, mais adiante, já gravemente doente, ele passaria a ser o profético menestrel das alagoas.

Dele cantaram Milton Nascimento e Fernando Brant:

Quem é este viajante

   Quem é esse menestrel

   Que espalha esperança

      E tranforma sal em  mel.


Deveriamos tentar um cuidadoso trabalho pedagógico para superar divisões indevidas, indispensável numa atitude dialógica. Isso é, sem lugar a dúvidas, pluralismo democrático.

E aos poucos, poderá ser possível realizar, com todas as pessoas de boa vontade, vindas das mais inesperadas origens e a partir das bases sociais, uma frente ampla nacional, popular e democrática. Para além de sectarismos que sufocam.

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Sem deixar-nos contaminar por um clima político patético e por ortodoxias enlatadas, podemos sonhar:

Temos de sair do casulo fechado

de nossas certezas frouxas,

das convicções mumificadas,

das ideias rígidas que aprisionam,

abrindo-nos sem medo

a outros horizontes,

sentindo ao lado

o adversário de ontem,

companheiro agora

de dúvidas compartidas

e de esboços surpreendentes.

Murilo Mendes nos apontou:

é hora de explodir, largar o molde.

E sair na busca de uma Ítaca encoberta,

desvendada a muitas mãos,

um Graal que só os puros de coração,

como Galahad, filho de Lancelote,

conseguem adivinhar.

Só então poderemos romper

os sete selos do Apocalipse.

Vencendo o aniquilamento, inventando a vida.



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