Histórias do Futuro

Em direção a um futuro de pequenas fazendas

 

01/11/2020 13:16

(Reprodução/bit.ly/37Y13ew)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/37Y13ew)

 
O civeta de palma é um pequeno mamífero onívoro da Indonésia e de outras partes da Ásia tropical. Surgindo de sua casa na floresta para as plantações de café, é capaz de sentir os mais finos frutos de café em perfeita maturação. Comendo-os, digere a polpa e excreta os grãos, adicionando a eles o aroma almiscarado das suas glândulas anais.

Nos anos 90, kopi luwak indonésio – café de civeta, feito com grãos que passaram pelo trato digestivo de um civeta – se tornou uma nova commoditie de luxo entre ricos amantes de café. A dinâmica de mercado sendo como ela é, produtores locais lucraram com a demanda ao capturar e enjaular civetas selvagens, alimentando-os forçadamente com grãos de café e vendendo a produção como kopi luwak a preço reduzido. Mesmo mais barato, o café resultante não tinha a mesma qualidade do original conferida pelo nariz do civeta, e tudo às custas do bem ecológico e animal.

Vivemos em mundo de trade-offs (trocas, compensações). Se você quer um kopi luwak genuíno de boa qualidade e baixo impacto ambiental você tem que pagar alguém para explorar as florestas em busca de um civeta selvagem para você. Os humanos podem simular o processo e produzir um produto similar a preço reduzido, mas não é o mesmo.

Pode, às vezes, ser possível achar melhorias genuínas, vantajosas e sem trade-offs. Mas com a maioria das coisas, incluindo o kopi luwak, e com a agricultura no geral, existem os trade-offs. Aumente o preço e diminua o bem estar animal. Aumente a produtividade e você também vai aumentar o trabalho humano, combustíveis fósseis, ou a poluição. E por aí vai. Se o custo de uma melhoria é válido é um julgamento de valor que pessoas diferentes opinarão de maneira diferente. Mas as vozes de algumas pessoas não são ouvidas, especialmente quando os custos são descarregados no futuro.

Em nossa tentativa de fornecer comidas baratas para nossas multitudes humanas, o trade-off é que muitas pessoas acabam comendo merda – figurativamente, e, como já vimos, às vezes literalmente. Mas a nossa cultura é atraída por uma narrativa de progresso constante – uma narrativa que nos obriga a desviar a nossa atenção dessa possibilidade levantada pelo economista Thomas Sowell: não há “soluções”, somente trade-offs.

Existem diferentes maneiras de lidar com trade-offs problemáticas ou, nas palavras do futurologista Peter Frase, de “amar nossos monstros”. Se as ações humanas estão extinguindo polinizadores, Frase sugere que “aprofundemos nosso engajamento com a natureza” desenvolvendo pseudo abelhas robóticas para fazer o trabalho no lugar. Eu não vou me alongar aqui sobre o quanto isso é fantasioso, mas vou sugerir um “monstro” diferente que podemos escolher amar se quiséssemos: uma agricultura que não use venenos que matem abelhas, e que, ao invés, favoreça intervenções biológicas complexas, incluindo maior mão-de-obra humana. Poderíamos aprender a amar o trabalho imediato que é agir na natureza na mesma intensidade que amamos o trabalho de desenvolver máquinas. E poderíamos amar os limites impostos pela natureza do mesmo jeito que amamos transcendê-los.

Um obstáculo a esse tipo de amor é a narrativa do progresso que mencionei. Adaptar abordagens menos tecnológicas e com maior mão-de-obra humana na solução de problemas ou para alcançar uma necessidade, ao invés de abordagens muito tecnológicas que substituem o trabalho humano é algo considerado retrógrado, uma volta nostálgica no relógio, como se uma catraca histórica evitasse que fizéssemos qualquer coisa no futuro que pareça com coisas que fizemos no passado. Na realidade, há uma catraca que trabalha assim – a economia política capitalista. O erro que cometemos frequentemente é supor que essa catraca é uma força implacável da natureza ao invés de uma maneira particular de organizar a sociedade com uma história que um dia pode acabar.

Esses dois monstros da superação versus limitação estão se tornando tão significativos quanto as divisões na política contemporânea e os velhos esquemas entre esquerda e direita. Thomas Sowell distinguiu entre o que ele chamou de visões “restritas” e “irrestritas” de bem estar humano, a primeira enfatizando a optimização das trade-offs dentro de limites relativamente imóveis, a última enfatizando a perfeição por meio da superação das limitações. A primeira está usualmente associada, como o próprio Sowell, ao pensamento conservador. Abrange uma noção popular do capitalismo como troca de mercado, a soma de inumeráveis transações sem grandes propósitos ou mão invisível surgindo da limitada racionalidade das pessoas agindo em seu próprio e imediato aqui e agora. A visão irrestrita usualmente é associada com a esquerda política e suas ideias de remodelar as pessoas para trabalharem coletivamente, alcançando novos objetivos e grandes coisas.

Mas essas certezas estão se dissolvendo. A virada neoliberal no capitalismo global investe a própria mente “do mercado” com um tipo de inteligência de auto aperfeiçoamento que não tolera quaisquer limites que a razão humana tenta inserir ao redor.

E vários ramos da esquerda irrestrita se inscrevem para esse programa, se tornando quase indistintos do capitalismo que supostamente rejeitam. Veremos livros com títulos como Comunismo de Luxo Completamente Automatizado ou A República Popular do Walmart: Como as maiores corporações do mundo estão preparando o terreno para o socialismo.

Nesse cenário político que está surgindo, os conservadores inclinados para a visão restrita estão descobrindo que não há nada especialmente limitado ou conservador sobre o capitalismo corporativo, enquanto aqueles à esquerda, como eu, não persuadidos pelo capitalismo corporativo ou pelas tentativas de domá-lo com versões esquerdistas simplistas de fartura global industrializada, estão descobrindo uma necessidade de reavaliar a ideia de limitação e aspectos de políticas conservadoras informadas por ela. Se deixássemos um planeta habitável e abundante para nossos descendentes, uma parte importante dessa reavaliação envolveria repensar a relevância das pequenas fazendas ou sociedades de “camponeses” que são frequentemente descartadas pelo seu “atraso” ou enterradas sob um legado inutilizável de romantismo e nostalgia.

Por essas razões, precisamos considerar algumas questões que tradições políticas modernas não nos equiparam para responder com sutileza, ou até mesmo para perguntar. E se a saída para fora da exploração agrícola em direção a uma prosperidade urbana-industrial que os países ricos de hoje seguiram já não for mais viável para milhões de pessoas pobres dos países “em desenvolvimento”? E se essa vida urbana-industrial, na realidade, se tornar cada vez mais inviável até mesmo nos países ricos em face a várias crises políticas, econômicas e ecológicas? Como se desenrolará o futuro da humanidade?

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares





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