Histórias do Futuro

Greta Thunberg antes de 20 de agosto

A jovem ativista sueca contra a crise climática teve certeza desde o começo de sua greve escolar: ''para que vamos a estudar se vocês nos roubaram o futuro''

02/04/2019 13:49

(Janek SKARZYNSKI/picturedesk.com)

Créditos da foto: (Janek SKARZYNSKI/picturedesk.com)

 

Todo mundo conhece a Greta Thunberg. Desde que iniciou sua greve escolar semanal contra a crise climática, em 20 de agosto do ano passado, até a sua recente nominação ao Nobel da Paz, passando por sua irrupção mundial, ao se enfrentar aos ricos e poderosos durante a cúpula de Davos e da cúpula do clima de Katowice. O movimento iniciado por Greta já possui centenas de milhares de seguidores, com mais de 100 países envolvidos. Os adultos ficam sem argumentos e sem palavras diante da simplicidade da mensagem: “para que vamos estudar, se vocês nos roubaram o futuro”. Mas de onde surgiu o fenômeno de Greta Thunberg?

Na palestra TED com o título “Como iniciar um movimento dura pouco mais de três minutos, o empresário estadunidense Derek Sivers comenta um vídeo caseiro que se reproduz em um projetor às suas costas. O vídeo mostra um jovem dançando sozinho, numa espécie de ladeira cheia de mato, onde outras pessoas estão sentadas olhando-o. O garoto, sem camiseta nem sapatos, mas com óculos de sol, se contorce e salta de forma desinibida, seguindo uma música na que quase não se escuta a voz de Sivers: “o líder deve ter coragem para se destacar e ser ridiculizado”, afirma o palestrante.

Alguns segundos depois do começo do vídeo, outro jovem, de cabelo negro e camiseta verde, se aproxima do “líder” correndo e passa a dançar com ele, diante do atento olhar das pessoas sentadas na grama. Não há dúvida de que estão felizes. Este “primeiro seguidor” é, segundo Sivers, um segundo líder, ao mostrar a todos os demais “como seguir”. Em menos de dois minutos, a ladeira inteira já está cheia de gente dançando. Ninguém ficou sentado na grama.

A palestra TED de Sivers foi publicada na popular plataforma em fevereiro de 2010, e vista por quase oito milhões de pessoas. Uma delas é Bo Thorén, um ativista do grupo Fossil Free Dalsland, do oeste da Suécia. Em 2013, foi um dos pioneiros do movimento pelo fim dos investimentos em combustíveis fósseis no país nórdico. “Me sentia muito frustrado, porque acreditava que faltava uma voz no movimento: a dos jovens”.

Durante a primavera do ano passado, o ativista se reuniu com companheiros e companheiras de outras organizações não governamentais em Estocolmo. Durante essas reuniões, ele propôs a ideia de uma greve escolar pela crise climática, mas esta não foi bem recebida pelos demais. “Ao voltar dessas reuniões, seguia pensando que era algo necessário”. Assim, em colaboração com a ONG Climate Reality (que é dirigida pelo ex vice-presidente estadunidense Al Gore), Thorén convidou jovens ativistas a uma videoconferência através do Skype para propor a ideia de uma grande marcha de estudantes, inspirada nos movimentos climáticos estadunidenses Zero Hour e Sunrise Movement, e também nas manifestações dos sobreviventes da matança do instituto de Parkland. Greta Thunberg, ainda uma desconhecida, foi uma das que participou, respondendo ao chamado.

“Durante essas reuniões online, apresentei a ideia de uma greve escolar. Havia eleições programadas para setembro, três semanas depois do início do curso. Imagina o que aconteceria se as crianças chegassem no primeiro dia e dissessem `não voltaremos até as eleições´”. Desde o começo, Greta acreditou na ideia da greve. As outras opções, como a de uma grande marcha, não a convenciam, segundo Thorén, “pelo mero fato de que já haviam feito algo assim e não havia funcionado”. O ativista entrou em contato com Svante Thunberg, o pai de Greta, que dias depois confirmou que a jovem iria entrar em greve. Recordando o vídeo de Derek Sivers e a importância de ser o segundo seguidor, Bo Thorén, sua mulher e sua filha, viajaram a Estocolmo e se sentaram ao seu lado, no dia 21 de agosto, o segundo dia da greve, mas já era tarde: já havia outra menina ao lado dela, e logo seriam muitos mais.

“O resto é história”, conclui Thorén.

Janine O’Keeffe

Quando Bo Thorén se sentou ao lado de Greta, Janine O’Keeffe ainda não sabia nada de nenhum dos dois. O’Keeffe, engenheira australiana residente na Suécia, havia trabalhado como voluntaria para a 350.org, a ONG de Bill McKibben em várias campanhas, relacionadas sobretudo com o uso do carvão. Ela também pertence ao partido verde sueco. “Meses e meses de trabalho ativista não conseguiram mover um único pelo na cabeça de nenhum político”, explica. No dia 29 de agosto, uma semana antes das eleições, a ativista se sentou com Greta Thunberg e a entrevistou, para ver se podia usar sua experiência e inspirar ações similares em seu país. Os vídeos estão disponíveis em seu canal de Youtube.

A partir desse momento, O’Keeffe se tornou uma peça fundamental na engrenagem do Fridays For Future (“sexta-feira pelo futuro”), o movimento iniciado por Thunberg. Ela se encarregou de internacionalizar o protesto, estimulando iniciativas semelhantes fora da Suécia, mas que estivessem conectadas à mesma causa.

O uso das mobilizações a convenceu: “a greve e a desobediência civil são o único poder que nos resta. A desigualdade econômica é tão grande que faz com que o voto se torne algo trivial. Os meios de comunicação estão monopolizados e inclusive a academia e os tribunais não refletem uma igualdade”, afirma O’Keeffe, que também acredita que a periodicidade semanal favorece o movimento: “me criaram em um lar católico, e quando era menor de idade jamais perdi uma missa de domingo. Conheço bem a importância da reunião semanal. Creio que conseguiremos muito mais gente se unindo ao movimento se nos reunimos semanalmente”.

Janine O’Keeffe não sabe se terá que fazer mudanças na organização para poder seguir com força depois do mês de março. “Será mais fácil se seguimos a Greta. Sua voz está alinhada com o que a ciência nos diz que devemos fazer, e tenho a certeza de que este é o caminho”.

*Publicado originalmente em lamarea.com | Tradução de Victor Farinelli

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