Histórias do Futuro

Me ajude, companheiro: uma gota pode ser pouco, mas com outra podemos fazer um aguaceiro

Nestes tempos sujos, não nos resta outra coisa a fazer, exceto seguir as lições ensinadas pela história cantada pelo saudoso cantor uruguaio Daniel Viglietti

18/12/2018 14:52

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Morreu Daniel Viglietti. Morreu Mercedes Sosa. Morreu Eduardo Galeano e Fidel Castro. Há muito mais tempo atrás, morreu o Che. Morreram outros 30 mil. Morreu Santiago Maldonado.

Víctor Jara, Violeta Parra, Salvador Allende e Pablo Neruda estão mortos no Chile. Morreram Hugo Chávez e Néstor Kirchner. As mães e avós da Praça de Maio estão morrendo de velhinhas.

Joan Manuel Serrat e Les Luthiers se reciclaram. Muitos outros também se reciclaram, talvez a maioria dos artistas do passado. Eu não me reciclo, você não se recicla, mas ele e ela e eles se reciclam.

Vivemos tempos de negação. Tempos de empresários, de cínicos, de empresários cínicos, de empreendedores de sucesso. Tempos de democracia dolorosa.

Não são tempos de generais, como os de antes, ou de vilões facilmente identificáveis. Os de agora querem nos castigar tirando de nós a épica. Não só a contemporânea, mas também a do passado distante, a dos heróis escolares, agora culpados por serem revolucionários. Tempos de militância perdendo força e se dedicando a campanhas educativas, como pregações no deserto. Tempos de delação e de afirmações não comprovadas, emitidas com força igual à das comprovadas. De invocações desavergonhadas a cadáveres congelados, de desfiles descarados de caras pintadas.

Tempos de banalidade televisiva, de discursos presidenciais epidérmicos que degradam a política. De detenções ilegais, de linchamentos midiáticos, de simulação de distúrbios para justificar a repressão. Tempos em que muitos nos olham como bichos raros, por evocarmos um passado que não deveria voltar, ou porque desejamos um futuro que, por resgatar esse passado, não deveria ter lugar. Tempos de peleguismo explícito, em que conservadores se reúnem em uma frente partidária com nome de mudança (como a “Cambiemos” de Mauricio Macri) para não mudar nada, exceto quando é para retroceder. Tempos de discurso monocórdio.

O voto popular escolheu uma Argentina governada pelos seus donos, um país-empresa onde os patrões prometem governar em equipe, com piedade e condescendência festiva, sempre que possam seguir aumentando seus já enormes lucros e privilégios. E quem não aceitar a conciliação de classes é culpado de reforçar uma polarização que atenta contra o entusiasmo e o otimismo necessários para adormecer as consciências.

Nestes tempos sujos, não nos resta outra coisa a fazer, exceto seguir as lições ensinadas pela história cantada pelo saudoso cantor uruguaio Daniel Viglietti: me ajude, companheiro, me ajude, não demore, que uma gota pode ser pouco, mas com outra podemos fazer um aguaceiro.



Alberto Kornblihtt é biólogo molecular argentino, doutor em Ciências Químicas, investigador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) da Argentina, docente da Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires (UBA), e diretor do Instituto CONICET-UBA

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli


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