Histórias do Futuro

Não, o país não está quebrado

 

10/01/2021 10:33

(Andre Coelho|Getty Images)

Créditos da foto: (Andre Coelho|Getty Images)

 
Ela lhes dirá bem alto, para que não se esqueçam:
– O meu nome é
ES–PE–RAN–ÇA...
Mário Quintana

O país está triste, mas não quebrado. Como o bambuzal, se verga à força do vento para depois se reerguer em toda sua majestade. É o que vamos fazer.

O bambu é, como a maioria de nosso povo, símbolo de generosidade. Os orientais dizem que seu tronco oco serve de morada aos deuses. Se assim for, aqui seus moradores são variados como nossas crenças, convivendo todos em harmonia e deixando para o Estado a obrigação de ser laico.

Suas raízes são profundas, profundas como nosso desejo de viver em paz e com igualdade. Profundas como nosso anseio por uma democracia que, só no século passado, nos foi negada duas vezes, forçando-nos a nos vergar. Mas nos botamos de pé e a construímos, regando suas raízes com o sangue e os sonhos dos que deram sua vida por ela.

 Ele não existe sozinho. Sua força está em crescer em grupo. Habituados ao chicote e ao tronco, os antigos escravizados se reerguem agora, na voz de tantas e tantos marielles, para, orgulhosamente, ocuparem seu espaço na sociedade que lhes pertence. Juntos e misturados, saberemos não deixar esgarçar uma sociedade que não quer mais impor diferenças entre as raças que a compõem.

Nos dão asco aqueles que se dizem cristãos e educam seus filhos no racismo por se acharem superiores a outros. Nos dão asco aqueles que educam seus filhos na homofobia por serem intolerantes às diferenças. Nos dão asco aqueles que educam seus filhos na misoginia por não suportarem o feminino.

Estamos tristes. Sim, estamos tristes pelo número de mortos pela Covid-19, que já ultrapassa duzentos mil. Esse número poderia ser bem menor não fossem as decisões eugenistas do governo fascista que agora nos assombra, mas que saberemos, com a capacidade que temos de nos reerguer, afastar para a profundeza dos infernos de onde nunca deveria ter saído. Mas não estamos quebrados. E se quiserem, como tudo leva a crer, deixar morrer mais cem mil, mais duzentos mil, ainda seremos muitos. Muitos e sábios o suficiente para nos reerguermos.

O país não está quebrado, porque nossa esperança não é mais apenas, como no poema de Mário Quintana, uma menininha de olhos verdes. Será sempre uma menininha de olhos verdes, mas tem agora traços indígenas e pele negra.





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