Histórias do Futuro

O que está em jogo na atual crise brasileira:a recolonização  ou refundação?

Dois projetos estão se confrontando e irão definir o nosso futuro

05/04/2018 18:17

 

 

                A derrota de Lula no STF a propósito da rejeição do habeas corpus e sua eventual prisão, revela a volta das forças do atraso que perpetraram o golpe parlamentar, jurídico e midiático contra Dilma Rousseff em 2016.  A grande questão não se restringe à difamação de nosso maior líder, condenado sem provas cogentes e o sagramento do PT. Dois projetos estão se confrontando e irão definir o nosso futuro: a recolonização  ou a refundação.

         O projeto da recolonização força o Brasil a ser mero exportador de commodities. Isso implica desnacionalizar nosso parque industrial, nosso petróleo, as grandes instituições estatais. Trata-se de dar o maior espaço possível ao mercado competitivo e nada cooperativo e reservar ao Estado apenas funções essenciais mínimas.

         Este projeto conta com aliados internos e externos. Os internos são  aqueles 71.440 multimilionários que o IPEA elencou e que controlam grande parte dasriquezas do país. O aliado externo são as grandes corporações mulltinacionais, interessadas em nosso mercado interno e principalmente o Pentágono que zela pelos interesses globais dos Estados Unidos.

         O grande analista das políticas imperiais, recém falecido, Moniz Bandeira, Noam Chomsky e  Snowden nos revelaram a estratégia de dominação global. Ela se rege por três ideias força: a primeira, um mundo e um império; a segunda, a dominação de todo o espaço (full spectrum dominance), cobrindo o planeta com centenas de bases militares, muitas com ogivas nucleares; a terceira, desestabilização dos governos progressistas que estão construindo um caminho de soberania e que devem ser alinhados à lógica imperial. A desestabilização não se fará por via militar, mas por via parlamentar. Trata-se destruir as liderenças carismáticas, como a de Lula, difamar o mundo do político e desmantelar políticas sociais para os pobres. Um concluio foi arquitetado entre parlamentares venais, estratos do judiciário, do ministério público, da polícia federal e por aqueles que  sempre apoiaram os golpes particularmente a grande mídia.

         Afastada a Presidenta Dilma Rousseff, todos os itens político-sociais, na verdade, pioraram sensivelmente.

        O outro projeto é o da refundação de nosso país. Ele vem de longa data, mas ganhou força sob os governos do PT e aliados, para o qual a centralidade era dada aos milhões de filhos e filhas da pobreza. Não apenas melhorou a vida deles,mas resgatou a sua dignidade humana, sempre aviltada. Esse é um dado civilizatório de magnitude histórica.

         Esse projeto da refundação do Brasil, projetado sobre outras bases, com uma democracia construída a partir de baixo,participativa, sócio-ecológica constitui a utopia alviçareira de muitos brasileiros.

         Três pilastras a sustentarão: a nossa natureza de singular riqueza e fundamental para o equilíbrio ecológico do planeta; a nossa cultura, criativa, diversa e apreciada no mundo inteiro e, por fim, o  povo brasileiro  inventivo, hospitaleiro e místico.    

         Essas energias poderosas poderão construir nos trópicos, uma nação soberana e ecumênica que integrará os milhões de deserdados e que contribuirá para a nova fase planetária do mundo com mais humanidade, leveza, alegria e festa,  a exemplo dos carnavais. Mas importa derrotar as elites do atraso.

         Não anunciamos otimismo, mas esperança no sentido de Santo Agostinho, bispo de Hipona, hoje  a Tunísia. Bem disse: a esperança inclui a indignação para rejeitar o que é ruim e a coragem para transformar o ruim numa realidade boa.

       Uma sociedade só pode se sustentar sobre uma igualdade razoável, a justiça social e a superação da violência estrutural. Esse é o sonho bom da maioria dos brasileiros.

 Leonardo Boff é teólogo,filósofo e  escreveu: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência? Vozes, Petrópolis 2018.

 



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