Histórias do Futuro

O que seria hoje a vingança de Marx?

O escritor e ativista Max Haiven fala do "capitalismo de vingança" do pós-crise financeira e convoca Marx e Walter Benjamin para sugerir respostas que o possam confrontar. Max Haiven estará presente na Conferência dos 200 anos de Karl Marx, a 24 e 25 de março, em Lisboa

24/03/2018 12:10

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Créditos da foto: Reprodução/Facebook

 

O impressionante desmoronamento do sistema financeiro global em 2008 e o subsequente crescimento dos novos movimentos sociais radicais, como o Occupy Movement ou o Movimento das Praças, levou muitos comentadores a declararem a vingança de Marx. A explosão catastrófica da ordem económica global de acumulação especulativa parecia provar muitos dos argumentos chave de Marx. Em primeiro lugar, o capitalismo é instrinsecamente baseado em contradições e portanto inexoravelmente propenso a crises. Em segundo lugar, que riquezafinanceira não é o mesmo que valor social material: a primeira tem por base o jogo entre capitalistas e é portanto capital fictício. O último é tirado aos trabalhadores, fonte de todo o valor real. Enquanto os capitalistas podem fantasiar todo o dinheiro que quiserem (com a ajuda de governos e tecnocratas cúmplices), chegará sempre o cômputo final em forma de crise.

Claro que Marx, e depois Rosa Luxemburgo, nos avisaram também para o que vem depois desse cômputo final. Se a crise financeira de 2008 representou uma justificação de Marx, o que aconteceu depois representou a vingança do capitalismo. A austeridade significou a imposição de versões cada vez  mais extremistas de uma forma falida de neoliberalismo, uma ideologia agora despida dos chavões de outros tempos, que insistiam que o capitalismo desenfreado traria paz, prosperidade e dignidade para todos — um fim da história. Em vez disso, o neoliberalismo criou o que eu teorizo como capitalismo de vingança, uma forma de capitalismo que está tão destroçado por contradições, tão ferozmente competitivo, tão hiper-acelerado pela tecnologia e que contagia tão profundamente o corpo da sociedade, que já não se pode dizer que tenha uma lógica coerente. Claro que, como Marx nos ensinou também, à partida o capitalismo nunca teve verdadeira lógica. Procurou sempre, de forma estranha, algum tipo de vingança contra quem o alimenta: o proletariado, que na minha interpretação corresponde a um círculo bem mais alargado do que apenas os trabalhadores industriais, incluindo todos os que são explorados pelo capitalismo. Mas hoje essa contradição atingiu uma dimensão aterradora.



200 anos de Marx assinalados em conferência em Lisboa

O capitalismo de vingança é marcado por irracionalidades e patologias sistémicas absolutamente assustadoras: a destruição acelerada do ecossistema global em nome do lucro. A construção de uma ordem global de fronteiras racistas e formas de detenção e prisão que conduzem milhões de pessoas à pobreza ou morte. Novas guerras imperialistas e rivalidades que ameaçam explodir num confronto nuclear. Sob todas estas enormes crueldades está um sistema económico que especula com a morte, a miséria, o medo e o ódio a que abre portas. 

De facto, esta nova tendência do capitalismo é acompanhada pelo crescimento de uma política de vingança caracterizada pelos partidos políticos racistas, reacionários, xenófobos e ressentidos que se aproveitam do medo e da angústia das pessoas. O niilismo deixado na sequência do assassinato da social democracia pela austeridade libertou forças sinistras, enquanto as pessoas lutam não apenas pela sobrevivência à cada vez mais profunda exploração do seu tempo, mas também contra a sensação repugnante da alienação enquanto as sociedades são devastadas para manter o capitalismo rentável.

Os neoliberais cosmopolitas apeados apresentam-se surpreendidos pelo regresso do fascismo, queixam-se da ameaça do “populismo” e chegam a apelar à subordinação da democracia à tecnocracia (não se pode confiar no povo). Fazem-no para desviar a atenção do facto de que as políticas de vingança que hoje assombram o mundo são da sua autoria: foram os neoliberais tecnocratas, disfarçados de democratas liberais universalistas, que ergueram as estruturas do capitalismo de vingança, cujas atuais políticas são a expressão definitiva. Foram eles que tornaram o mundo numa utopia para o capital. E quando somos obrigados a viver na utopia de outrém, só resta a vingança…

Então o que significaria hoje em dia uma vingança de Marx? Por um lado, as previsões de Marx sobre a crise capitalista foram de facto concretizadas, mas também os seus alertas sobre as terríveis políticas e resultados a que estas crises podem conduzir se forem aproveitadas pelas forças reacionárias. Provavelmente, Marx e muitos outros que seguiram a sua tradição, tinham em vista muito mais do que apenas uma análise correta do capitalismo. Certamente, tinham em vista muito mais do que simplesmente aconselhar os capitalistas e salvarem o seu sistema, que é o que muita da chamada “esquerda” parece estar a fazer nos dias que correm. A vingança, para Marx e outros, significava a superação coletiva do capitalismo, a libertação do tempo e da sociedade dos ditames do lucro. Marx e Engels escreveram em muitas ocasiões sobre o socialismo enquanto movimento amadurecido que permitiria à classe trabalhadora ultrapassar a sua raiva e ressentimento contra os capitalistas individuais e, ao invés, vingar-se, enquanto classe, contra o sistema do capitalismo. Também outros teóricos, incluindo Franz Fannon, teorizaram movimentos sociais ou partidos políticos radicais enquanto mecanismo para transformar a raiva vingativa dos oprimidos num avanço positivo para a humanidade.

Isso está tudo muito bem, embora nos lembremos do fatídico alerta de Water Benjamin na sua obra final, Teses sobre a Filosofia da História, escrita quando os nazis subiram ao poder na Alemanha, onde apenas poucos anos antes a revolução socialista parecia inevitável. “Em Marx”,  escreve Benjamin, o proletariado “aparece como a última classe escravizada, como o vingador que termina a tarefa da libertação em nome das gerações de espezinhados [do passado]”. Aqui, Benjamin está a pensar na forma como Marx enquadrou a luta pelo socialismo enquanto forma sofisticada de vingança pelo roubo do tempo e da vida pelo capitalismo ao proletariado e ao povo oprimido em todo o mundo. Mas, prossegue ele, “esta convicção, que teve um curto ressurgimento no grupo Espartaquista, sempre foi censurável para os Social Democratas”. Este ano assinala-se o 99º aniversário do assassinato da Espartaquista Rosa Luxemburgo às mãos dos mesmos Social Democratas, de braço dado com os Freikorps proto-fascistas. Pelo seu lado, “a Social Democracia empenhou-se em atribuir às classes trabalhadoras o papel de salvadoras das gerações futuras. Com isso, cortou-lhe os tendões das suas melhores forças. Nessa escola, essas classes desaprenderam logo tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Pois ambos se alimentam da imagem dos antepassados oprimidos, mas não do ideal dos descendentes livres”.

Por outras palavras, para Benjamin, vingar os crimes e as crueldades do capitalismo não significa apenas criar um brilhante futuro pós-capitalista. Para Benjamin, este vingar também é partir da história da luta das gerações passadas e completar a sua missão. Nas mesmas Teses, escreveu que “existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito. Não se pode rejeitar de ânimo leve esse direito”.

Acredito que estas palavras enigmáticas são particularmente importantes para refletirmos neste momento, neste “interregnum” (um tempo caótico entre ordens políticas) quando, como nos alertava Gramsci, “o velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer” e “uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. Acredito que a ideia de vingança pode dar nome ao caráter desses sintomas mórbidos dos dias de hoje.

No passado, fui um incansável defensor da ideia dos comuns: a autogestão democrática e horizontal dos recursos da comunidade. Ainda creio que os comuns serão necessariamente tanto os meios como os fins de qualquer resistência eficaz ao capitalismo: temos de reivindicar o meio de reproduzir as nossas vidas em conjunto, o que inclui criar novas instituições e novas relações e também reivindicar todos aqueles “recursos”, que nos foram roubados pelo capitalismo, incluindo o espaço urbano perdido para a gentrificação ou as áreas ecológicas sacrificadas no altar do lucro. Temos de reconstruir e reclamar os comuns em nome da libertação dos nossos netos do mundo que o capitalismo de vingança vai criar: um deserto sombrio. 

De igual modo, julgo eu, temos de levar a sério o aviso de Benjamin e também pensar como vingar os espíritos dos nossos antepassados: os que vieram antes de nós para a luta e que tiveram sonhos não realizados de liberdade e prosperidade. Por outras palavras, temos de encontrar maneira de fazer face ao capitalismo de vingança e às políticas de vingança com a nossa própria noção de vingar. Não estou aqui a assumir um apoio à violência, embora seja verdade, como disse Fannon, que a questão da violência é sempre mais complicada do que pensamos. Em vez disso, estou a pedir-vos que pensem como podem ser pagas as dívidas da história, como podemos voltar a sentir que os nossos destinos podem ter mais significado do que uma competição interminável.

Se o capitalismo de vingança financiarizado funciona em larga medida pela proliferação das dívidas (dívidas individuais, dívidas nacionais), uma espécie de vendetta contra o próprio futuro, que é feito das dívidas não-financeiras de que somos credores - nós, os nossos netos e os nossos antepassados?

Max Haiven é escritor, professor, ativista e investigador em Cultura, Media e Justiça Social na Lakehead University, em Ontario.

Artigo traduzido por Luís Branco para o esquerda.net


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