Histórias do Futuro

Revolução 4.0: ''Não encontraremos na história momentos de forte correlação com o que viveremos''

Entrevista especial com João Roncati

09/04/2019 14:15

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Créditos da foto: (Pixabay)

 
O Brasil e os países da América Latina estão “investindo na esteira dos países desenvolvidos” e caminhando para a transição tecnológica, mas os principais “avanços” na região ainda são “alavancados por empresas multinacionais que trazem das suas matrizes as diretrizes, em busca de modernização, adequação, eficiência”, informa João Roncati, diretor da People Strategy Consultoria Empresarial, à IHU On-Line. Segundo ele, a limitação de recursos nacionais parainvestir em tecnologia se reflete igualmente numa “limitação de escala e velocidade”.

No atual contexto de transformações tecnológicas, Roncati destaca a necessidade de estar atento às implicações sociais que podem ser geradas por essas mudanças, porque “seguramente a questão da manutenção dos empregos e, consequentemente, a capacidade de renda para a subsistência é a maior preocupação”. Por isso, frisa, “o processo de transição precisa ser gerenciado”, porque “entre o acesso massivo a soluções de saúde, por exemplo, poderemos ter um deslocamento de mão de obra muito grande. Assim, os benefícios poderão não vir na mesma velocidade dos impactos de redução de renda das famílias, nem tampouco de forma homogênea para economias subdesenvolvidas ou em desenvolvimento”. E aconselha: “A grande questão é como gerenciar o que é ideal, diante do que é possível ou do que será liderado por corporações e economias desenvolvidas”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Roncati também comenta os desafios da formação de jovens que ainda nem ingressaram no sistema de ensino ou estão em fase de alfabetização. Para ele, o ensino desses jovens que provavelmente irão trabalhar em atividades que ainda não existem só é um “motivo de preocupação” “quando enxergamos a educação como um processo de ‘formação de mão de obra’”. Ele diz ainda que o foco estrito na formação profissional tem sido um “gigantesco equívoco” adotado por universidades e escolas. “Se olharmos a história, isto já vem ocorrendo há alguns anos e faz parte de um processo de mudanças. Particularmente, acho empobrecedor. O mercado de trabalho é importante, mas não é o centro de nossas vidas (ou não deveria ser)”, conclui.

João Roncati estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU na noite de hoje, 09-04-2019, participando do “4º Ciclo de Estudos Revolução 4.0. Impactos nos modos de produzir e viver”, onde ministrará a palestra intitulada “Revolução 4.0 e (des)igualdades no Brasil e na América Latina”, às 19h30min na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU.


João Roncati (Susana Rocca|IHU)

João Roncati é diretor da People Strategy Consultoria Empresarial, mestre em Planejamento Estratégico pela Universidade de São Paulo – USP e economista com Especialização em Finanças e Controladoria. Também cursou o MBA Executivo Internacional na USP.

Confira a entrevista.

Como o Brasil, em particular, e a América Latina, de modo geral, estão alinhados com as mudanças geradas pela Revolução 4.0? De que modo o Brasil e os demais países da América Latina estão investindo ou se posicionando em relação às mudanças tecnológicas?

Os países da América Latina e do Brasil vêm investindo na esteira dos países desenvolvidos. Grandes avanços vêm sendo percebidos no Brasil, bastante alavancados por empresas multinacionais que trazem das suas matrizes as diretrizes, em busca de modernização, adequação, eficiência.

Também temos órgãos de fomento à pesquisa envolvidos nas discussões, mas a limitação de recursos é uma limitação também de escala e velocidade. Órgãos de pesquisa das universidades têm papel especial e de destaque, com as mesmas limitações acima, mas impulsionados por pessoas motivadas a tentar fazer o Brasil utilizar e desenvolver tecnologia "de ponta", assim como técnicas para seu desenvolvimento e para pesquisa.



Alguns teóricos têm uma visão otimista em relação aos impactos da Revolução 4.0 e afirmam que as mudanças tecnológicas irão permitir que mais pessoas tenham acesso a bens e serviços, enquanto outros têm uma visão mais pessimista e vislumbram o aumento das desigualdades justamente por conta da impossibilidade de algumas pessoas entrarem no novo mundo do trabalho. O senhor se filia a algum desses grupos? Na sua avaliação, as novas tecnologias tendem a aprofundar as desigualdades ou a atenuá-las? Por quê?

Acho bastante difícil uma posição absoluta sobre o tema, porque, ao que parece, não encontraremos na história momentos de forte correlação com o que viveremos.

Os mais otimistas utilizam basicamente como argumentos um olhar sobre as fases de industrializaçãoe depois de automação que nossas sociedades já vivenciaram. E que não trouxeram impactos desastrosos sobre os impactados, mas novas oportunidades. O outro argumento para este grupo é o fato de que teremos a oportunidade de baratear enormemente o acesso à energia e à atenção primária em saúde e educação, o que disseminaria a possibilidade de tratamentos a doenças etc.

Os pessimistas estão olhando para a grande quantidade de postos de trabalho que poderão ser substituídos por uma nova onda de automação/robotização, mas também pelo uso da Inteligência Artificial que substituirá (potencialmente) funções de análise e produção de conhecimento básico. Assim, os impactos seriam muito além da indústria, mas também em serviços de toda ordem, mesmo especializados.

O que me parece é que a mudança é profunda e o processo de transição precisa ser gerenciado. Este será o momento mais perigoso. Entre o acesso massivo a soluções de saúde, por exemplo, poderemos ter um deslocamento de mão de obra muito grande. Assim, os benefícios poderão não vir na mesma velocidade dos impactos de redução de renda das famílias, nem tampouco de forma homogênea para economias subdesenvolvidas ou em desenvolvimento. A grande questão é como gerenciar o que é ideal, diante do que é possível ou do que será liderado por corporações e economias desenvolvidas.

Quando as tecnologias digitais começaram a surgir, alguns vislumbravam a possibilidade de os seres humanos trabalharem menos e ter mais tempo livre para se dedicar a outras esferas da vida. O que se observa hoje é justamente o contrário: os trabalhadores trabalham cada vez mais e continuamente, e alguns permanecem conectados quase em tempo integral. Com o desenvolvimento de novas tecnologias nos próximos anos, o senhor apostaria que vamos trabalhar ainda mais ou não?

Temos que ser cuidadosos ao separar "trabalhadores" em categorias diferentes (como serviços e indústria), e trabalhadores do conhecimento e de outras atividades. Não é possível olhar para todos e sugerir um impacto igual, nem tampouco uma alteração igual.

Eu gostaria de apostar que no médio a longo prazo as condições serão melhores. No curto, acho que os trabalhadores do conhecimento hoje se dispõem a jornadas de trabalho que não são as ideais, e temos uma distribuição das horas úteis da vida de um profissional excessivamente dedicadas ao trabalho corporativo.

Que tipo de preocupações em relação ao trabalho emergem com o desenvolvimento da chamada Revolução 4.0?

Seguramente a questão da manutenção dos empregos e, consequentemente, a capacidade de renda para a subsistência é a maior preocupação.

De outro lado, quais são os desafios para o mercado de trabalho diante dessas transformações?

Saber onde investir para colher frutos das mudanças, não estar numa cadeia de valor excessivamente dominada por uma grande corporação, qualificar-se a tempo, e não perder a noção de que o trabalho é uma ferramenta na vida, não seu objetivo máximo.

Em uma palestra no IHU sobre a temática da Revolução 4.0, o senhor disse que “estamos voando às cegas” ao se referir à Revolução 4.0. Esse “voo às cegas” é natural quando há uma mudança tecnológica significativa, como foi também a revolução industrial séculos atrás, ou no caso da Revolução 4.0 há alguma particularidade que é motivo de preocupação?

Esta afirmação é do pesquisador Erik [Brynjolfsson], do Instituto de Tecnologia de Massachusetts - MIT, em estudo publicado em 2018. Ele se referia ao fato de que não enxerga esforço suficiente (e talvez nem capacidade) dos governos e grandes corporações para mobilizar discussões e reflexões coordenadas acerca das mudanças de todo mercado de trabalho e da própria economia, e de seus impactos.



Segundo as projeções do Fórum Econômico Mundial, estima-se que 65% das crianças que estão em idade de alfabetização irão trabalhar em tipos de trabalho completamente novos, que ainda não existem. Isso é um motivo de preocupação? Sim ou não e por quê? Ainda nesse sentido, considerando esse cenário futuro, o que seria fundamental na formação desses jovens?

Este é um motivo de preocupação quando enxergamos a educação como um processo de "formação de mão de obra". Isto me parece um gigantesco equívoco, e que tem sido adotado por Universidades e escolas como algo óbvio; só tem valor a formação profissional. Se olharmos a história, isto já vem ocorrendo há alguns anos e faz parte de um processo de mudanças. Particularmente, acho empobrecedor. O mercado de trabalho é importante, mas não é o centro de nossas vidas (ou não deveria ser).

As carreiras estão menos verticais e é inegável que vem ocorrendo uma aceleração da multiplicação decarreiras "transversais" e da valorização de perfis e formações não só de especialistas. Esta é uma boa notícia, por permitir ou dar espaço, no trabalho, para que pessoas que gostam de conectar diferentes conhecimentos se realizem. Mas a tônica tem sido a formação para o mercado de trabalho. Considero fundamental que estes jovens sejam formados em disciplinas que, infelizmente, vêm perdendo espaço. Na minha opinião, temos que ter uma formação que considere mais a dimensão humana. Não concordo com faculdades de matemática extinguirem cadeiras de filosofia, sua disciplina de origem. Mesmo jovens que não estão no nível superior precisam ter contato com discussões sobre a história, a filosofia, a sociologia. Somos o centro da nossa história, não a periferia. Formar cidadãos é vital.

O senhor já sugeriu a necessidade de se discutir um código de condutas para os robôs. Que regras deveriam estar nesse código?

Isaac Asimov já formulava leis de robótica no início do século. Não conseguiria ser exaustivo nesta questão, mas acho que duas são fundamentais: a preservação da vida humana deve estar acima da preservação da existência de qualquer ser robotizado, e nenhum tipo de desenvolvimento entre robôs ou Inteligência Artificial podem ser realizados contrariando a primeira regra e sem o consentimento e total compreensão do ser humano.

Por que um programa de renda mínima é visto como uma forma de minimizar os impactos da Revolução 4.0 no mundo do trabalho?

Estes programas seriam para dar condições de sobrevivência àqueles que não terão possibilidades de ingressar ou se manter no mercado de trabalho.

*Publicado originalmente no IHU On-Line

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