Histórias do Futuro

Socialismo millennial

Uma nova forma de doutrina de esquerda está emergindo. Ela não é a resposta aos problemas do capitalismo.

19/02/2019 11:33

(Jo Banks)

Créditos da foto: (Jo Banks)

 

Depois do colapso da União Soviética em 1991, a disputa ideológica do século XX parecia ter terminado. O capitalismo tinha vencido e o socialismo se tornado um sinônimo de fracasso econômico e opressão política. Ele continuou existindo a duras penas em reuniões de pouco destaque, Estados falidos e na pomposa liturgia do Partido Comunista Chinês. Hoje, 30 anos depois, o socialismo está novamente na moda. Nos EUA, Alexandria Ocasio-Cortez, uma deputada recentemente eleita que chama a si mesma de socialista democrática, tornou-se uma sensação mesmo com o crescente campo de candidatos presidenciais do Partido Democrata para 2020 guinando para a esquerda. No Reino Unido, Jeremy Corbyn, o líder linha-dura do Partido Trabalhista, pode ainda ganhar as chaves do número 10 de Downing Street.

O socialismo está voltando com força porque construiu uma crítica incisiva sobre o que deu errado nas sociedades ocidentais. Enquanto os políticos da direita desistiram em grande parte da batalha de ideias e se retiraram para o chauvinismo e a nostalgia, a esquerda focou-se na desigualdade e no meio ambiente, e em como dar poder aos cidadãos em vez das elites. Entretanto, apesar da esquerda renascida acertar em alguns pontos, seu pessimismo em relação ao mundo moderno vai longe demais. Suas políticas sofrem de ingenuidade em relação a orçamentos, burocracia e negócios.

A vitalidade renovada do socialismo é impressionante. Nos anos 1990 os partidos à esquerda se deslocaram ao centro. Como líderes do Reino Unido e dos Estados Unidos, Tony Blair e Bill Clinton declararam que tinham encontrado uma “terceira via”, um meio-termo entre o Estado e o mercado. “Este é meu socialismo”, declarou o Sr. Blair em 1994 ao abolir o compromisso do Partido Trabalhista com a posse estatal de empresas. Ninguém foi enganado, especialmente os socialistas.

A esquerda hoje vê a terceira via como uma rua sem saída. Muitos dos novos socialistas são millennials. Cerca de 51% dos estadunidenses entre 18 e 29 anos de idade tem uma opinião positiva do socialismo, segundo a Gallup. Nas primárias de 2016 mais jovens votaram em Bernie Sanders do que em Hillary Clinton e Donald Trump juntos. Quase um terço dos eleitores franceses com menos de 24 anos na eleição presidencial de 2017 votou no candidato de extrema-esquerda. Mas os socialistas millennials não são necessariamente jovens. Muitos dos fãs mais entusiasmados do Sr. Corbyn são tão velhos quanto ele.

Nem todas as metas do socialismo millennial são especialmente radicais. Nos EUA, uma dessas políticas é o atendimento universal à saúde, que é algo normal em qualquer outro lugar do mundo rico, e é algo desejável. Radicais da esquerda dizem que querem preservar as vantagens da economia de mercado. E tanto na Europa quanto nos EUA a esquerda é uma coalizão ampla e fluida, assim como usualmente são os movimentos com fermentação de ideias.

Contudo, há temas comuns. O socialistas millennials pensam que a desigualdade saiu do controle e que a economia está manipulada a favor de interesses particulares. Eles acreditam que o público anseia que a renda e o poder sejam redistribuídos pelo Estado para equalizar a balança. Eles pensam que a miopia e o lobby levaram os governos a ignorar a crescente probabilidade de uma catástrofe climática. E acreditam que as hierarquias que governam a sociedade e a economia — reguladores, burocracia e empresas — não servem mais aos interesses do povo comum e devem ser “democratizadas”.

Alguns desses pontos são indiscutíveis corretos, incluindo a maldição do lobby e a negligência com o meio ambiente. A desigualdade no Ocidente de fato cresceu acentuadamente nos últimos 40 anos. Nos EUA a renda média do 1% no topo cresceu 242%, cerca de seis vezes o aumento dos que ganham a renda média do país. Mas a nova esquerda também erra o diagnóstico de partes importantes, e a maior parte das soluções também.

Para começar, o diagnóstico. É errado pensar que a desigualdade vai continuar a crescer inexoravelmente. A desigualdade de renda dos EUA caiu entre 2005 e 2015, levando-se em conta impostos e benefícios. A renda média por família teve um crescimento real de 10% nos três anos até 2017. Um bordão comum é que os empregos são instáveis. Mas em 2017 havia 97 empregados de tempo integral para cada 100 estadunidenses entre 25 e 54 anos de idade, comparados com somente 89 em 2005. A maior fonte de vulnerabilidade não é a falta de empregos estáveis, mas o risco econômico de outra recessão.

Os socialistas millennials também fazem um diagnóstico incorreto da opinião pública. Eles estão certos em dizer que as pessoas perderam o controle de suas vidas e que as oportunidades escassearam. O povo também se ressente da desigualdade. Os impostos sobre os ricos são mais populares do que os impostos sobre todos. Contudo, não há um desejo difundido de uma redistribuição radical. O apoio dos estadunidenses à redistribuição não é maior do que era em 1990, e o país recentemente elegeu presidente um bilionário que prometeu cortar impostos corporativos. Segundo algumas análises, os britânicos são ainda mais tranquilos em relação aos ricos do que os estadunidenses.

Se o diagnóstico da esquerda é excessivamente pessimista, o problema real está em suas propostas de solução, que são extravagantes e politicamente perigosas. Por exemplo, a política fiscal. Alguns na esquerda propagam o mito de que vastas expansões dos serviços do governo podem ser pagas essencialmente com maiores impostos sobre os ricos. Na realidade, com o envelhecimento da população, será mais difícil manter os serviços existentes sem aumentar os impostos daqueles que têm um rendimento médio. A Srta. Ocasio-Cortez propôs uma taxa de impostos de 70% sobre as rendas mais altas, mas uma estimativa plausível só estima a receita extra em 12 bilhões de dólares, ou 0,3% do total da arrecadação de impostos. Alguns radicais vão além, apoiando a “teoria monetária moderna” que diz que os governos podem pegar empréstimos livremente para financiar novos gastos enquanto mantêm os juros baixos. Mesmo que os governos tenham recentemente sido capazes de pegar emprestado mais do que muitos formuladores de políticas esperavam, a noção de que os empréstimos ilimitados não vão em algum momento ter consequências sobre a economia é uma forma de charlatanismo.

Uma falta de confiança nos mercados leva os socialistas millennials às conclusões erradas em relação ao meio ambiente também. Eles rejeitam os impostos de carbono de rendimento neutro como a melhor forma de estimular a inovação e o combate à mudança climática no setor privado. Preferem o planejamento central e gastos públicos massivos em energia verde.

A visão do socialista millennial de uma economia “democratizada” espalha o poder regulatório em vez de concentrá-lo. Isso tem certo apelo para regionalistas, como este jornal, mas o regionalismo precisa de transparência e prestação de contas, não comitês facilmente manipulados favorecidos pela esquerda britânica. Se os serviços de água da Inglaterra fossem renacionalizados como o Sr. Corbyn pretende fazer, é improvável que se tornem exemplos brilhantes de democracia local. Nos EUA, também, o controle local frequentemente leva a captura. Vejam o poder das bancas de licenciamento que mantêm pessoas de fora sem trabalho ou das organizações "não-no-meu-quintal" para interromper empreendimentos de moradia. A burocracia em qualquer nível fornece oportunidades para que interesses especiais capturem influência. A delegação mais pura de poder é para indivíduos em um livre mercado.

O desejo de democratização se estende aos negócios. A esquerda millennial quer mais trabalhadores em conselhos diretores e, no caso do Partido Trabalhista, tomar ações de empresas e dá-las aos trabalhadores. Países como a Alemanha têm uma tradição de participação de empregados. Porém, o desejo dos socialistas de um maior controle das empresas está enraizado em uma suspeita de forças remotas desencadeadas pela globalização. Dar poder aos trabalhadores para resistir a mudanças ossificaria a economia. Menos dinamismo é o oposto do que é necessário para reviver as oportunidades econômicas.

Em vez de empresas e empregos protegidos da mudança, o Estado deve garantir que os mercados sejam eficientes e que os trabalhadores, e não os empregos, sejam o foco das políticas. Em vez de ficarem obcecados com a redistribuição, os governos fariam melhor reduzindo a procura por uma renda monopolista, melhorando a educação e impulsionando a competição. Pode-se lutar contra a mudança climática com uma mistura de instrumentos de mercado e investimentos públicos. O socialismo millennial tem uma disposição revigorante de desafiar o status quo. Porém, assim como o socialismo dos mais velhos, ele sofre de uma fé na incorruptibilidade da ação coletiva e uma suspeita injustificada da energia individual. Os liberais devem se opor a ele.

*Publicado originalmente em economist.com | Tradução: equipe Carta Maior

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