Histórias do Futuro

Travesti: da resistência histórica à resistência linguística

Em tempos de retorno ao obscurantismo, que cada um de nós esteja atento. O revisionismo histórico do fascismo está aí, pronto para exterminar nossas memória

26/04/2019 11:22

Fabianna Mello Oliveira, primeira assessora travesti da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE)

Créditos da foto: Fabianna Mello Oliveira, primeira assessora travesti da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE)

 
“Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino”. Ante essa frase, começamos a discorrer sobre o termo travesti. Conforme o dicionário Aurélio, travesti indica: “mudar ou disfarçar alguma coisa, transvestir, transformar ou transformar-se de maneira a adotar o vestuário ou hábitos sociais e comportamentos do sexo oposto”. Na Classificação Internacional de Doenças 10 (CID 10), tem-se a terminologia travestismo bivalente como “o uso de vestimentas do gênero oposto durante parte da existência, de modo a satisfazer a experiência temporária de pertencer a outro gênero, mas sem o intuito de mudanças cirúrgicas do gênero de nascimento”. Atualmente, tais conceitos ainda perduram no imaginário de grande parte das pessoas cis e mesmo em pessoas LGBT. Nessa perspectiva, pode-se dizer que a sociedade pensa a travestilidade como “um homem que se veste de mulher”, porquanto seja a partir desses (pre)conceitos, que as travestis são colocadas como pessoas não pertencentes ao gênero feminino. Pelo contrário, são percebidas simplesmente como homens travestidos. Em contraposição a tudo isso, muitas travestis relatam não se sentir homens ou mulheres. Apenas travestis. Seriam então uma um terceiro gênero?

A resposta, deixamos para nossxs inteligentes e sagazes leitores. Nosso objetivo é tensionar as palavras trans e transexual, além de alertar para o lento e (in)consciente processo de extinção do termo travesti. De fato, parece – retirados os excessos literários –, que estamos na distopia futurista 1984, de George Orwell: um Superestado ultra totalitário que controla a sociedade através do apagamento das memórias históricas. Nesse modelo de gestão, a simplificação domina, e, soberba, determina uma lógica marcada pela supressão de um grande contingente de palavras, acompanhada ao mesmo tempo pela criação de um pequeno punhado de expressões. O idioma oficial desse Superestado, a Novafala, é constituído por palavras esvaziadas de sentido cultural. Seu objetivo é induzir o falante ao esquecimento dos processos sócio-históricos os quais resultaram em um estado de coisas aterrador. Mais: o habitante dessa atmosfera surreal – hoje, mais próxima e, por que não dizer, quase habitual – é levado ao total emburrecimento instrumentalizado pela língua. Se é que podemos chamar de língua um conjunto de palavras desprovidas de qualquer etimologia e inventada apenas para impor às massas total obediência ao seu líder. Fato é que Orwell aponta, em 1984, para os recursos linguísticos como instrumentos de manutenção do poder. Algo similar está ocorrendo quando utilizamos os vocábulos travesti, trans e transexual.

A compreensão do termo travesti torna-se viável a partir do seu uso no Brasil e do expressivo contingente de pessoas que se reconhecem nessa identidade de gênero. Roberta Close, Rogéria e Telma Lipe são alguns nomes, que, a partir da década de 1980, difundiram nos meios de comunicação o conceito de travesti. Entretanto, para além do uso de roupas socialmente femininas, elas reivindicaram um processo de construção identitária, a partir do uso de hormônios femininos, da aplicação de silicone industrial e da prótese mamária. Na verdade, tanto Roberta, quanto Rogéria e Telma trouxeram maior publicidade, nos anos 1980, para um fato histórico corrente desde os Anos de Chumbo: pelos idos de 1964, início da Ditadura Militar, muitas travestis já realizavam procedimentos físicos que lhes permitiam transitar pelo gênero feminino.

Durante décadas, o termo travesti foi sem sombra de dúvidas um marco para as pessoas que passavam, ou desejavam passar, pelo processo de transição de gênero, não existindo outra denominação no Brasil para quem não se identificasse com o gênero atribuído em compulsório alinhamento ao sexo de nascimento. Segundo Letícia Lanz, em sua obra O corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a transgressão e a conformidade com as normas de gênero (2015), somente no fim da década de 1980 aconteceu uma decisiva separação entre os termos travesti e transexual. Para a autora, o objetivo dessa divisão foi demarcar o espaço entre o distanciamento da norma concebido como moralmente aceitável, daquele outro, considerado abjeto. De fato, classificar a transexualidade como uma incongruência de gênero relativa à saúde sexual – conforme a CID 11 – retira, ainda que parcialmente, as pessoas trans, da inscrição no circuito de uma suposta corrupção moral, para aproximar suas existências de uma esperançosa inserção na sociedade cisnormativa. Oferece a possibilidade de continuar a atender as demandas de pessoas transexuais, principalmente daquelas que desejam a cirurgia de redesignação sexual (CRS). Por outro lado, pode reforçar o reducionismo explícito em distinguir travestis e transexuais, a partir desse procedimento cirúrgico e dos cuidados específicos de saúde que os dois grupos demandam. Mais uma vez, o discurso médico se apropria de certos conceitos para, nos dias atuais, estabelecer uma diferenciação que tende a potencializar a discriminação. Isso porque as experiências de travestis e transexuais não se resumem a alteração dos genitais. São, deveras, singulares: a socióloga Berenice Bento, em seu artigo A diferença que faz a diferença: corpo e subjetividade na transexualidade (2009), refere a existência de mulheres transexuais, as quais não pretendem realizar a CRS, para, a partir dela, adquirir um suposto status de mulheres. Isso demonstra a diversidade de vivência das identidades de gênero travesti e transexual.

Os fatores mencionados favoreceram a identificação da transexualidade como nomenclatura, que, mesmo próxima da patologia, se encontra distante das associações entre prostituição, uso e tráfico de drogas e qualquer atividade ilícita. Revestida pelo discurso biomédico, a transexualidade se vincula à dimensão imaginária cisgênera, operando senão dentro, ao menos muito próxima da matriz heteronormativa e cissexual. Talvez por isso, para muitas pessoas T, tornou-se impensável se determinar travesti.

Embora as travestis façam parte da história da redemocratização brasileira, especialmente da luta por políticas públicas de saúde que atendam às suas demandas e especificidades, está em andamento uma sistemática ação, que visa higienizar socialmente a população T. Percebemos em entrevistas, em matérias jornalísticas e mesmo em artigos científicos e discursos acadêmicos, uma inclinação para o uso do termo transexual ou trans, como algo palatável à uma sociedade historicamente violenta contra mulheres com pênis, homens com vagina e qualquer pessoa que não se encaixe em normas binárias de gênero. Assim, travesti, embora denominação intimamente ligada à experiência de transitar entre os gêneros, é representada em sociedade pelo crime, por todo e qualquer ilicitude, pela vivência na periferia dos direitos humanos e pela experiência de alguém que, com aparência e comportamento lidos socialmente como “de mulher”, tem um pênis e, por isso, em termos de relações sexuais, supostamente mentiria, haja vista poder penetrar seu par sexual.

A operação sutil de deslocar do campo biopolítico para a opinião pública o conceito de transexualidade como algo aceitável, através das grandes corporações midiáticas, parece estar logrando êxito. A população travesti vem sendo progressivamente apagada da história. Ao mesmo tempo, a transfobia continua em índices alarmantes no interior de uma nação que encara as identidades T como anormais.

Voltamos à 1984... reescrever a história é o objetivo do sistema cisgênero, para, deste modo, promover o apagamento de qualquer vestígio que identifique as lutas de uma população heroicamente resistente. Em tempos de retorno ao obscurantismo, que cada um de nós esteja atento. O revisionismo histórico do fascismo está aí, pronto para exterminar nossas memória. Nossa luta... nossa história!

Armando Januário dos Santos é Sexólogo. Psicanalista em formação. Concluinte da graduação em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br

Fabianna Mello Oliveira é Assessora da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE). Graduanda em Psicologia. Travesti. E-mail: fabiannamello3@gmail.com 



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