Idades da Vida

A violência contra a população idosa

Menosprezo à população idosa no mundo e as ameaças que pairam em 2021 sobre os mais velhos brasileiros

29/12/2020 14:55

A população brasileira com mais de 80 anos pode chegar a 19 milhões em 2060, estima IBGE (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Créditos da foto: A população brasileira com mais de 80 anos pode chegar a 19 milhões em 2060, estima IBGE (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 
Só agora a mídia começa a despertar para o sofrimento, a tristeza e a fragilidade sanitária e econômica das populações de idosos e idosas que, assim como as crianças, pertencem aos grupos que mais se ressentem com as restrições de combate à covid-19. Pipocam na mídia alguns registros sombrios - na Alemanha há contraponto - informando o que se passa com os que atravessam esses últimos anos de suas vidas. Anos difíceis e sobretudo inesperados.

Assim com as desigualdades sociais estão sendo mais escancaradas do que nunca, a pandemia vem expondo as dificuldades na vida cotidiana desses grupos - uns em casa, outros em abrigos particulares ou estatais -, o descaso de governos e o menosprezo dos agentes públicos que vêem nesses indivíduos um rescaldo ou apenas resíduos que não são mais ativos por força da idade e não interessam ao sistema neoliberal porque não consomem como os adultos jovens. A maioria não produz e é considerada um 'peso' para o estado.

No Brasil, a situação precária dos idosos e idosas é mais crítica. ''Vivemos em uma sociedade que rejeita envelhecer e isso deixa o idoso à margem", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, João Bastos Freire Neto.

Já a mídia francesa informa que lá foi revivida a expressão ''ditadura do jeunisme'' - a velhice considerada ''intolerável e o envelhecimento visto como uma obscenidade''. Especialmente quando são homens que envelhecem. Para os jeunistes os homens não envelhecem; eles ''amadurecem''. Na França, 15 milhões de indivíduos têm mais de 60 anos. É uma população estigmatizada pela sociedade, lembrou um grupo de cientistas que estuda o envelhecimento humano e se ocupa do assunto em artigos, livros e estudos.

(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Na Alemanha, o tema do envelhecimento voltou às manchetes durante esse ano horribilis de 2020, como dizia a Rainha Elizabeth da Inglaterra, algum tempo atrás. Mas pelo lado positivo. Os organizados grupos das avós militantes da Alexander Platz, em Berlim, se espalham por várias cidades do país, ganharam manchetes e vociferam contra a extrema direita que não cessa de pressionar por mais espaço na política alemã. Algumas dessas avós já sofreram ameaças de morte, mas não desistem e continuam protestando contra restrições e a perseguição que sofrem os imigrantes no seu país embora Angela Merkel seja firme na preservação da sua política nacional de abrigo aos refugiados.

Na Áustria, pesquisadores descobriram a pólvora. ''As pessoas envelhecem de maneira diferente em função do lugar onde vivem, dos subgrupos aos quais pertencem, da localização geográfica e da sua categoria socioeconômica'', eles dizem. Nos Estados Unidos, a economista Kate Williams comenta o processo de envelhecimento do gênero humano no filme O capital do século 21 baseado no famoso livro de Thomas Piketty. ''No século 18'', ela lembra, '' a expectativa média de vida era de 17 anos; uma sentença de morte''.

Sem dúvida que à medida que os idosos vivem mais e com boa saúde e participando ativamente da economia global, são abertas novas possibilidades para o gênero humano. Mas logo o neoliberalismo tirou proveito da longevidade para explorar e convertê-la em ativo da sociedade de consumo.

Pontifica sobre a decantada silver economy, ressalta que idosos e de idosas das classes médias fazem sim, parte da economia, mas não dizem que esses pertencem ao topo da pirâmide social/econômica de países avançados ou mesmo em lugares, como o Brasil, em franco retrocesso político/social e econômico.

Idosos e idosas com a saúde em dia, assistidos por planos de saúde privados dispendiosos que lhes garantem a última etapa de vida adulta confortável e sem incertezas, são aqueles e aquelas que consomem não apenas serviços destinados a idosos e idosas - férias, viagens, medicamentos, enfermeiros e enfermeiras, cuidadores e cuidadoras, entretenimento - mas que fazem parte da economia em geral.

Em 2015, por exemplo, os americanos com 50 anos ou mais geraram quase US$ 8 trilhões em atividades econômicas.

Mas fica a pergunta: e os pobres? Os velhos e as velhas duplamente vulneráveis no quadro da covid-19?

Um estudo recente, na Noruega, apontou que entre os homens pertencentes ao grupo do 1% da população do país, das pessoas mais ricas, e o da outra ponta, o 1% dos mais pobres, há uma diferença de 14 anos na média de expectativa de vida.

Na Suécia, as manchetes sobre o envelhecimento foram contundentes ao estourar o escândalo, há poucas semanas, da morfina que os/as idosos receberam, em alguns abrigos públicos, para mitigar dores e sintomas do coronavírus e assim não serem levados para os hospitais lotados.

Um relatório tornado público denunciou que a avançadíssima Suécia ''fracassou em proteger idosos da Covid-19''. Segundo uma comissão oficial instalada às pressas pelo governo, as medidas restritivas do governo teriam chegado tarde demais à população e foram inadequadas; quase metade das mortes por coronavírus no país ocorreram nos abrigos para idosos.

No Brasil, além dos surtos de mortes em abrigos de diversos estados - as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) - que não são contabilizados nem são noticiados, e onde falta até comida para funcionários e abrigados, o ano de 2020 termina com o projeto do deputado Paulo Paim fora da pauta de votação da Câmara dos Deputados requerendo um 14o salário para aposentados e pensionistas do INSS durante a pandemia.

Salário para proporcionar socorro em regime emergencial aos aposentados do grupo de risco e que injetaria recursos para movimentar o comércio em janeiro próximo; o que aliás parece ser, no fim das contas, o único objetivo perseguido por economistas pouco inteligentes de todos os matizes ideológicos.

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Forte justificativa citada no projeto de Paim é o fato de, mesmo ''antes da pandemia, mais de 10 milhões de pessoas já dependerem da renda dos idosos para viver. São eles e elas quem arcam com a maior parte das despesas das famílias e socorrem filhos e netos em alimentação, vestuário, escola, transporte, remédios, luz e gás, entre outros''.

Uma pesquisadora inclusive relata o caso tocante do idoso de mais de 80 anos que dizia a uma médica, no hospital, que não podia morrer porque precisava sustentar os dois netos.

E como a solidariedade é um bem maior nas favelas do que nas classes médias - como está fartamente comprovado em pesquisas do Ipea (Instituto de Pesquisas Aplicadas)-, esse protagonismo econômico dos mais velhos ocorre com muito maior frequência nas comunidades e nos bairros pobres das periferias das cidades do país.

Outra crueldade para com os mais velhos brasileiros, neste fim de ano, que vem suscitando amplo movimento de protesto e indignação em diversos níveis, é a determinação do governo do estado e do prefeito da capital de São Paulo de colocar fim ao direito de idosos entre 60 e 65 anos de viajar gratuitamente em transportes públicos.

Para muitas destas pessoas isso significa uma perda de renda de 6 a 7%, ou até mais, considerados aqueles que, já sem emprego formal que lhes garanta o salário mínimo, praticam pequeno comércio de rua ou outras atividades informais e utilizam mais de um meio de transporte, diariamente, para a locomoção até o emprego que (ainda) têm e, em seguida, a volta para casa.

Lembrando que Covas foi apoiado pelos idosos nas recentes eleições – 61% entre os de 60 anos ou mais – em nível muito superior ao de eleitores de Guilherme Boulos, que liderou entre os mais jovens. Deu no que está aí.

Um Projeto de Lei 5383/19 tramita na Câmara dos Deputados pretendendo alterar a legislação vigente para que as pessoas sejam consideradas idosas a partir dos 65 anos de idade, e não mais além dos 60. Objetivo: alterar, além do Estatuto do Idoso, a Lei 10048/00 que trata de prioridade de atendimento.

Percebe-se então, sutilmente, o ensaio de outra escalada já experimentada antes como balão de ensaio, em 2020, para que em 2021, aprovada nova legislação, o início da idade da velhice seja decretado oficialmente no Brasil aos ... 80 anos.

Em junho último o governo ensaiou mudar esse piso em nova lei, um ardil do ministro da Economia invocando suposto anúncio de uma falsa reclassificação do conceito velhice pela Organização Mundial da Saúde. A OMS porém é enfática e contraria a fake que baseia o ministério da Economia quando declara:

"Para o monitoramento das tendências de saúde em nível populacional, definimos idosos indivíduos com 60 anos ou mais. A ONU concordou que o corte é de mais de 60 anos para se referir à população senior representada por 700 milhões de pessoas no planeta.'' Um número que deve dobrar nos próximos 30 anos.

Então, ficam duas perguntas relacionadas a esse tema ao qual ainda voltaremos em Idades da Vida.

O que têm em comum um idoso ou uma idosa de 60 anos da classe trabalhadora brasileira, pobre, e outro ou outra, da classe média/média ou média/alta? Eles sofrem o mesmo desgaste do tempo? E será que na ''nova'' Câmara de Deputados, no próximo ano, passará uma boiada definitivamente genocida da população dos mais velhos e das mais velhas deste infeliz país?

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