Idades da Vida

Estudantes protestam contra política econômica do governo

31/03/2004 00:00

São Paulo – As críticas à política econômica do governo Lula ganharam as ruas de São Paulo, Brasília e Salvador nesta quarta-feira (31) na voz dos estudantes secundaristas e universitários. Intitulada "Jornada dos cem mil pelo fortalecimento do projeto de mudanças”, a mobilização estudantil pretende pressionar o governo a ter uma política desenvolvimentista para a educação brasileira, que garanta o aumento de vagas nas escolas públicas, combata o desemprego e realize uma reforma universitária democrática. Segundo a juventude, a atual linha econômica seguida pelo governo vai de encontro às bandeiras defendidas há tempos pela esquerda.

“Esta política de juros altos, superávit primário, renovação do acordo com o Fundo Monetário Internacional e implementação da Alca é altamente contraditória às mudanças que esperamos”, afirma Marcelo Gavião, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). “Continuamos a acreditar na capacidade desse governo para executar sua tarefa de promoção das mudanças, mas ainda há um longo caminho a seguir para a materialização desse projeto”, diz. Os estudantes fizeram questão de deixar claro que a jornada não é contra o governo Lula, e sim uma forma de impulsionar tais transformações.

As mais de três mil pessoas reunidas no ato em São Paulo, que vieram de escolas de todas as regiões da capital e do interior do Estado, também contestaram a reforma universitária proposta pelo ministro Tarso Genro (Educação). A principal crítica é que a proposta do governo continua privilegiando o ensino privado em detrimento do público, que sofre com o encurtamento dos cursos, a superlotação de salas de aula, a falta de professores e o sucateamento da infra-estrutura. A reforma do Ministério da Educação (MEC) prevê, entre outras medidas, que as vagas ociosas das faculdades particulares sejam ocupadas por estudantes cujas mensalidades seriam pagas pelo governo por meio de isenção de impostos.

“As faculdades pagas não teriam gastos adicionais e ainda embolsariam uma fábula de dinheiro público. Enquanto isso, para as universidades públicas, só cortes”, dizia um panfleto da Corrente Proletária Estudantil distribuído no protesto. Para a corrente, tal reforma é privatista, mercantilista e obscurantista.

Já a diretora de Universidades Públicas da União Nacional dos Estudantes (UNE), Júlia Eberhardt, lamentou o fato de, depois de um ano de governo Lula, os problemas permanecerem os mesmos. “Era para estarmos aqui comemorando novas vagas nas universidade públicas. Mas, ao contrário do que prometeu, o presidente gastou 145,2 bilhões de reais para o pagamento dos juros da dívida externa. Os problemas da Educação, da Saúde e do desemprego não vão se resolver enquanto o governo continuar mandando dinheiro para os Estados Unidos”, acredita Júlia.

O ministro da Educação rebateu as críticas durante audiência ao receber os dirigentes da UNE que participaram da manifestação em Brasília. Tarso Genro afirmou que a agenda de reivindicações dos estudantes coincide com o que o governo pretende na reforma universitária. "A agenda da UNE é muito positiva. Vamos participar de debates e teremos uma proposta de reforma no mês de novembro", disse.

Brigas locais
Organizado em parceria com a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES), União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES) e União Estadual dos Estudantes (UEE), o protesto também teve espaço para debater os problemas locais da educação de São Paulo. Depois de fazerem um enterro simbólico dos juros altos em frente ao prédio do Banco Central na Avenida Paulista, os estudantes foram até a Assembléia Legislativa do Estado para protocolar o pedido de CPI do ensino profissional e denunciar o descaso do governo Alckmin com as escolas paulistas.

“Desde que esse governo assumiu, 50% das escolas do ensino técnico e tecnológico foram fechadas. Com os Cefams (Centros Específicos de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério) aconteceu a mesma coisa, mesmo depois da sua importância ter sido reconhecida pelos cursos de Pedagogia”, explica Aline Mastromauro, presidente da União paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES).

Na marcha, faixas pediam ainda pelo passe livre, que daria livre acesso ao transporte público pelos estudantes, e lembravam os 40 anos do golpe militar no Brasil. O aniversário do golpe entrou na pauta das manifestações estudantis que acontecem todos os anos perto do dia 28 de março, data do assassinato do estudante Édson Luís de Lima Souto, morto pela ditadura militar em 1968. “A mesma juventude que ocupou as ruas do Brasil pela liberdade de expressão na época da ditadura hoje assume a difícil tarefa de por fogo no país para garantir essas mudanças”, completou Gavião, da UBES.


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