Idades da Vida

Imperialismo e capitalismo devem ser combatidos na escola

27/03/2004 00:00

Bia Barbosa

Créditos da foto: Bia Barbosa

São Paulo – Fóruns Mundiais como o da Educação, que acontece em São Paulo até o próximo domingo (4), não são apenas espaços de troca de experiências ou de articulação de projetos. São lugares onde a coletividade e a diversidade cultural permitem, se não a reconstrução definitiva das utopias, a volta da idéia de que, pelo menos, é possível brigar por elas. Na tarde desta sexta (2), centenas de pessoas suportaram bem o calor para discutir como a Educação pode ser um instrumento de resistência ao imperialismo e aos valores do capitalismo.

Como pano de fundo do debate, o cenário globalizado onde a Organização Mundial do Comércio (OMC) inclui a Educação no setor de serviços e negócios e onde o Banco Mundial transforma o que deveria ser dever do Estado em mercadoria. Na mesa expositora, um brasileiro, um uruguaio e, claro, uma cubana. “A educação é um pilar precioso para enfrentar o capitalismo e imperialismo”, afirma a professora Olga Franco García. “Nós, cubanos, estamos imersos nessa batalha. Como disse José Martí, mais valiosas são as trincheiras de idéias do que as de pedra”, acredita.

Segundo os debatedores, a luta para garantir na sala de aula princípios combatidos pelo capitalismo, mas responsáveis pela formação de cidadãos – como o acesso à educação como direito humano e a autodeterminação dos povos –, requer uma profunda mudança na escola de hoje. Manter determinados elementos significaria comprometer o potencial de geração de cidadania pela educação.

O primeiro deles a ser rompido: o autoritarismo. A escola brasileira é vista como tradicionalmente autoritária e, desde sempre, foi mais um espaço de doutrinação do que de autodisciplina. O respeito aos professores era imposto por sua autoridade. “Mesmo antes da consolidação do capitalismo, a escola já negava princípios básicos da cidadania”, afirma José Marcelino, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) do Ministério da Educação. “O que aconteceu depois foi que o sistema teve muita habilidade para adequar as características já presentes na escola aos seus interesses, para obter um trabalhador domesticado, acostumado à hierarquia e à disciplina”, completa.

Para Marcelino, hoje o autoritarismo acaba protegido por uma frágil legislação, que prevê a democracia no ensino apenas para as escolas públicas. Enquanto isso, a elite do país continuaria a ser “forjada” pelo ensino particular sem enxergar a democracia como um princípio fundamental.

Outro elemento a ser transformado é a discriminação em relação a negros e pobres, que aumenta conforme se sobe a escada das séries escolares. No Brasil, segundo o Inep, o números de negros na quarta série é cinco vezes maior do que na universidade. O preconceito segue no ensino superior e se concentra nos cursos mais elitizados. Dos alunos de Medicina das instituições públicas que responderam ao questionário sócio-econômico do último Provão (antigo exame de cursos aplicado pelo MEC), somente 1,1% era negro.

As condições de trabalho do professor, que em algumas regiões recebe metade do salário de um policial; a formação inicial e continuada dos educadores; e o poder da indústria cultural, que molda consciências e insere os professores na mesma lógica de mercantilização da cultura, são outras batalhas a serem vencidas para se construir educação cidadã numa sociedade onde a cidadania é negada dia a dia. “A escola só vai ser instrumento de mudança em reação ao capitalismo quando concordarmos que ela é intrínseca aos elementos do próprio capitalismo”, aponta Marcelino. “E para que a Educação seja de um instrumento de luta contra este sistema excludente, nós educadores temos que nos envolver, porque a escola é naturalmente revolucionária”, acredita.

O exemplo da ilha
Desde a revolução de 59, Cuba percebeu que criar um forte sistema de Educação era chave para combater o capitalismo e o imperialismo norte-americano. Na época, o país contava com um milhão de analfabetos e dez mil professores desempregados. Quarenta e cinco anos depois o país se orgulha ao exibir índices como o que mostra que mais de 99% das crianças entre 0 e 6 anos estão na escola. A população é alfabetizada e as escolas são todas estatais. “O país se transformou numa grande escola. Justiça social virou paradigma na Educação”, conta Olga García.

Desde 2001, Cuba passa pelo que chama de terceira revolução educacional, com uma série de novos programas implementados pelo governo. Na educação primária, por exemplo, nenhum professor trabalha com mais de 20 crianças na mesma sala – no Brasil, há escolas que matriculam o dobro de alunos. No ensino secundário cubano, há professores integrais para, no máximo, 15 adolescentes. Tais medidas exigiram que novas escolas fossem construídas e novos educadores fossem formados.

Há ainda idéias alternativas como a de levar a educação para a casa das pessoas através dos três canais de TV do país e a de pagar para aqueles que abandonaram os bancos antes da hora voltarem a estudar. “Este é o emprego deles. E é incrível ver a alegria que essa pessoas tiveram ao reconquistar aquilo que é tão valorizado pelo ser humano: o conhecimento”, relata Olga.

“Nós repudiamos a guerra. Mas desde sempre estivemos preparados para combater o imperialismo americano. Como estamos ameaçados permanentemente, esta é uma preparação que está na consciência e no corpo dos cubanos. E a educação sempre foi nossa arma mais poderosa”, conclui.

Os participantes do Fórum deixaram o auditório com a certeza de que, se outro mundo é mesmo possível, é nas escolas que ele será construído.

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