Idades da Vida

O silêncio sobre os idosos brasileiros

A longevidade saudável do ser humano é crescente e deve ser festejada, mas com recursos financeiros para sustentá-la

11/11/2020 16:44

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
''A voz do idoso e da idosa é silenciada no Brasil'', dispara o médico epidemiologista e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, Alexandre Kalache, semanas atrás, quando foram divulgados índices e números da população dos mais velhos no país que não para de crescer por conta do aumento acelerado da longevidade do ser humano. ''E a maior parte dos brasileiros chega muito mal à velhice, com uma pensão ruim, sem segurança alimentar nem habitacional. O que significa envelhecer na pobreza, na miséria, em um país muito desigual'', ele acrescenta.

Que a desigualdade social brasileira foi brutalmente jogada na cara da população sem sutileza nem justificativas (in)cabíveis, todos sabem. Mas que a covid-19 ampliou o quadro das co-morbidades precoces da nossa população onde há pessoas que já estão velhas com 45, 50, 55 anos, para isso nem todos deram atenção.

A perplexidade e a indignação, mas sobretudo o silêncio sobre a situação dos idosos das classes populares (eufemismo para ''pobres'') e da classe média baixa, neste país governado por um genocida ignorante e uma gangue de arrivistas aproveitadores, são uma das grandes vergonhas nacionais.

Vergonha que silencia sobre os 74% das mortes, nos últimos meses, da população com mais de 60 anos de idade. Cento e treze mil pessoas entre as quais estavam avós e avôs que adotavam informalmente os netos para auxiliar financeiramente os filhos e custeavam os estudos das crianças e adolescentes. Além da dor da perda, um maior grau de pobreza sobrevém nas famílias com idosos e idosas que ainda trabalhavam duro e se vêm agora diante do pesadelo do desemprego.

Famílias das periferias cuja renda caiu 20% ou renda que simplesmente desapareceu. E a morte de 18% da população dos idosos, mulheres e homens que constituíam a única fonte de renda familiar.

Agora, nas vésperas da eleição, alguns lembram de afagar esse segmento dos que tanto ofereceram ao país em termos de trabalho, honestidade e esforço durante décadas. Mas nem isso fazem com convicção; e talvez seja melhor assim, nessa peça de hipocrisias que se sucedem e às quais somos obrigados a assistir diariamente.

O descaso pelos mais velhos aqui é vergonha nacional embora não viceje apenas no Brasil - é uma prerrogativa do sistema do neo-capital voraz - embora o desrespeito a eles, na nossa vida cotidiana, seja chocante.

O governador da região italiana da Ligúria, Giovanni Toti, por exemplo, de centro-direita, declarou há dias no twitter, que os idosos "não são indispensáveis para o esforço produtivo do país" quando prefeitos, governadores e o governo nacional do seu país tentavam baixar novas medidas restritivas para conter a segunda onda assustadora da pandemia de Sars-CoV-2 na Europa.

"Por mais que lamentemos cada vítima da covid-19, devemos ter em conta que apenas ontem (31/10), das 25 mortes na Ligúria, 22 delas foram de pacientes muito idosos. Pessoas já aposentadas, que não são indispensáveis ao esforço produtivo do país, mas que devem ser tuteladas", disse Toti, reprovando o novo lockdown nacional, clamando pela quarentena vertical que tranca em casa os velhos a partir dos 75 anos, mas pelo menos reconhecendo a tutela do estado sobre eles.

Por muito hipócritas que sejam vários dos candidatos moderninhos desta eleição, no Brasil eles devem prestar atenção aos números do aumento da população idosa que vota. Porque a sua vitória pode depender da força desse eleitorado esquecido, desrespeitado e vilipendiado, que, quem sabe? contribuirá para lhes garantir um emprego no mundo do poder estadual e municipal.

Tem-se a informação de que um em cada cinco eleitores brasileiros aptos a votar é idoso; são do grupo de risco da covid-19. No total, informa o Tribunal Superior Eleitoral, o Brasil conta com 30 milhões de pessoas com idade a partir de 60 anos. O que significa 20% do eleitorado.

Em 1992 representavam 10% do grupo de eleitores. Em 2000, a percentagem de idosos pulou para 13%, dez anos depois disparou para 15% e agora chega a 20%. Todos aptos para votar, os que sairão de casa cedo, no domingo, e votam modestamente e orgulhosos.

Há cerca de poucos meses, o governo de Brasília, numa das suas manobras habituais com que experimenta se cruéis fantasias pegam ou não entre os 30% de cúmplices e eleitores da sua base política, pensou em ''corrigir'' o Estatuto do Idoso e declarar idosa ou idoso mulheres e homens a partir de 80 anos (!). Recuou diante dos protestos veementes. Pelo menos por enquanto.

Conveniente lembrar que a OMS considera de meia-idade indivíduos de 45 a 59 anos, idosos de 60 a 74 anos, anciãos de 75 a 89 anos e velhice extrema a partir de 90 anos.

Mas a despreocupação criminosa do atual governo com a população pobre, trabalhadora e com mais de 50/60 anos prevalece. E quando terminar o período de eleições, muito provavelmente o ministro da Economia voltará a insistir na proposta de mudar o status do idoso para 80 anos na sua marcha para ''refundar'' o país, isto é, para destroçá-lo. Mas não dirá que 80% dos empregos eliminados este ano, por causa da pandemia, são de indivíduos com mais de 50 anos; pessoas com maior dificuldade - senão impossibilidade - de conseguir reinserção no mercado de trabalho.

Por um lado as notícias são positivas para a economia formal considerando que os grupos de idosos das classes altas e médias aumentam e cresce o segmento de consumidores, profissionais e empreendedores maduros animando a chamada silver economy.

No Brasil e lá fora eles se contrapõem ao que os franceses batizaram como a ditadura do jeunismo; os velhos estigmatizados pela sociedade.

Mas o avesso desse quadro é mais do que inquietante considerando a situação das ILPS, Instituições de Longa Permanência para Idosos, abrigos públicos mantidos pelo estado, que atravessam dificuldades e são objeto de criminosa displicência por parte do atual governo.

Os abrigos, residências coletivas que atendem idosos carentes e sem família, são os locais onde eles recebem cuidados: fisioterapia, medicamentos, alimentação e vestuário. São mantidos em parte com doações e em parte com recursos do orçamento nacional destinados aos serviços de saúde e assistência social. Tem sido frequente,no entanto, faltar o básico para os cuidados diários dos seus habitantes.

Sobrevivendo com dificuldade, em estado de penúria, os ILPS muitas vezes não contam com comida suficiente, com material de limpeza nem com reformas para adequar espaços que isolem casos suspeitos ou leves de coronavírus. E as inúmeras mortes dos seus moradores, durante a pandemia, são sub-notificadas.

''Os recursos são essenciais para prevenir a disseminação do novo coronavírus entre os 120 mil idosos atendidos por essas instituições. Eles são do grupo de risco. É urgente''! alerta e protesta o senador Paulo Paim, 70 anos, do PT gaúcho. "O Congresso aprovou há quatro meses R$ 160 milhões de recursos para serem repassados no prazo de um mês; mas esse prazo foi vetado''. Ele lembra, mais uma vez, que a Constituição e o Estatuto do Idoso obrigam a sociedade e as famílias a protegerem as pessoas idosas.

Do outro lado do jogo político, o senador pernambucano Fernando Bezerra, do MDB, 62 anos, diz que é necessário esperar ''um pouco'' antes de apontar o atraso na execução do orçamento para os cuidados com os idosos. E aponta muitos contratos que estão sendo suplementados em seus empenhamentos e cujas execuções irão ''ocorrer até o fim do ano''.

O problema, porém, e que o senador Bezerra esquece, é que enquanto aguardamos, esse ''pouco de tempo'' age contra os idosos dependentes do estado brasileiro. Eles morrem, as mortes não são notificadas e ninguém é responsabilizado por essa vergonha nacional.

E assim vamos em frente. Em silêncio.



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