Idades da Vida

Usinas de exclusão, cidades têm que reassumir papel civilizatório

02/04/2004 00:00

São Paulo – Um debate sobre o papel da cidade enquanto espaço formador, contraposto ao crescimento das desigualdades sociais nos centros urbanos, reuniu nesta sexta-feira (4) o sociólogo Emir Sader, professor da Universidade Estadual do Rio, a filósofa Sueli Carneiro, diretora do Geledés Instituto da Mulher Negra, e o economista Ladislau Dowbor, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. No palco do Fórum Mundial de Educação de São Paulo (FME-SP), os três analisaram diferentes aspectos dos problemas sociais e possíveis soluções nas grandes cidades.

Segundo Emir Sader, o papel original da cidade na sociedade grega – aumentar as possibilidades de formação política, ética e moral e o processo civilizatório da sociedade através da agremiação social – foi desvirtuada pelo advento do sistema capitalista, que transformou os centros urbano em espaços ocupados essencialmente por indústrias e trabalhadores. Isso propiciou o surgimento dos grandes bolsões de excluídos, como as periferias e favelas e os subproletários do trabalho informal.

“Hoje, o modelo de cidade mercantilista apurou a divisão de classes, privatizou espaços públicos, aprofundou a segregação social. Símbolo disso são os shopping centers, por exemplo, universos que se bastam em si mesmos e onde o ´cidadão universal consumidor` é protegido dos pobres. Ao mesmo tempo, as crianças de rua são executadas porque são excedentes do sistema capitalista, não são aproveitáveis”, diz Sader.

Segundo o sociólogo, a desigualdade urbana, aprofundada por uma aliança entre Estado e capital na privatização e degradação dos espaços públicos e na transferência dos recursos públicos para setores privados (“o Estado gasta mais com o pagamento da dívida do que com educação e saúde juntos”), pode ser combatida através da luta pelo resgate do espaço público. “O Estado é um espaço de disputa, hoje a polarização está entre o público e o mercantilismo. A cidadania só é plena quando o indivíduo pode expressar sua cultura e sua vida nos espaços públicos”.

O sistema educacional moderno, por outro lado, também acabou se transformando em um espaço de gestação de desigualdades, afirmam os debatedores. “O golpe militar foi extremamente eficaz em desestruturar o sistema público de educação no Brasil ao promover a ruptura da aliança social”, afirma Sader. Para ele, antes da ditadura ainda havia uma certa convivência entre as classes sociais na escola, mas a privatização do ensino e a adesão da classe média à escola particular marginalizaram e desqualificaram o ensino público e seus freqüentadores.

Já para a filósofa Sueli Carneiro, as escolas muito contribuíram para o enraizamento de preconceitos nos centros urbanos, principalmente em relação aos negros. “A minha professora de história dizia que, quando os brancos chegaram ao Brasil, até tentaram escravizar os índios. Mas como o orgulho e a altivez dos nativos os tornava impróprios para o trabalho forçado, optou-se pelos negros, mais dóceis e subservientes. Dizia que a nação brasileira se fez com a inteligência do branco, o orgulho do índio e a cordialidade do negro. Isso produziu uma hecatombe interior na gente, um sentimento de pertencer a uma raça inferior. Tínhamos que agüentar muitas brincadeiras racistas de nossos colegas”, diz Sueli.

Exemplificando atos discriminatórios, a filósofa cita as diferenças de tratamento dado a crianças brancas e negras, quando as primeiras comumente recebem elogios pessoais sobre a aparência ou a capacidade intelectual, e as outras muitas vezes são valorizadas apenas em função da qualidade de trabalhos apresentados. “Há, no geral, uma omissão dos professores diante de estigmas que atingem as crianças negras, e muitas vezes se nega ou tenta-se esconder o racismo entre os alunos”, acusa. Para combater essas situação, diz, e preciso que os preceitos éticos da multiculturalidade sejam incluídos na proposta curricular para o desenvolvimento de uma cidadania regida pela democracia social, e o maior desafio hoje é transformar a escola em um espaço de resignificação.

Para o economista Ladislau Dowbor, a transformação das cidades em um ambiente formador da cidadania exige, acima de tudo, organização e participação social. “Não podemos exercer a democracia apenas de quatro em quatro anos com o nosso voto”, afirma. Como exemplo de organização popular bem-sucedida, Dowbor cita a Pastoral da Criança (organização da igreja católica de assistência à infância), considerada um dos empreendimentos mais eficientes do mundo em termos de gestão e resultados.

“A Pastoral, projeto ativo em quase todos os estados brasileiros, é gerenciada por 62 pessoas e conta com o trabalho de 155 mil voluntários. Diminuiu a mortalidade infantil em suas áreas de ação em 55% ao custo de R$ 1,5. Sua eficiência é tão grande que grandes multinacionais, como a IBM, estão estudando seus métodos de organização e gestão. Quero dizer com isso que a organização popular é extremamente eficiente, quando a população assume a administração de seus processos, funciona”.

O grande entrave para a democratização da participação popular na administração da vida social é, segundo Dowbor, a elitização e o acesso restrito à informação. “O conhecimento é a base do lucro de qualquer empresa. É preciso democratizar este conhecimento, ao mesmo tempo em que a população tem que se apropriar das ferramentas e da tecnologia de produção e transmissão de informação. Além de tudo que já se faz nesse sentido, como as rádios e TVs livres e comunitárias, é preciso tirar a tecnologia dos grandes bancos e transferi-la pros bancos escolares. Se não se tem acesso à informação, não se tem acesso a outros direitos, simplesmente em função do desconhecimento ”, diz o economista, que também defende a articulação das instituições de ensino com organizações da sociedade civil, como ONGs, sindicatos e movimentos sociais para alavancar a organização popular.

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