Pelo Mundo

10 de junho de 2013. Querida Nadezhda,

Leia a correspondência entre Tolokonnikova, que atualmente cumpre pena num hospital da Sibéria, e Zizek. Tradução de Rodrigo Giordano.

24/11/2013 00:00

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10 de junho de 2013


Querida Nadezhda,
 
Eu me senti profundamente envergonhado lendo sua resposta. Você escreveu: “você não deveria se preocupar em expor suas fabricações teóricas enquanto eu deveria estar sofrendo as ‘dificuldades reais’”. Essa simples frase me fez consciente de que aquele sentimento final na minha última carta era falso: minha expressão de simpatia com a sua situação basicamente significava que “eu tenho o privilégio de estar fazendo verdadeira teoria e ensinando-a sobre isso enquanto você reporta suas dificuldades com as privações da prisão…” Sua última carta demonstra que você é muito mais do que isso, de que você é igualmente uma parceira no diálogo teórico. Portanto, peço que aceite minhas sinceras desculpas por essa prova de quão profundamente enraizado é o chauvinismo masculino, especialmente quando mascarado como simpatia pelo sofrimento dos outros, e me permita seguir com nosso diálogo.
 
É essa louca dinâmica do capitalismo global que faz a resistência efetiva a ele tão difícil e frustrante. Lembremos da grande onda de protestos que varreu a Europa em 2011, da Grécia à Espanha, de Londres a Paris. Mesmo que não houvesse plataforma política consistente mobilizando os protestantes, as manifestações funcionaram como parte de um processo educacional de larga escala: o descontentamento dos protestantes foi transformado em um grande ato coletivo de mobilização - centenas de milhares de pessoas se juntaram em praças públicas anunciando não aguentar mais aquela situação. No entanto, o que esses protestos adicionam é apenas um gesto puramente negativo de rejeição raivosa e uma demanda abstrata comum por justiça, faltando a habilidade de traduzir essa demanda em um programa político concreto.
 
O que pode ser feito em tal situação, em que manifestações e protestos acabam sendo inúteis, em que eleições democráticas não têm valor? Podemos convencer as multidões cansadas e manipuladas de que nós não apenas estamos prontos para enfraquecer a ordem existente ou se engajar em atos provocativos de resistência, mas também para oferecer a perspectiva de uma nova ordem?
 
As performances do Pussy Riot não podem ser reduzidas a meras provocações subversivas. Por baixo da dinâmica de seus atos, há a estabilidade interna de uma firme atitude ético-política. Em um sentido mais aprofundado, é a sociedade atual que é flagrada nessa dinâmica mirabolante do capitalismo sem sentido e medida internos, e é o Pussy Riot que de fato fornece um ponto ético-político estável. Só a existência do Pussy Riot já diz que o cinismo oportunista não é a única opção, de que nós não estamos totalmente desorientados, de que ainda há uma causa comum pela qual vale a pena lutar.
 
Eu desejo a todas boa sorte em nossa causa comum. Ser fiel a nossa causa significa ser corajoso, especialmente agora, e, como dizem os mais velhos, a sorte está do lado dos corajosos.
 
Slavoj

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