Pelo Mundo

13 de julho de 2013. Querido Slavoj,

Leia a correspondência entre Tolokonnikova, que atualmente cumpre pena num hospital da Sibéria, e Zizek. Tradução de Rodrigo Giordano.

24/11/2013 00:00

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13 de julho de 2013
 
Querido Slavoj,
 
Em minha última carta, não fui clara quanto à distinção entre como o capitalismo global funciona na Europa e Estados Unidos por um lado e na Rússia por outro. No entanto, eventos recentes na Rússia - o julgamento de Alexei Navalny, a aprovação de leis inconstitucionais, contra a liberdade - me deixaram furiosa. Sinto-me compelida a falar sobre as práticas políticas e econômicas específicas do meu país. A última vez que sinta tanta raiva foi em 2011, quando Putin declarou que iria concorrer à presidência pela terceira vez. Essa ira foi o que levou ao nascimento do Pussy Riot. O que irá acontecer agora? Só o tempo irá dizer.
 
Tenho um certo cinismo quanto à relação dos países chamados de “primeiro mundo” com as nações mais pobres. Em minha humilde opinião, países desenvolvidos possuem uma lealdade exagerada com governos que oprimim seus cidadãos e violam seus direitos. Os governos americano e europeus colaboram livremente com a Rússia em sua imposição de leis da Idade Média e prisão de políticos opositores. Ainda colaboram com a China, onde a opressão é ainda maior. Quais os limites da tolerância? Quando esta se torna colaboração, conformismo e cumplicidade?
 
E o pensamento de que “deixem eles fazerem o que quiserem com seu próprio país” não funciona mais, afinal, Rússia e China fazem parte do sistema capitalista global.
 
A Rússia de Putin seria massivamente enfraquecida se os países que importam seu petróleo e combustível mostrassem coragem e convicção e parassem com tal comércio. Até se a Europa desse um modesto passo como a aprovação da “Magnistky Law” [A lei Magnistky permite aos Estados Unidos tomarem sanções contra oficiais russos acusados de participarem de violações dos direitos humanos], já seria moralmente relevante. Um boicote às Olimpíadas de Inverno em Sochi seria outro gesto ético. Mas o contínuo comércio de matérias-primas constitui uma aprovação tácita do regime russo - não através de palavras, mas através do dinheiro. Isso trai o desejo de proteger o status quo político e econômico e a divisão do trabalho que moram no coração do sistema econômico mundial.
 
Você citou Marx: “Um sistema social que encalha e enferruja… não tem como sobreviver”. Mas cá estou, cumprindo minha pena em um país em que as dez pessoas que controlam os maiores setores da economia são são os velhos amigos de Vladimir Putin. Ele estudou ou praticou esporte com alguns, e serviu à KGB com outros. Não seria esse um sistema social encalhado? Um sistema feudal?
 
Eu lhe agradeço sinceramente, Slavoj, por suas cartas. E mal posso esperar por sua resposta.
 
Yours, Nadia

Leia o resto da correspondência aquiaquiaquiaqui e aqui .



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