Pelo Mundo

A falsificação histórica, uma arma recorrente do mundo unipolar

Tornam-se repugnantes e repulsivas algumas descrições, distorções, que escrevem, imaginam e mentem sobre a queda Berlim.

13/05/2015 00:00

Presidência da Argentina

Créditos da foto: Presidência da Argentina

Ao chegarmos aos 70 anos da vitória contra o nazismo e o fascismo, se confirma que uma das primeiras vítimas da guerra é a verdade. Distorções, mentiras e tergiversações históricas são recorrentes. Gratidão, reconhecimento e verdade, atualmente, são escassas.

No entanto, durante recente visita de Estado à Federação Russa, nos dias 22 e 23 de abril de 2015, a presidenta da República Argentina, Cristina Kirchner, em intervenção posterior à assinatura de acordos estratégicos e convênios bilaterais, acompanhada do Presidente Vladimir Putin, teve um notável gesto, através de seus ditos, em oposição a essa situação de escassez que constatamos.

Cristina levou em conta os atos pela celebração do fim da Grande Guerra Pátria, com um desfile militar na Praça Vermelha de Moscou, no sábado 9 de maio de 2015, ao declarar, em cerimônia oficial: “quero destacar, e aqui falo como cidadã do mundo, não como presidenta da República e sim como cidadã universal, a contribuição inestimável do Exército Soviético na luta contra o nazismo e o fascismo e sobretudo a sua derrota definitiva na II Guerra Mundial. É importante este reconhecimento que devemos fazer a uma nação que perdeu 27 milhões de vidas, entre soldados e população civil, na luta contra o nazismo e o fascismo”.

“Sei que no dia 9 de maio vai ser comemorado com uma grande festa, um imponente desfile, vimos os ensaios numa das ruas principais e realmente queremos agradecer ao povo russo pelo sacrifício que aquela guerra e todo o horror dela significou para esta nação”.

Recordemos que a Alemanha nazi, além de ocupar vários países da Europa, já no dia 22 de junho de 1941, havia lançado a invasão da União Soviética. Daí surge, do ponto de vista histórico soviético, o conceito de uma Grande Guerra Pátria, durante quase quatro sangrentos anos, passando pela decisiva derrota dos nazis em Stalingrado, mediante uma grande contraofensiva soviética, se transformada, finalmente, na épica ocupação do Reichstag de Berlim no dia 2 de maio de 1945.

Acertadamente, já no dia 6 de julho de 2014, o Presidente François Hollande, num ato de recordação do desembarque na Normandia – acontecido em 6 de junho de 1944 –, afirmou: “Desejo fazer um reconhecimento à coragem do Exército Vermelho, que, longe daqui, diante de 150 tropas alemãs, foi capaz de fazê-las retroceder.” “Uma vez mais devo destacar essa contribuição dos povos da chamada União Soviética durante essa contenda”. Se trata de uma valiosa façanha que requer um merecido reconhecimento histórico e gratidão.

Com relação à prolongada batalha de Stalingrado – que, em 2 de fevereiro de 1943 terminou com a prisão do marechal Von Paulus e a seus soldados e oficiais sobreviventes –, na ocasião, o presidente Franklin Roosevelt enviou uma mensagem especial aos combatentes soviéticos: “Sua gloriosa vitória deteve a onda invasora e deu uma guinada à guerra das nações aliadas contra as forças da agressão”. Já no começo de 1943, já se havia derrubado o cerco a Leningrado.

Por isso, essas verdades imprescindíveis devem ser restituídas. O mesmo presidente Roosevelt, depois da batalha de Kursk, a maior batalha de tanques da história, iniciada em julho de 1943, escreveu: “A União Soviética pode estar orgulhosa com razão de suas heroicas vitórias”.

As contribuições do Exército Vermelho são assim, imperecíveis, ainda que contrastadas na atual situação internacional, na que alguns tentam organizar e orquestrar um cerco anti russo, através tentativas de isolamento, de desprestígio, sanções e tergiversações históricas. Recordar que Kiev foi libertada em novembro de 1943. Depois, foi a vez da Bielorrússia e das repúblicas bálticas: Estônia, Letônia e Lituânia. Uma memória histórica em plena atualidade hoje.

Poderíamos associar o que expressado pelo presidente Hollande com a lembrança de quando o general Charles de Gaulle, estando em Moscou, afirmou que “os franceses sabem o que a Rússia soviética fez por eles, e sabem que, precisamente, a Rússia soviética teve um papel protagonístico em sua liberação”. Assim, as relações franco-russas hoje não deveriam ser afetadas por incumprimentos de contratos e sanções.

A capitulação final da Alemanha nazi, no 8 de maio de 1945, às 22h43, hora central europeia – o que, pela diferença horária, ocorreu às 0h43 do dia 9 de maio na capital da União Soviética. No quartel de Karlshorst, em Berlim, o marechal Wilhelm Keitel assinou a ata de rendição incondicional diante do comandante do Exército Vermelho, Gueorgui Zhúkov.

Assim surgiu o “Dia da Vitória”. Desde então, a comemoração da data na Rússia acontece sempre no dia 9 de maio. Neste 2015, com os 70 anos dando uma particular relevância e significação, estiveram presentes 27 chefas e chefes de Estado e de Governo, de todos os continentes, especialmente convidados a um novo aniversário da Vitória contra o Nazismo e o Fascismo.

Ao recordar a grandeza dessas proezas de um passado recente, que contribuíram para evitar a loucura que Alemanha nazi propagava pelo mundo, tornam-se repugnantes e repulsivas algumas descrições, distorções, que escrevem, imaginam e mentem sobre a queda Berlim. Alguns escritores e historiadores britânicos, como Frederick Taylor e Anthony Beevor, e que foram publicadas por um jornalista do jornal vespertino chileno La Segunda, no dia 24 de abril de 2015, em artigo nas páginas 34 e 35.

Certamente, a alma russa e o orgulho nacional de seus cidadãos, não poderiam ser desrespeitados nem maculados por caluniadores, por difamadores, por historiadores e sancionadores. A contribuição crucial do Exército Vermelho naqueles momentos decisivos, com vitórias estratégicas, merece gratidão e reconhecimento, com visão de futuro para toda a Humanidade.

Finalmente, o enorme trabalho de digitalização dos 400 documentos alemães da II Guerra Mundial, realizado e publicado pelo arquivo central do Ministério da Defesa da Federação Russa, em edição revisada de 29 de abril de 2015, é e será uma nova colaboração com a verdade a respeito dos fatos produzidos na Alemanha durante o governo nazi, e com a defesa dessa verdade sobre qualquer tentativa de tergiversação histórica.

No dia 16 de abril, no programa de televisão Linha Direta, do canal estatal russo, o presidente Vladimir Putin fez declarações políticas muito francas, pedagógicas e responsáveis. “Somos uma grande potência nuclear, e portanto ser nosso inimigo é uma honra, assim como ser nosso amigo”, acrescentando, sem eufemismos, que “a Rússia não tem ambições imperiais, e pretende somente viver com dignidade, como a América Latina”.

Mais ainda, em 6 de maio de 2015, o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, publicou um comunicado, no qual afirma que “os povos da China e da Rússia estão dispostos, com toda a firmeza e os esforços necessários, e junto com todos os países pacíficos, a se opor a qualquer tentativa de negar, distorcer ou reescrever a história da II Guerra Mundial. Russos e chineses estarão ombro com ombro para defender a paz no mundo, e promover o desenvolvimento”.

É justo, portanto, resgatar as verdades imprescindíveis, já no Século XXI, com novas correlações de forças na arena internacional, que impulsam a incessante busca do desenvolvimento, dignidade, independência, integração, soberania, solidariedade e paz dos povos, do mundo multipolar.
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Jorge Vera Castillo é cientista político chileno especializado em Relações Internacionais e Matérias Internacionais de Defesa e Segurança, com estudos superiores na Academia de Direito Internacional de Haia e no Centre d’Études Diplomatiques et Stratégiques (CEDS), em Paris.

Tradução de Victor Farinelli.



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