Pelo Mundo

A raiz do crime organizado no México

28/06/2010 00:00

La Jornada

Créditos da foto: La Jornada
Do La Jornada

O crime não se organizou por si mesmo; já veio organizado. Sua estrutura se origina nas polícias e forças de segurança do Estado mexicano. Por isso a guerra é cruenta e se estende a todos os níveis do Estado e da sociedade.

Ao longo dos últimos 30 anos, sob o manto da corrupção, a impunidade, a aplicação politica e arbitrária da justiça converteu cada polícia e cada organismo de segurança pública num delinquente em exercício. Consentindo ou não, cada policial mexicano, cada funcionário de ministério para sobreviver como tal tem de violar a lei e sujeitar-se ao código de ferro especial viabilizado pelo poder.

Segregar as polícias da sociedade e utilizá-las sob uma filosofia de repressão política e social conduz à corrupção. A classe política durante décadas e claramente depois de 1968 e 1971, encontrou na corrupção o filão de ouro e se abasteceu dela. Usaram a lei, os regulamentos, as regulações para a extorsão e esta se tornou estrutural.

Dos sótãos e porões do Serviço Secreto, da Direção Federal de Segurança (DFS), da Brigada Branca, da Direção de Investigações para a Prevenção da Delinquência (DIPD), do Batalhão de Rádio Patrulhas do Estado do México (Barapem), das políticas judiciais e rurais nos estados, de suas secretarias de segurança pública, procuradorias, Governança, ministérios públicos, direções de presídios nasceram o Centro de Investigação e Segurança Nacional (CISEN), a Agência Federal de Investigação (AFI), a Unidade Especializada contra a Delinquência Organizada (UEDO), e posteriormente SIEDO, as procuradorias especializadas como a FEADS e a Polícia Federal Preventiva (PFP), até chegarmos à estrutura do Exército Mexicano utilizado como polícia.

Nos últimos 30 anos do regime priista [do Partido Revolucionário Institucional] incubaram o ovo da serpente e os participantes na guerra suja, utilizando a tortura sistematicamente, o sequestro e o desaparecimento, formaram e prepararam centenas de policiais no crime e os enriqueceram. A forma de cobrar do regime seus serviços é a impunidade, que os transforma em sócios e protetores de narcotraficantes, ladrões de carros e sequestradores. Desde Arturo Durazo até Daniel Arizmendi, El Mochaorejas, centenas de policiais se deram conta de que a repressão a opositores, ativistas sindicais, estudantes, de movimentos urbanos ou comunistas dá estabilidade ao regime, mas não é um negócio.

Graças à impunidade e à falta de subversões fabricadas que reprimir, a maquinaria se azeitou com o sequestro e a extorsão de pequenos e grandes empresários. A insegurança criada por bandos de polícias e ex-policiais se tornou um negócio.

E nos anos de 1990 a indústria do sequestro contaminou todo o aparato judicial a partir do âmbito federal, em estados e municípios. A compra de patrulhas, armamentos, sistemas de comunicação informatizado são ganhos de seu próprio terror; ministérios públicos, procuradores e governadores funcionam como parte do crime organizado. As reformas dos anos 90 só deram mais poder e impunidade às polícias corrompidas e sem controle. A legalização de escutas telefônicas, a permissão para bater e os chamados programas de proteção à testemunha, em pouco tempo se tornaram instrumentos na disputa pela rentabilidade do crime. Os novos policiais perseguiam os anteriores, a espiral das vinganças se tornou infinita e por isso nessa guerra não há linha de frente, retaguarda nem confiança; nessa guerra as polícias não são um exército contra outro, mas uma luta entre elas mesmas e suas criaturas adultas.

Quando os sequestros se aproximaram dos círculos do poder e ocorreram as pressões de vítimas com influência, havia já mais de 2 mil grupos de sequestradores no país, conectados ou surgidos das polícias. Uma primeira reação para limpar foi pôr no comando militares e fuzileiros como chefes de polícias. Em pouco tempo, todos estavam contaminados.

A chegada da alternância gerou desarticulação e em cada estado a impunidade policial abonou o crescimento do crime. Para complementar, já desde meados dos anos 90 os Estados Unidos deixou de pagar em dólares e começou a pagar com droga, e o México deixou de ser um país de trânsito para se tornar um país de consumidores. Surgiu o grande negócio do narcotráfico amiúde e as tienditas [pequenos pontos de venda de drogas] nos bairros, nos bares, escolas chegam a todos os setores sociais. O novo negócio fomentou a guerra pelos orçamentos, gangues e territórios.

A recusa do velho regime priista de independizar o Poder Judiciário e a desarticulação do mesmo durante o panismo [partido de Ação Nacional, atualmente no governo] gerou a guerra dentro e fora das polícias, criando o paramilitarismo e as execuções em massa. Hoje, ao aplicar força sem estratégia contra o fenômeno se revela a decomposição do Estado mexicano em todos os níveis e instituições. Daí surge a percepção pública que vê como igualmente perigosos tanto as forças de segurança como as criminosas, pois ambas têm a mesma raiz.

(*) Marco Rascón é analista político.


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