Pelo Mundo

A revolução individualista: empreendedores e submissos

Os novos revolucionários são pragmáticos, dedicados ao consumo, viciados em sucesso individual. Seu imaginário social os situa dentro do sistema.

28/10/2015 00:00

Johnny Magnusson / CC

Créditos da foto: Johnny Magnusson / CC

Durante os obscuros anos das ditaduras militares na América Latina, comandantes das Forças armadas vetaram a palavra revolução. Sobre ela recaíram males e pesares. Os revolucionários foram torturados, assassinados e considerados uma excrecência da sociedade bem ordenada. Nas mentes enfermas dos tiranos e seus assessores, o conceito tinha que ser erradicado por decreto. Os relatos tragicômicos num contexto de horror e violação dos direitos humanos percorreram o mundo. As bibliotecas públicas foram objeto de assalto e mutilação. A queima de livros incluiu qualquer texto cuja capa levasse impressa a palavra revolução. Títulos alusivos à revolução industrial, técnica-científica, copérnica ou neolítica foram retirados das prateleiras sob o assombro dos bibliotecários.
 
Ser revolucionário foi sinônimo de indesejável, quando não delinquente. Era imagem projetada pela direita, e o estereótipo funcionou com perfeição. Os revolucionários homens eram vistos como seres pouco asseados, de cabelos longos e sujos, barba e vestimenta paramilitar. As revolucionárias mulheres foram rotuladas como pouco femininas, promíscuas e sem nenhuma vergonha.
 
Proibida a palavra, a revolução se transformou numa categoria maldita, o que deu a ela um significado pejorativo. Após décadas de ostracismo, o conceito foi reabilitado por aqueles antes a haviam enviado à masmorra. A direita e seus ideólogos deram um giro de 180 graus a ela. Assim como no Século XVIII, período do iluminismo, o seu uso está na moda. Reinhart Koselleck, em uma de seus textos, relata a idolatria que os iluministas sentiam pela revolução, já que dela eram íntimos amigos. Tudo o que se considerava e se descrevia era concebido desde o ponto de vista das mudanças e da subversão. A revolução incluía costumes, direitos, religião, economia, países, estados e continentes, inclusive o planeta inteiro.
 
A burguesia utilizou o conceito e o ideário de revolução contra o velho regime e se apresentou como classe social revolucionária. Hoje, a história se repete, não sei se como tragédia ou como farsa. O neoliberalismo reivindica sua condição de ideologia revolucionária. Sua revolução e seu exército de revolucionários são elementos que formam parte de um novo tipo de indivíduo, cujo objetivo consiste em impor uma ordem indicada pela economia de mercado. Uma vez derrotado o seu principal inimigo (o comunismo), essa revolução aponta contra as políticas sociais redistributivas, o emprego fixo, a saúde pública e a cidadania política. A revolução neoliberal e seus princípios representam o futuro. É o triunfo do eu individualista sobre o nós coletivo.
 
Os novos revolucionários são pragmáticos, dedicados ao consumo, viciados em sucesso individual. Seu imaginário social os situa dentro do sistema. Aproveitam suas oportunidades para ganhar espaços de poder, aceitam suas normas e se movem como peixe n´água quando se trata de fazer negócios e acumular riquezas. Conhecem perfeitamente as regras do mercado e competem até a cansaço, e não encontram limites quando precisam atacar seus inimigos. O objetivo de um indivíduo desse grupo é chegar a ser milionário o mais cedo possível. Os meios de comunicação social potencializam este protótipo de sujeito individualista e revolucionário como exemplo do triunfo da economia de mercado e da iniciativa privada, dentro do mundo globalizado que nós vivemos. Enquanto isso, os governos fazem campanha em favor dos empreendedores, novos revolucionários, empoderados e valentes que assumem o risco de fracassar. Em outras palavras, estimulam e magnificam suas proezas.
 
O perfil do revolucionário neoliberal é um sujeito jovem, com iniciativa; ousado, sem preconceitos éticos, competitivo, de caráter flexível e moldável, preocupado por sua aparência, egoísta e com um elevado nível de autoestima. Capaz de passar por cima de tudo e de todos, que só se interessa por conquistar seus objetivos. De vocação niilista, ele rechaça a ação coletiva, que despreza o bem comum. São chamados de empreendedores, se consideram sujeitos revolucionários por sua forma de atuar e pensar.
 
O triunfo cultural do capitalismo desfez os laços de união entre a cidadania política, a responsabilidade ética e a ação coletiva. Hoje em dia, nós assistimos à revolução individualista, ao nascimento de sujeitos submissos, que desenvolveram uma hiperatividade em torno das dinâmicas da economia de mercado.
 
O descontentamento com as desigualdades de classe e a exploração se move das estruturas de poder ao âmbito pessoal. O sistema não tem responsabilidade social, nem problemas políticos que possam ser atribuídos a ele. Cada um deve saber aproveitar suas oportunidades e saber jogar bem suas cartas. Só existem as boas ou más decisões pessoais. O capitalismo está livre de culpa. Nesta revolução individualista da era pós-moderna, não está permitido estabelecer uma relação entre pobreza, desigualdade social e exploração. Cada um é responsável por se empoderar e decidir seu futuro. Uma revolução individualista na qual se projeta a máxima dos sofistas: o homem é a medida de todas as coisas, das que são o que são e das que não são o que não são.
 
A revolução individualista e seu exército de submissos e empreendedores renegam a luta social e política. Não são uma alternativa à ordem estabelecida – e talvez sejam sua melhor defesa.
 
Tradução: Victor Farinelli





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