Pelo Mundo

A verdadeira história de Rupert Murdoch

23/07/2011 00:00

Bruce Page - CounterPunch

O pai de Rupert, Sir Keith, fundou a dinastia durante a Primeira Guerra Mundial como agente servil para jogadas sujas de “Billy” Hughes, provavelmente o mais repugnante primeiro ministro da Austrália. O mito de sua cobertura como heroico repórter de guerra já foi tão exaustivamente desmantelado que não impressiona mais ninguém, com exceção dos empregados da família. Em Versailles, Keith foi o assistente onipresente de Billy em seus esforços por converter a Conferência de Paz em uma baderna maléfica, rica em conteúdo racista e imperialista. Curiosamente, a dupla não teria exercido nenhuma influência se não fosse pelo fracasso de um complô armado por Keith, que tratou de remover, em 1918, John Monash, o comandante no campo de batalha da Austrália na Frente Ocidental, por ser um judeu pouco heroico (Em uma carta à família, Monash escreveu que era aborrecido ter que enfrentar um “pogrom” ao mesmo tempo em que combatia Ludendorff (general alemão). O comandante superior, general Douglas Haig, não quis participar. As divisões de Monash encabeçaram a ofensiva britânica em Amiens que, ao arruinar Ludendorff, colocaram a Alemanha – repentina e inesperadamente – a mercê dos aliados.

Haig e outros soldados esperavam que houvesse espaço para uma paz decente. Mas políticos de diferentes estirpes tinham outra opinião e nenhum superou o chefe de Keith em sua demagogia vingativa, destruindo finalmente todo o crédito que Monash havia conseguido para a Austrália. Billy e Keith não foram os principais autores da debacle de Versailles em 1919. Mas ninguém trabalhou mais duro para que isso ocorresse.

Esta irônica história produz dois exemplos de relevância atual. Um é que nos mostra a base do negócio de Murdoch: oferecer serviços de propaganda política disfarçados de jornalismo. Outro é que Murdoch tem um talento surpreendente para agarrar o lado errado de qualquer conflito político ou militar disponível. A opinião de Keith sobre Monash e a de Rupert sobre o pseudo-guerreiro Bush Jr. eram recíprocas, sem dúvida, e identicamente estúpidas.

Não que, com o passar dos anos, tenhamos visto Murdoch sentindo algum incômodo pelos resultados de servir como subordinado acrítico do poder. Por impossível que possa parecer agora, no início Rupert tinha aberto um caminho honrado e inclusive deu alguns passos nesta direção. Na Austrália dos anos cinquenta, herdou um pequeno, mas próspero, periódico dirigido por pessoas que eram seus amigos e admiradores. Havia temas apaixonantes; sobretudo, a liberação do povo indígena da Austrália e o resgate da maioria branca de uma perigosa querela racista com seus vizinhos asiáticos. Estes temas se desdobraram em movimentos populares sérios, mas durante décadas foram repugnantes para os políticos ortodoxos. E estes últimos, compreendeu Rupert, eram os que distribuíam as concessões de canais de televisão.

Aí veio sua primeira defenestração editorial, que se converteu em um modelo: de um íntimo e leal amigo que esteve envolvido com ele na luta para salvar da execução um homem negro acusado falsamente de violação e assassinato. A campanha realmente poderia ter dado a Murdcoh a condição de inovador que ele sempre pretendeu ser. Mas fiel ao que viria se tornar, alçou o que só pode ser qualificado como uma bandeira branca. Apesar de tudo, segundo o ex-editor de então, Rohan Rivett, ele descobriu uma irregularidade suficiente para evitar a pena de morte e o homem foi condenado à prisão perpétua. Este ato incompleto de valor desinteressado seguiu sendo o único na história de Murdoch.

A posse de licenças de televisão (bem, monopólios estatais) na Austrália do Sul e em Nova Gales do Sul deu a ele suficientes recursos para entrar na cena mundial. Murdoch chegou a Londres precisamente quando os imensos periódicos populares britânicos começavam a dar-se conta (demasiado tarde) que estavam doentes, em geral de maneira mortal. Foi aí, nos anos setenta, que ocorreu o indispensável ingresso de Murdcoh, um evento complexo que Wolff não entendeu.

Os diários britânicos da primeira parte do século passado eram, sobretudo, um hábito da classe média. Ao chegar a Segunda Guerra Mundial quase toda a sociedade seguiu a mesma tendência. As causas foram múltiplas: novos métodos populistas no jornalismo e publicidade, surpreendentes dramas sociopolíticos e a tardia consolidação do forte impulso da alfabetização da classe trabalhadora.

Em 1960, a tiragem do Daily Mirror era de cinco milhões. Mas ao final dos anos sessenta, todos os jornais populares tinham problemas. Por exemplo, o News of the World, que Murdoch adquiriu em 1969 com uma tiragem de cinco milhões, havia vendido oito milhões dez anos antes.

Essencialmente, a imprensa popular (naquele momento não “tabloide”) havia sido surpreendida pelas novas ondas de educação e progresso social do pós-guerra. Ainda que tanto a esquerda como a direita desprezassem essa realidade, ela era bastante real e levou à divisão do público do jornalismo popular. Aproximadamente metade da população queria um produto novo, mais inteligente. A outra metade se contentava com mais do mesmo.

Apenas um proprietário solucionou criativamente esse problema clássico de administração dos meios de comunicação, e não foi Rupert. Vere Harmsworth, enquanto absorvia reveses financeiros com o Daily Mail, investiu fortemente nas capacidades de brilhantes editores, de caráter. The Mail aumentou suas vendas em 50% entre 1970 e 2000 e conseguiu isso mediante crescimento orgânico, não com a aquisição de outros títulos. Enojados com sua política frenética, os liberais desprezaram a inteligência populista do Mail. No entanto, ela é formidável.

Murdoch fez outra coisa. Seu objetivo era o colossal Mirror, cujos chefes trataram a crise dos anos setenta como uma tentativa suicida. Depois de envernizar o antigo periódico com algumas pequenas mudanças, reduziram seu tamanho e, simultaneamente, aumentaram seu preço. Murdoch adquiriu o abandonado Sun, o relançou com uma grosseira clonagem do antigo Mirror, mas maior, mais barato e mais vulgar. As vendas do Mirror caíram; o Sun voltou a subir. A economia midiática não conhece um exemplo mais claro (ou mais merecido) de simbiose parasitária.

O atual Sun (três milhões) e o Mirror vendem em conjunto cerca de 4 milhões, em comparação com o pico de cinco milhões do Mirror nos anos sessenta. The News of the World, ao não encontrar um anfitrião de parasitas no mercado dominical declinou simplesmente e suas vendas se reduziram à metade sob o controle de Murdoch. Rupert, como gênio da circulação é um mito tão frágil como o de Keith, o honesto repórter de guerra.

Em sua maioria, seus periódicos são uma turba lamentável, especialmente o New York Post e o The Times of London, absurdas publicações para satisfazer vaidades a qualquer custo, por mais que os contadores da Newscorp ocultem suas perdas. Sentimentalmente, talvez, por ter trabalhado nos dias pré-Murdoch, eu ainda vejo centelhas de jornalismo no Sunday Times, de Londres. (Graças ao Memorando de Downing Street, no entanto, que demonstrou a fraude dos serviços de inteligência no período que antecedeu a guerra no Iraque, sabemos que apoiou o objetivo da Newscorp de manter um tedioso servilismo a Bush Jr.).

Mas a turba tem a sua função. Primeiro, mesmo em decadência, os tabloides britânicos geram um vasto fluxo de caixa, essencial para a vitalidade financeira da Newscorp. Segundo, todos os jornais, lucrativos ou não, são acessórios empresariais de um tipo especial. Prestam um serviço político especial e permitiram a Murdoch extrair de governos na Austrália, EUA e Grã Bretanha passes livres contra a regulação, feita para sustentar a diversidade e a independência dos meios, impressos e eletrônicos. Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Tony Blair foram seus comparsas mais conhecidos, mas é bom não esquecer os dirigentes do Partido Trabalhista australiano (especialmente inclinados a imaginar que estavam explorando Murdoch).

A ascensão da Newscorp à condição de potência de televisão foi um importante argumento secundário epopeia de quatro décadas de desregulação, agora reconhecida tardiamente como liberadora de Caliban. Sua dinâmica explica as incessantes quedas de circulação de Murdoch. Para ser entregue na casa das pessoas, um jornal (ou programa de televisão) deve ser previsível. Assim, pode-se administrar (e inclusive estabilizar) sua decadência, mas não se deve esperar um crescimento orgânico. Se você vai ser leal a um punhado de políticos, nada é pior que seu próprio pessoal traga à luz seus pequenos delitos – ainda que de forma acidental -, por mais interessantes que possam ser para seus leitores.

Há algumas histórias muito engraçadas no relato de Harry Evans sobre a edição do The Times, enquanto o chefe Jefe Rupert cortejava o governo de Thatcher. Os jornais eram vendidos rapidamente, mas numerosas edições angustiavam Downing Street. A agonia foi comunicada a Rupert e a demissão de Harry foi a única cura.

A extensão na qual os poderosos podiam confiar em outros chefes de meios de comunicação para que entregassem seus produtos de modo previsível é frequentemente exagerada. Por certo, os antigos monstros como Hearst, Northcliffe e Beaverbrook eram impulsionados por suas próprias, imprevisíveis - e, sem dúvida, excêntricas – paixões. Mas Rupert é o supremo pragmático. Ladrar desde a direita é o estado próprio de sua política. No entanto, ele pode ser substituído facilmente se isso for preciso para fazer um negócio. Poderia valer a pena discutir se ele realmente gosta de dirigir periódicos moribundos. Mas os políticos estão interessados mesmo é na questão comercial.

Sua produção requer editores cujo quociente de curiosidade se orienta a querer saber o que o chefe está pensando e nunca a buscar histórias que possam penetrar em um território desconhecido. Gente assim pode ser carinhosa com cães e mendigos – ainda que muitos dos funcionários de Rupert sejam visivelmente selvagens -, mas produz poucas matérias exclusivas que impactem o mundo real. Seu produto jornalístico centra-se em agulhadas, sensacionalismo pago, velhos escândalos requentados e rumores sobre celebridades. (O suposto desejo de Murdoch de abolir a realeza britânica poderia obscurecer o “Sun” [sol] se fosse implementado. Mas a sua própria dinastia nunca foi ironizada).

Do ponto de vista operativo, tudo isso requer uma grotesca maquinaria de bravatas, conformidade, manipulação e adulação servil. Essa maquinaria usa, sobretudo, pessoal que não tem outra saída, já que prestar serviços a Murdoch sempre danificou severamente um currículo. De vez quando envolveu gente capaz: alguns encontraram refúgios onde podem trabalhar decente e discretamente, mas a maioria acaba expulsa ou se auto-expulsa. Esta última opção não é apreciada. Quando o The Times teve uma febre de tabloide e descolou de sua própria imagem, Simon Jenkins foi contratado para realizar reparos cosméticos, mas só assinou por dois anos. Murdoch disse que preferia demitir os editores ele mesmo, mas teve que aceitar; é certo que não demorou muito para brigar com Jenkins).

Quando escrevi The Murdoch Archipelago, com Elaine Potter, justificamos nosso título dizendo que os Murdoch tinham construído um domínio tão próximo à tirania de sua pessoa como o permite o marco legal no Ocidente. A maioria dos observadores está de acordo com isso, e também estão alguns ex-participantes de sua equipe, a menos que esperem novos favores da Newscorp.

Previsivelmente, a admiração por seu pai envolve esse hediondo cavalo de batalha, o establishment. A besta existe só para que os membros da classe dominante a reneguem, determinados a escapar de qualquer obrigação de lei ou honra que um status semelhante possa atrair. Assim, ações que seriam codiciosas e irresponsáveis em um dirigente confesso, se convertem em rebelião inocente, empreendida para libertar-se da opressão por elites invisíveis. Os acólitos de Murdoch utilizam rotineiramente semelhantes truques de mágica para obscurecer a verdadeira natureza do chefe, frequentemente para si mesmos. Se alguém vê Murdoch dessa maneira, como adulador do poder no longo prazo, não há nada que não se possa acreditar, e considerar o Post como um paladino do jornalismo não representa nenhuma dificuldade. O longo apoio a ele, contra um desastroso rendimento no mercado (e, a essa altura, seguramente, um valor político diminuído), indica que Murdoch pensa o mesmo.

É, no final das contas, sua criação por excelência, mais que qualquer outro meio. A Fox News foi obra de Roger Ailes; The Sun, de Larry Lamb e Kelvin McKenzie; Newscorp (diferente do original) Sunday Times, de Andrew Neil; a rede Sky, do voraz Sam Chisholm. Sem dúvida, todos eles o aceitaram como chefe supremo, com tristes consequências para seus produtos (e, na maior parte dos casos, para suas ambições). Mas, deixando de lado o mito de Murdoch, todos eram profissionais endurecidos, que faziam seu trabalho eles mesmos (e que se esquivavam de Rupert sempre que possível).

Seus produtos não são muito bons, mas têm um certo brilho profissional; refutação, por certo, da afirmação de que não se tirar brilho da merda. The Post, no entanto, é o produto em estado bruto. Representa Rupert fazendo um trabalho complicado, difícil, o melhor que pode: algo que nos deveria fazer pensar intensamente sobre os perigos que ameaçam a democracia.
Não é bastante conhecido que nem Rupert nem seu pai tiveram alguma formação séria em jornalismo. Keith, já em avançada idade, confessou que poderia ter sido um melhor jornalista se as coisas tivessem sido diferentes.

De fato, ele cresceu como um aventureiro curioso independente, tratando de conseguir algumas linhas nos subúrbios eduardianos de Melbourne e foi, como disse, um “esforçado”. Há poucos começos piores, já que a remuneração depende de escrever sem questionar nada tudo os que as fontes podem oferecer, e desenvolver hábitos de julgamento independente envolve sérias possibilidades de passar fome.

Nos anos cinquenta, os periódicos metropolitanos da Austrália e dos EUA (e alguns da Inglaterra) tinham sistemas bastante detalhados de capacitação. Por certo, Keith ajudou na sua criação. Mas criou também o canal dinástico por meio do qual Rupert esquivou-se desses sistemas, ao herdar diretamente o negócio do Adelaide News que Keith havia extraído habilmente da companhia pública da qual era diretor gerente.

É muito provável que Keith tenha pensado que viveria alguns anos mais, mas a morte apareceu quando Rupert ainda estava em Oxford, sem estar mais preparado para dirigir um jornal do que estaria para dirigir um pequeno barco de guerra ou um julgamento de mediana importância. Os procedimentos de fideicomisso previam que sua mãe, com outros testamenteiros, certificaria a preparação profissional de Rupert e essa pantomima foi encenada perfeitamente.

Vale a pena ver retrospectivamente a traição de Rohan Rivett, para perguntar se Rupert, se tivesse passado alguns poucos anos na dura prática jornalística, poderia ter sido menos intimidado pelos ridículos – agora esquecidos – presunçosos que dirigiam Australia do Sul na oportunidade. Mas a verdadeira pergunta tem a ver com proteção da liberdade: algo que requer (entre outras coisas) uma realização regular do árduo e intrincado trabalho do jornalismo.

De muitos papeis de similar complexidade excluímos os não qualificados. Tua família pode deixar-te um avião comercial, mas não pode te legar o direito a fazê-lo voar. O mesmo ocorre no caso de uma farmácia, ainda que, como disse Kipling, não há drogas tão perigosas como as palavras se não limitamos seu tráfico. Como temos que fazê-lo.

O direito de construir um império nocivo como Newscorp é uma consequência indispensável da liberdade de expressão. Nenhuma sociedade livre, disse Rosa Luxemburgo, pode ser saudável sem ela. (Ela é a libertária mais confiável; se consultamos a direita, como em Hayek, vemos alguns sentimentos admiráveis. Mas logo começam as bobagens como dizer que governos autoritários podem ser, afinal de contas, liberais).

Evidentemente, esta liberdade não pode ser protegida por leis prescritivas (ainda que algumas modestas regulações possam ser úteis e nenhuma das dribladas pela Newscorp foram ou são barreiras para a liberdade, como tampouco o são as regras sobre a difamação). É uma questão de consciência, como deixa claro Rosa Luxemburgo com seu princípio de que “A liberdade é sempre e exclusivamente liberdade para aquele que pensa de maneira diferente”, o que se aplica inclusive quando o outro é Murdoch.

E, assim, tem seu custo: um preço que deve ser pago por todos os que acreditam neste princípio.

Assume várias formas e primeiro vem o esforço de impedir que a própria mente decaia (como no caso de cronistas de Murdoch como Michael Wolff), até que se começa a disseminar coisas insensatas sobre Rupert, o radical contrário ao establishment. Pode haver dias difíceis, chuvoso, quando alguém tem que trabalhar para a Newscorp. Mas ninguém deveria fazê-lo com a ilusão (ou pretensão) de que está fazendo um favor à sociedade, ou que está aprendendo a praticar jornalismo.

Murdoch controla agora o suficiente do mercado do jornalismo em língua inglesa para que, qualquer um que queira manter-se livre, perca uma certa vantagem competitiva. As pessoas – que já estão preparadas – devem aceitar a limitação e deixar que Murdoch encontre seus empregados em outra parte. Devemos abandonar o argumento de “se eu não faço, haverá outro que o fará”.

Pode ser que custe mais aos políticos abandonar o hábito da Newscorp. Verdadeiros jornalistas, em qualquer meio, podem formar perguntas incômodas: não só paladinos da direita se sentiram a vontade com Rupert. E, como regra, seus desejos são poucos, só quem se elimine algo da lei de monopólios a qual os eleitores ignoram.

Basicamente, Newscorp é só uma das iniquidades geradas por quatro décadas de falta de moderação das classes altas, disfarçada como postura libertária. Possivelmente não existe cura. Mas se existe, virá com um clima moral muito diferente daquele que foi propício a Murdoch até agora.

(*) Bruce Page é autor (con Elaine Potter) de The Murdoch Archipelago, Pocket Books: 2004, 592pp. Para contatos: bruce@pages2.adsl24.co.uk.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Fonte
http://www.counterpunch.org/page07182011.html

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