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Arábia Saudita bombardeia Iêmen e depois oferta "ajuda" milionária

Os sauditas são acusados de bombardeios que provocaram a morte de 1.080 pessoas, a maioria civis, e deixaram outras 4.352 feridas.

27/04/2015 00:00

BBC

Créditos da foto: BBC

"A mão direita da Arábia Saudita não sabe o que seu pé esquerdo faz". O comentário é de um diplomata asiático, referindo-se à paradoxal política militar que acontece no Iêmen.

Os sauditas são acusados de bombardeios indiscriminados que provocaram a morte de 1.080 pessoas, a maioria civis, e deixaram outras 4.352 feridas, o que levou a uma crise humanitária a grande escala no Iêmen. Os mesmos sauditas lideram uma coalizão de países árabes que apoia o presidente iemenita Abdu Rabbu Mansur Hadi, cujo governo foi derrubado por forças rebeldes xiitas-huties em janeiro

Para compensar seus pecados, a Arábia Saudita anunciou no dia 17 deste mês uma doação de 274 milhões de dólares “para as operações humanitárias no Iêmen”, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Na última quarta-feira (22), a Arábia Saudita interrompeu temporariamente os ataques aéreos, que duraram quase um mês, presumivelmente pela pressão dos Estados Unidos, país que se preocupou pelo número de vítimas civis.

O diário The New York Times perguntou a um funcionário estadunidense não identificado por que Washington interveio para que Riad parasse com os bombardeios. “Foram danos colaterais demais”, respondeu, em referência às mortes civis.

Os ataques da chamada Operação Tormenta Decisiva no Iêmen demoliram fábricas e bairros residenciais, também afetaram um centro de armazenamento pertencente à organização humanitária Oxfam, com sede em Londres, que informou que o local guardava mantimentos, ajuda humanitária sem valor militar.

A Oxfam recebeu com satisfação o anúncio sobre o cessar fogo no Iêmen, mas advertiu que o trabalho para levar a ajuda a milhões de iemenitas começou tarde.

Grace Ommer, diretora da organização no Iêmen, assegurou a IPS que os bombardeios aéreos e a violência dos últimos 28 dias cobraram a vida de cerca de 900 pessoas, das quais mais da metade eram civis.

“A notícia de que os ataques aéreos terminaram é bem-vinda, ainda que temporariamente, e esperamos que isso abra caminho para que todas as partes do conflito atual encontrem uma paz negociada, e que essa seja permanente”, disse.

“A notícia também trouxe um enorme alívio aos 160 trabalhadores iemenitas que temos no país, assim como o resto da população civil, que esteve lutando para sobreviver a esta última crise em seu frágil país”, acrescentou Ommer.

“A instabilidade, a insegurança e os combates continuam, as partes envolvidas no conflito devem permitir que as organizações de ajuda entreguem a assistência humanitária às milhões de pessoas que a necessitam”, cobrou ela.

A Oxfam também indicou que o Iêmen é o país mais pobre do Oriente Médio, onde 16 dos seus 25 milhões de habitantes dependem da ajuda para sobreviver. A recente escalada de violência só agravou mais a catástrofe humanitária existente, segundo a organização.

Sara Hashash, membro de Anistia Internacional, sustenta que mais de 120 mil pessoas foram deslocadas de seus lares desde que começou a campanha militar saudita em março, o que provocou “uma crescente crise humanitária”.

O porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, disse à imprensa que a doação saudita se destinará a atender as necessidades de 7,5 milhões de iemenitas nos próximos três meses.

Os fundos “ajudarão na assistência alimentária de 2,6 milhões de pessoas, água potável e saneamento para cinco milhões, serviços de proteção a 1,4 milhão e apoio nutricional a cerca de 79 mil pessoas”, explicou.

Em meados deste mês, os bombardeios destruíram uma fábrica de produtos lácteos, mataram 31 trabalhadores e fizeram explodir um bairro inteiro, deixando lá um saldo de 25 mortos.

“Os ataques aéreos reiterados contra a fábrica de produtos lácteos situada próxima às bases militares exibem um cruel desprezo pelos civis de ambas as partes do conflito armado”, comentou Joe Stork, subdiretor para o Oriente Médio e o norte da África da organização de direitos humanos Human Rights Watch (HRW).

“Esse ataque poderia violar as leis de guerra, razão pela qual os países envolvidos devem investigar as medidas apropriadas, incluindo a indenização das vítimas dos ataques ilegais”, destacou. A morte de civis não implica necessariamente que numa quebra das leis de guerra, mas a elevada perda de vidas numa fábrica aparentemente utilizada com fins civis deve ser investigada de forma imparciais”, recomendou a HRW em seu comunicado.

“Se os Estados Unidos proporcionou informação ou outro tipo apoio direto aos bombardeios, passando a ser parte do conflito, tem a obrigação de participar das tarefas para minimizar os danos a civis e investigar possíveis violações” às leis, acrescentou.

Segundo a HRW, a coalizão liderada pela Arábia Saudita e responsável pelos ataques aéreos, está integrada por Bahrein, Egito, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Marrocos, Qatar e Sudão.

“Ainda que não seja uma participação formal, ao dar a entender seu apoio à coalizão, os Estados Unidos deveria assegurar que todos os ataques aéreos e demais operações se realizem de forma a evitar a perda de vidas e propriedades civis, que já alcançaram níveis alarmantes”, disse Joe Stork.

A respeito das denúncias de mortes de civis, Dujarric disse que “à primeira vista, este tipo de denúncias são sumamente inquietantes quando se vê a probabilidade de um nível elevado de vítimas civis”.

“Creio que toda a violência que vimos nesta última semana serve para recordar que as partes devem atender o chamado” que realizou o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, no dia 17 de abril, para que “terminem as hostilidades e se viabilize o cessar fogo”, concluiu.



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