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China compra Syngenta por uma questão geopolítica

A Syngenta detém 19% do mercado de agrotóxicos, e somando os 5% da ChemChina, tornaria a estatal chinesa a maior produtora de agrotóxicos do planeta.

04/02/2016 00:00

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A estatal chinesa ChemChina fez uma oferta pela suíça Syngenta por US$43 bilhões, um negócio a ser concretizado até o final do ano, por uma oferta pública de aquisição nos Estados Unidos e na Suíça. A Syngenta detém 19% do mercado de agrotóxicos no mundo, e somando os 5% da ChemChina, tornaria a estatal chinesa como a maior produtora de agrotóxicos do planeta. O jornal espanhol El País publicou matéria sobre o assunto analisando a compra como uma necessidade dos chineses em aumentar a produção de alimentos, por intermédio da transgenia, em função das milhares de patentes de propriedade da Syngenta.
 
Esse é o retrato da versão mentirosa da mídia. Vamos aos fatos: existe uma queda nos preços agrícolas nos últimos três anos. A FAO anunciou esta semana uma queda de 1,9 no índice de preço dos alimentos, que envolve desde leite, óleos vegetais e grãos, a maior em sete anos. A renda agrícola dos Estados Unidos, segundo o próprio Departamento de Agricultura, caiu 26,6% em 2015, a maior desde 2006 – foi de US$95,8 bilhões, sendo a maior queda com a receita do milho com redução de quase US$11 bi. Em 2013, a renda agrícola estadunidense foi de US$130,5 bilhões.
 
Governo chinês quer reduzir o plantio de milho
 
O argumento do aumento da produção de alimentos: o governo chinês anunciou que nos próximos cinco anos pretende reduzir a área de plantio do milho, um dos alimentos básicos, em 25%, e quer estabilizar a produção em 175 milhões de toneladas. A expectativa para a safra 2015/16 é uma produção de 229 milhões, a segunda maior do planeta, atrás dos Estados Unidos, que supera os 300 milhões. Outro dado: os chineses perdem 35 milhões de toneladas de grãos por ano em função de problemas de armazenagem e transporte. A informação é do escritório da Confederação Nacional da Agricultura que tem escritório em Pequim. A área de plantio médio na China, no caso do milho, é de 0,5 ha por produtor, algo impossível para implantar sistemas transgênicos e agroquímicos. Por fim: os chineses querem aumentar o preço do milho doméstico, porque tem estoques suficientes para o consumo de um ano – algo como 180 milhões de toneladas.
 
Outro ponto: o milho transgênico para cultivo é proibido legalmente na China, embora a importação para processamento de alguns tipos esteja liberado. Entre 2013 e 2014, a China devolveu mais de um milhão de toneladas de milho dos Estados Unidos, porque a semente transgênica da Syngenta não estava aprovada no país. A Associação dos Exportadores de Grãos dos Estados Unidos disse que os produtores tiveram um prejuízo de US$2,6 bilhões. Em janeiro de 2016, o Greenpeace, que mantém oito escritórios na China fez uma denúncia depois de oito meses de pesquisa na província de Liaoning, uma das maiores produtoras do país, e denunciou que os cultivos estavam impregnados de transgênicos das sementes conhecidas no mercado – Monsanto, Dupont, Dow e Syngenta.
 
Estados Unidos podem vetar a compra dos chineses


Em consequência da crise econômica mundial os lucros das corporações transnacionais do agronegócio também diminuíram. A Syngenta teve uma redução de 17% em 2015 no comparado com 2014 e pretende pagar um dividendo de 11 francos suíços por ação em 2016, que é o mesmo de dois anos atrás. No ano passado a Monsanto fez uma oferta para compra da Syngenta que foi rejeitada pela empresa. O Fundo Henderson Global Trust, um dos maiores acionistas da Syngenta decidiu retirar metade dos investimentos na corporação. Porém, os suíços não se interessaram porque a fusão não passaria pelos órgãos de controle dos Estados Unidos – significaria monopólio das sementes transgênicas e dos agrotóxicos.
 
O governo chinês declarou que entre as mudanças na economia em curso, as empresas chinesas precisam fortalecer sua presença no mundo, ou comprando o controle, ou através de participação acionária. Em 2015, os chineses investiram mais de 100 bilhões de dólares em compras – caso da Pirelli italiana, da fabricante alemã de equipamentos Kraussmaffei e da corretora suíça Mercuria. Mas esta é uma estratégia que vem se aprofundando nos últimos anos. A maior compra de um ativo estrangeiro pela China foi a canadense Nexen por US$15,1 bilhões.
 
Entretanto, os Estados Unidos vetaram a compra da Unocal, uma petrolífera, que seria adquirida pela gigante chinesa CNOOC por US$18,5 bilhões. Esta história poderá se repetir novamente, porque 25% do mercado da Syngenta se concentra nos Estados Unidos. A compra terá que ser aprovada pelo Comitê de Investimentos Estrangeiros. A China chegou a comprar cinco milhões de toneladas de milho dos produtores estadunidenses. Agora as exportações não chegam a 3,8% - chegaram a 97% poucos anos atrás. Os falcões estadunidenses não engoliram a rejeição dos chineses e podem dar o troco.
 
Mercado de transgênicos e agrotóxicos em queda


No teatro global a recessão é que dá o tom: os acionistas das corporações em sua maioria são fundos de investimentos que querem lucros crescendo e não diminuindo, os chineses estão empanturrados de milho nos estoques estatais e a recessão diminuiu o consumo de rações. O mercado global de sementes transgênicas e agrotóxicos está em queda – o faturamento da Syngenta com a  Divisão de Proteção de Cultivos, como eles chamam os agrotóxicos, caiu 12% em 2015. A Monsanto teve uma queda no faturamento de 23%, principalmente com vendas de sementes de milho transgênico – 19,7% e um prejuízo líquido no primeiro trimestre fiscal de 2016 de US$253 milhões. Foram demitidos 2.600 funcionários em 2015 e outro mil serão dispensados em 2016.      
 
A Dupont e a Dow Chemical se fundiram recentemente e deverão dividir a corporação em três partes. A outra ponta do conglomerado agroquímico está na Alemanha – Bayer e Basf -, que são pressionadas pelos acionistas a se fundirem. Sobrou a Syngenta, que os chineses compraram. O mundo está em recessão, mas a China tem mais de dois trilhões de dólares em reservas. E direcionou as compras de milho para a Ucrânia, Rússia, Bulgária e Brasil.





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