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Com intervenção dos EUA, caos no Iêmen gera risco de uma guerra maior

Caos político atual, com o presidente, primeiro ministro e gabinete tendo sido forçados a renunciar em massa, ameaça tornar o país um Estado falido.

29/01/2015 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


Quando o Iêmen norte e sul se uniram em um único país sob a bandeira República Árabe do Iêmen em maio de 1990, um jornal britânico ressaltou com sarcasmo: “dois países pobres agora se tornaram um país pobre.”


Desde seu nascimento, Iêmen continuou a ser categorizado pela ONU como um dos 48 países menos desenvolvidos do mundo, o mais pobre dos pobres, dependente de auxilio estrangeiro e batalhando pela sobrevivência econômica. 


Mas o caos político atual – com o presidente, primeiro ministro e gabinete tendo sido forçados a resignar em massa semana passada – ameaça tornar o país em um estado falido.


E, mais significante, Iêmen também corre o risco de se dividir em dois novamente – e pode estar a caminho de outra guerra civil.


Charles Schmitz, um analista do Instituto do Oriente Médio, foi citado semana passada dizendo: “Estamos olhando para a ruptura de um país, e estamos entrando em um processo longo de negociações, mas também podemos estar entrando em uma guerra.”


Em um relatório divulgado na terça-feira, o Grupo de Crise Internacional com sede em Bruxelas disse que a caída do governo botou de pé a transição atribulada e “levanta o verdadeira perspectiva de fragmentação territorial, colapso econômico e violência disseminada se não houver um acordo logo.”


O governo do presidente Abdu Rabbu Mansour Hadi era um aliado próximo dos EUA, que cooperava com os ataques de drones americanos contra a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) localizada nas regiões remotas do Iêmen.


Os EUA estavam tão confiantes com seu aliado que as demissões no governo “surpreenderam oficiais americanos,” de acordo com o New York Times. Matthew Hoh, membro sênior no Centro de Políticas Internacionais (CIP), disse à IPS, “não sei se o Iêmen irá se dividir em dois ou não. Mas acredito que o medo maior é de que o Iêmen descenda ao caos massivo com violência entre muitas facções como vemos no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, todas as nações que foram recipientes da política externa americana de intervencionismo.”


De acordo com um diplomata Árabe, os Houthis que tomaram o poder são parte integral do setor xiita muçulmano, os Zaydis, e são aparentemente financiados pelo Irã. Mas o país é dominado por uma maioria sunita e que é apoiada pelo vizinho Arábia Saudita, ele disse, o que poderia fomentar um conflito sectário – como na Síria, Iraque e Líbano. 


Ironicamente, todos eles, incluindo os EUA, têm um inimigo em comum na AQAP, o qual se disse responsável pelo recente massacre nos escritórios da revista satírica em Paris.
“Em suma, é uma bagunça política monumental,” disse o diplomata, falando como anônimo.


Vijay Prashad, George e Martha Kellner Chair em História do Sul da Ásia e Professor de Estudos Internacionais na Faculdade Trinity, disse à IPS que é muito difícil avaliar o que irá acontecer no Iêmen a esta altura. 


“As linhas de batalha estão longe de serem claras,” ele disse. O chamado governo pró-EUA tem, desde 2004, jogado um jogo muito delicado com os Estados Unidos em termos de contra-terrorismo. 


De um lado, ele disse, o governo do ex presidente Ali Abdullah Saleh e depois Hadi, sugeriu aos EUA que fossem anti al-Qaeda. Mas por outro lado, usaram o fato da al-Qaeda para ir atrás de seus adversários, incluindo os Zaydis (Houthis).

“Esse jogo duplo sempre foi conhecido pelos americanos. Cooperavam com isso. Foi o que permitiu a AQAP tomar Jar e outras regiões do Iêmen e segurá-las com alguma facilidade,” disse Prashad.


Ele dispensou como “ridículas” as alegações de que os Zaydis são “representantes do Irã”. Disse que são uma confederação tribal que encarou o limite da espada de Saleh-Hadi.


“São decididamente contra a al-Qaeda, e não tornariam necessariamente fácil a existência da AQAP,” disse Prashad ex Edward Said Chair na Universidade Americana de Beirute e autor de “Primavera Árabe, Inverno Libanês.”


Hoh disse à IPS: “baseado nos resultados de décadas de influencias norte-americana em tentar escolher ganhadores e perdedores nesses países ou continuar a jogar o jogo geopolítico absurdo de apoiar uma teocracia repressiva, Arábia Saudita, contra outra, Irã, em guerras representadas, o melhor para os Iemenitas é que os americanos não se metam ou tentam posicionar um lado contra o outro.” A política externa americana no Oriente Médio pode ser categorizada como um desastre, especialmente para o povo do Oriente Médio.


“Os únicos beneficiários das políticas americanos no Oriente Médio  tem sido os grupos extremistas, os quais tiram vantagem da guerra, dos ciclos de violência e ódio, para recrutar e preencher sua mensagem e propaganda, e companhias de armas americanas e ocidentais que vêem lucros aumentando cada ano,” disse Hoh, que serviu junto com o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA no Iraque e nos times da embaixada no Afeganistão e no Iraque.


Quando os dois Iêmen se uniram, a maioria das armas que o pais unificado herdou vieram da Rússia, que era um aliado militar próximo do Iêmen do Sul.


Os aviões de guerra do Iêmen e seus helicópteros da ex União Soviética – incluindo MiG-29 jatos e Mi-24 helicópteros de ataque – foram mais tarde reforçados com sistemas de armas americanos e ocidentais, incluindo naves de transporte (transferidas da Arábia Saudita), helicópteros Bell, mísseis anti-tanque TOW e tanques de batalha M-60.


Nicole Auger, uma analista militar monitorando o Oriente Médio/África no Internacional Forecast, uma líder em inteligência defensiva de mercado e meteorologia industrial, disse à IPS que armas americanas e auxilio militar tem sido cruciais para o Iêmen ao longo dos anos, especialmente pelo financiamento do Departamento de Defesa 1206 “treinar e equipar.”


Desde 2006, ela apontou, Iêmen recebeu um pouco mais de 400 milhões de dólares no auxilio da seção 1206 a qual apoiou a Força Aérea Iemenita (com aquisições de transporte e naves de vigilância), suas unidades de operações especiais, seu monitoramente de fronteiras e suas guardas costeiras.


Enquanto isso, o auxilio militar americano sob os programas Financiamento Externo Militar (FMF) e Treinamento e Educação Internacionais Militares (IMET) aumentou substancialmente, ela disse.


Também, o Iêmen está recebendo assistência com os programas de Não-Proliferação, Anti-Terrorismo, Não-Exploração e Programas Relacionados (NADR) e de Controle Internacional de Narcóticos e Aplicação da Lei (INCLE).


De acordo com a justificação orçamentária congressista americana – o apoio americano ao stor militar e de segurança “irá continuar uma prioridade em 2015 de forma a avançar com a paz e a segurança no Iêmen.”
 



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