Pelo Mundo

Do céu ao inferno em 45 dias

Depois de os 43 estudantes terem desaparecido e do governo demorar quase 40 dias para dar explicações, é muito difícil convencer a população.

25/11/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


Quando Enrique Peña Nieto assistiu em 26 de setembro à celebração do Dia Mundial do Turismo em Guadalajara (Jalisco), ainda ressoavam em seus ouvidos os louvores por reformas que lhe renderam o prêmio de 'estadista do ano'. Como poderia imaginar que, a 300 quilômetros da capital do país que lhe está custando governar, começava um dos episódios que marcarão seu sexênio de maneira definitiva. Em Iguala, 43 jovens foram sequestrados na noite daquela sexta-feira e outras seis pessoas, assassinadas.

Não há nenhuma grande mídia internacional que não tenha publicado a história e não há ninguém que possa se abstrair de um fato tão evidente: o México atravessa (depois de ter vivido seu momento de maior glória em anos) o período mais amargo e triste das últimas décadas. Há muitas razões que explicam esta sensação e muitas realidades novas. Assim como nos tempos de “A insuportável leveza do ser”, em que Milan Kundera mostrava quão fácil era aplastar a liberdade com tanques, os governantes atuais deveriam saber que as redes sociais dificultam o exercício do poder.

 

No caso mexicano, além da desigualdade social comum a outros países da América Latina, a violência e o pacto para não cobrar responsabilidades políticas ao presidente anterior transformaram Peña Nieto em credor, não apenas de seus próprios mortos e desaparecidos, mas também daqueles herdados do mandato de Felipe Calderón. O custo foi alto, por exemplo, o turismo em Acapulco (um dos principais focos do país) caiu 60%. Como se fosse pouco, o governo parece se esquecer de que sua maior dificuldade durante a última campanha presidencial foram os mesmos estudantes que agora saem às ruas e clamam por justiça.

Não há governo no mundo que tenha sabido reagir com destreza aos novos desafios. Pesa muito a consciência de ciclo acabado e de ser parte, seja ou não corrupto, de um sistema endemicamente corrompido que oferece desigualdade, insatisfação e incapacidade. No continente (e agora o tempo já desapareceu do cenário político), o erro foi não articular soluções que diminuíssem as diferenças sociais que carcomem as entranhas e impossibilitam governar em muitos países. A democracia formal se consolidou na região. Mas o ascendente sobre os cidadãos não pode se manter diariamente, só para lembrar o que acontece na Espanha, onde há vagões cheios de políticos corruptos, em um sistema que parece incapaz não apenas de evitar estas práticas, mas que as acaba sancionando. O escândalo é maior a cada dia.

Com um Executivo mexicano sem autoridade moral, sem ter feito um corte claro e sem ter aprendido a grande lição das guerras sujas das ditaduras militares sul-americanas, o quadro é muito difícil de compor. Primeiro, há um convencimento majoritário de que a corrupção é generalizada e midiatizada em toda a vida nacional. Segundo, é inconcebível que, procurando pelos estudantes, outros 70 cadáveres sejam encontrados em diversas fossas. Isso só leva à conclusão de que, no México, não existe um registro nacional de desaparecidos, nem de aparecidos, nem de investigação sobre as vítimas.

A tomada das ruas e das redes remete ao mesmo exemplo da fracassada primavera árabe: a nova política e o clamor social servem para derrubar, mas ainda não para construir. E o que acontecerá agora? Será muito difícil restaurar um mínimo de confiança. Talvez o problema da política, de Iguala, de Peña Nieto, da Petrobras e de Dilma Rousseff é que tentam arrumar e preservar, enquanto os novos tempos exigem mudança. Ou seja, jogar fora e arrumar a casa. Não vivemos um fenômeno desconhecido na história política: esses ventos trouxeram os lodos do fascismo e o aniquilamento dos sistemas políticos que eram espaços de liberdade.

Com seu ambicioso plano de reformas, o governo de Peña Nieto tocou em interesses estruturais e muito poderosos. Nunca saberemos que parte do clamor das ruas é resposta das autoridades informais a essa tentativa de mudar tudo. O que sabemos é que, depois de os 43 estudantes terem desaparecido e demorar quase 40 dias para dar explicações, é muito difícil convencer a população, não apenas de obedecer as leis e pagar impostos, mas de acreditar em um sistema que passa por um referendo a cada vez que um tweet começar a pipocar, e o que é pior, mostra diariamente a perda da bússola da iniciativa política.


Tradução: Daniella Cambaúva



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