Pelo Mundo

Estados Unidos: hora do despertar?

Milhares de protestos realizados pelos universitários norte-americanos denunciaram o racismo e a falta de ação das autoridades.

20/11/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

Na semana passada, aconteceu um protesto iniciado por alguns estudantes que denunciaram não só a constante e longa história de racismo na Universidade de Missouri, mas também a falta de respostas das autoridades, e exigiram a renúncia do reitor. A mobilização cresceu rapidamente, com diversas agrupações estudantis, professores e outras organizações (de todas as cores) se incorporando aos protestos. No final, o presidente da universidade, Tim Wolfe, renunciou.
 
“Viva os estudantes/ jardim de nossa alegria/ são aves que não se assustam/ com animais nem policiais”. De repente, os estudantes despertaram, provocando sismos.
 
Em apenas uma semana, vários reitores e acadêmicos se viram obrigados a renunciar aos seus postos, a convocar reuniões de urgência e se comprometer com medidas contra o racismo, para responder aos milhares de protestos realizados pelos universitários que denunciaram a discriminação e a falta de ação das autoridades acadêmicas.
 
Embora os jovens tenham sido a força motriz do novo movimento nacional, conhecido como Black Lives Matter (“as vidas dos negros importam”), detonado inicialmente pela morte de um jovem afroestadunidense por obra de policiais brancos na cidade de Ferguson, em Missouri, e que foi crescendo com a ira coletiva de vários casos parecidos nos meses seguintes, as universidades não haviam sido o epicentro destas mobilizações.
 
Mas, na semana passada, e num lugar não tão longe de Ferguson – no mesmo estado de Missouri, aliás –, começaram os protestos, graças a um grupo de estudantes que buscou denunciar não só a constante e longa história de racismo na Universidade de Missouri, mas também a falta de resposta das autoridades. Evidentemente, a ação pedia a renúncia do reitor, e cresceu rapidamente, quando diversas agrupações estudantis, professores e outras organizações (de todas as cores) se incorporaram, mas só conseguiram atenção nacional quando vários dos jogadores do time de futebol americano ameaçaram boicotar partidas e apoiaram as demandas. A mobilização adquiriu dimensões ainda maiores quando receberam o apoio do treinador do time. Todos indicaram que estavam em greve até que o presidente fosse destituído.
 
Finalmente, o presidente da universidade, Tim Wolfe, renunciou, e pouco depois foi a vez do reitor, R. Bowen Loftin, anunciar que deixará seu cargo no final deste ano. Quando a notícia se difundiu, centenas de estudantes que estavam congregados com professores e outros simpatizantes expressaram sua felicidade, se abraçaram e dançaram. Imediatamente depois, começou a se discutir se com isso a mobilização já havia triunfado, e o consenso foi: “este é um movimento, não um momento”.
 
As equipes de futebol americano e basquete das grandes universidades estadunidenses não só são importantes para projetar a imagem dessas instituições, mas são também um grande negócio que gera milhões de dólares em contratos de publicidade e de televisão. Aliás, se a equipe da Universidade de Missouri (conhecidos como “os Mizzou”) não disputa uma partida, a instituição estaria obrigada a pagar um milhão de dólares ao time adversário, segundo os contratos estabelecidos pelas ligas acadêmicas.
 
Em outras universidades, inicialmente em solidariedade com seus companheiros de Missouri, começaram a brotar durante a semana vários outros protestos, nas diversas esquinas do país. Na Universidade de Yale, estudantes repudiaram as tentativas de justificar uma festa de Halloween com disfarces de estereótipos raciais. Uma manifestação com cerca de mil jovens, da pequena Ithaca College, em Nova York, provocou um resultado imediato quando os administradores nomearam a um funcionário responsável por garantir a diversidade. Poucos dias depois, a decana da Claremont McKenna College, na Califórnia – uma prestigiosa universidade privada –, renunciou devido às queixas de discriminação racial. Na exclusivíssima Smith College, em Massachusetts, cerca de cem estudantes encabeçaram protestos em solidariedade com Ithaca e Missouri. Estudantes afroestadunidenses ocuparam o escritório do reitor da universidade Virginia Commonwealth. Na elitista universidade Amherst College, em Massachusetts, estudantes denunciaram o racismo e a xenofobia dentro e fora da universidade, e divulgaram uma enorme lista de demandas, entre elas abordar o espinhoso tema de que o nome da universidade e a cidade de Amherst homenageiam Jeffrey Amherst, um oficial do exército inglês que propôs uma guerra biológica contra os indígenas do país, contaminando-os com cobertores infectados com varíola – o que ocorreu no Século XVIII.
 
Na sexta-feira passada (13/11), cerca de estudantes interromperam a inauguração de um complexo esportivo na Universidade Northwestern (NU), marchando e cantando: “da NU à Mizzou, todos vocês (negros) importam”, e obrigaram os administradores e seus convidados especiais a escutarem suas demandas e a adotar mais medidas contra o racismo.
 
Haifu Osumare, professor de estudos afroestadunidenses da Universidade da Califórnia, comentou ao The Guardian que todas essas reações estão vinculadas ao movimento Black Lives Matter e afirmou: “creio que veremos um novo movimento estudantil. Há uma história de ativismo em torno aos direitos civis e esses temas nunca perderam seu apelo”.
 
As redes sociais vêm sendo o circuito de informação instantânea entre estudantes, em diversas universidades de todo o país, uma ferramenta que facilita o contágio desta onda de protestos. Um twit com a hashtag #BlackOnCampus foi difundido pelos ativistas na Universidade de Missouri, pedindo que contassem suas experiências sobre ser afroestadunidense nas universidades, e pouco depois já circulavam quase 100 mil respostas de todo o país. Elas expressavam o isolamento, incidentes violentos de racismo, e também micro ofensas cotidianas, múltiplas formas de discriminação aberta e sutil.
 
É notável que essas ações e expressões, em grande medida sejam multirraciais, com a participação direta de jovens e professores latinos, asiáticos e também brancos. E que os ativistas insistem em que não se trata somente de suas experiências dentro das universidades, mas que as vinculam com as estruturas de racismo e de opressão na sociedade estadunidense, e relacionam seus protestos com as do movimento Black Lives Matter e outros que se desenvolvem fora dos muros universitários.
 
Oito anos depois de alguns terem proclamado a eleição de Barack Obama como o início de uma era onde os Estados Unidos passavam a ser uma sociedade onde o racismo estava sendo superado, os jovens surgem para lembrar que isso, como acontece com qualquer injustiça social, não se soluciona com um político na cúpula, mas com um movimento nas ruas.
 
Tradução: Victor Farinelli



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