Pelo Mundo

Franck Gaudichaud: Dialética do poder popular chileno

21/09/2013 00:00

Jan Malewski – Inprecor

Há 40 anos do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, Franck Gaudichaud acaba de publicar na França dois livros importantes sobre o tema. O primeiro, Chili: mille jours qui ébranlèrent le monde, Le gouvernement Allende vu par em bas (1970-1973) – Chile, mil dias que estremeceram o mundo. O governo Allende por baixo (Presses Universitaires de Rennes, Rennes 2013), nascido de uma tese de doutorado realizada sob a direção de Michael Löwy, analisa a discordância de tempos entre as lutas sociais e o tempo institucional do Governo de Allende, assim como o nascimento dos “cordones industriales” e a dinâmica coletiva do projeto da “via chilena ao socialismo”. O segundo, Venceremos (Syllepse, Paris 2013), apresenta, em francês, vários documentos históricos do poder popular chileno dos anos 1970-1973.

Você acaba de publicar dois livros sobre a experiência chilena dos anos 1970 a 1973. Provavelmente foi a última grande experiência de uma tentativa de reforma radical do capitalismo, cujo terrível resultado conhecemos. Ao longo dessa experiência não apenas assistimos a uma política governamental, senão também a uma impressionante mobilização popular, você pode explicar em que consistiu essa experiência popular?

O interesse de revisar esse período por “baixo”, há 40 anos do golpe, está em ver de que forma – como em todas as grandes sequências de auges revolucionários - aparece um fenômeno de transbordamento dos grandes partidos, das centrais sindicais, das direções políticas. No marco específico do que a Unidade Popular (coalisão das principais forças da esquerda parlamentar) denominou «a via institucional ao socialismo», constatamos um fenômeno de transbordamento do marco legal e político-institucional. A aposta de Allende e da Unidade Popular (UP) que ganhou as eleições presidenciais de 1970 era precisamente a possibilidade – em plena Guerra Fria e no quintal dos EUA - de uma transição pacífica ou «legal» ao socialismo, desmarcando-se assim tanto da URSS como da via insurrecional-armada cubana. Uma transição socialista democrática planejada para que fosse gradual, por etapas, respeitando a Constituição de 1925 e o aparato estatal, ao que se supunha o bastante «flexível» para assumir e integrar reformas estruturais radicais. Entendia-se igualmente que as forças armadas eram legalistas, “constitucionalistas”, que respeitariam o sufrágio universal, o resultado eleitoral assim como as reformas do presidente Allende. Essas apostas estratégicas da «via chilena» foram denunciadas desde 1970 como «reformismo burguês» ou “programa democrático burguês” por um setor minoritário da esquerda, a esquerda revolucionária da época, em particular pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), dirigido nesse momento por Miguel Enríquez.
Allende e a UP herdam e integram um marco institucional (enquanto a Unidade Popular era minoritária no Parlamento) que progressivamente ia ser ultrapassado pela dinâmica da luta de classes, por cidadãos e camponeses mobilizados, pelo movimento operário organizado, inclusive ainda que dito movimento permanecesse amplamente sob a influência dos dois grandes partidos da coalisão governamental, o Partido comunista (PCC) e o Partido Socialista (PSC). Há que completar esse panorama destacando que a Democracia Cristã de então gozava também de uma autêntica ancoragem sindical e popular e tentava opor-se ao papel central das esquerdas no movimento social. Pelo tanto existia uma dinâmica contraditória, dialética, entre o Governo e sua base social mobilizada, entre os grandes partidos da esquerda parlamentar e seus militantes; as direções políticas e sindicais a partir de 1972 foram ultrapassadas, pouco a pouco, pela dinâmica dos conflitos sociais e pelas formas de auto-organização – ainda embrionárias - nas populações pobres, nas empresas, no campo, experiências denominadas «poder popular».

O que faz com que em um dado momento os trabalhadores, a população em geral, se mobilizem e comecem a fazer as coisas por si mesmos? Como acontece tal fenômeno?

Há que lembrar que a chegada da Unidade Popular ao Governo não se fez no marco do que chamo “eleição fria”, mas que aquela vitória política-eleitoral foi o produto de um auge das mobilizações sociais desde meados dos anos 60. A própria eleição de Salvador Allende à presidência da República se fez no marco de grandes mobilizações coletivas. E a esquerda tentou mobilizar em torno de seu programa de campanha. Por exemplo, através dos Comitês da Unidade Popular (CUP), inicialmente pensados para converter-se em algo mais que comitês eleitorais. Criaram-se 14.000 comitês, mobilizando dezenas de milhares de militantes e simpatizantes. Assim, a chegada de Allende à presidência em 1970 não significa um declive das lutas, mas a ampliação e radicalização destas. Os trabalhadores utilizaram a eleição de Allende não esperando o que ia fazer e suas consignas, mas acelerando suas mobilizações, especialmente com greves, tomadas e ocupações de fábricas. Vemos por exemplo um crescimento exponencial do número de greves «ilegais», que se acelerou ainda mais entre 1971 e 1972, na medida que a burguesia e os grandes partidos de direita compreendiam que era no âmbito econômico, sobre o terreno da luta de classes, onde deviam combater o movimento popular que acompanhava - e pressionava - Allende. Podemos afirmar que frente a cada ofensiva dos setores dominantes, a resposta dos atores sociais subalternos organizados não foi unicamente defender o presidente Allende – ainda que sua figura tenha permanecido como legítima e sumamente popular para grandes maiorias operárias até o final -. Os trabalhadores, militantes e sindicalistas pensavam que tinham que proteger o Governo como conquista do povo, mas sobretudo que haviam que defender e aprofundar o processo de transformação revolucionária com as ferramentas das quais dispunham: ocupação de fábricas, manifestações na rua, autodefesa das populações, tentativas de controle operário e de abastecimento direto, etc.
Um dos grandes projetos econômico-social do Governo de Allende foi a constituição da “Área de Propriedade Social” (APS), formada pelas empresas nacionalizadas. Houve nacionalização – e depois do cálculo dos “benefícios excessivos” expropriações sem indenização - das imensas minas de cobre que estavam em mãos de grandes multinacionais e do imperialismo estadunidense; também se nacionalizaram grandes monopólios industriais e manufatureiros – mais de 70 -, o conjunto do crédito e sistema bancário… Mas, com tudo, muitos trabalhadores não estavam incluídos nessa «Área Social» que também previa um sistema de cogestão e participação direta dos assalariados. Então esses trabalhadores disseram: «nós também queremos integrar o setor nacionalizado, temos o direito de participar, conseguir melhores salários, não depender do patrão e de seus abusos, etc.». E portanto, com base nas primeiras medidas tomadas pelo Governo, um setor radicalizado exige mais e começa a ultrapassar o marco restrito, legal, das reformas progressistas propostas pela Unidade Popular, a ocupar suas empresas para impor a nacionalização, a invadir as ruas e ministérios reclamando mais ao “seu” Governo e progressivamente a sentir-se governo e dono de seu destino.

Então se pode dizer que o fenômeno do «poder popular» começou no setor que não havia se nacionalizado?

Na verdade, se tratava de uma dinâmica desigual e combinada. Os grandes bastiões operários integrados no setor nacionalizado (por exemplo, as empresas manufatureiras, têxtil, siderúrgica, de conservas, etc.) pouco a pouco começaram a questionar certas limitações e dificuldades do sistema de cogestão proposto pelo Governo e a principal central sindical, a Central Unitaria de Trabajadores, CUT: para resumir, o Estado nomeava um administrador e este estava encarregado de pôr em marcha a empresa e facilitar a criação de um sistema de cogestão com os representantes dos trabalhadores e dos «comitês de produção». Em algumas dessas empresas, onde havia uma forte presença da ala esquerda da Unidade Popular, em particular do PS, ou do MIR, os sindicalistas começaram a questionar e a aprofundar o sistema de participação. Ao mesmo tempo, nas empresas que não haviam sido nacionalizadas, as demandas de integração no APS eram cada vez mais fortes. Faziam-se pressionando o Governo – manifestações, barricadas nas grandes artérias periféricas de Santiago - ou mais seguidamente ocupando fábricas e denunciando os abusos da patronal. Essas «tomas» se organizavam também cada vez mais em reação defensiva frente aos ataques da burguesia e da extrema direita. O salto qualitativo foi em outubro de 1972. No magnífico documentário La batalla de Chile, Patricio Guzmán intitulou esse momento como «a insurreição da burguesia»: naquele então, o principal sindicato empresarial (SOFOFA) se lança em uma linha de massas, organizando um lock out patronal em escala massiva, o bloqueio do país graças à greve de corporações de caminhoneiros (financiados diretamente pela CIA) e apoiado por profissionais liberais, taxistas, médicos, engenheiros, etc. Nesse contexto, as limitações e as debilidades da “via legal” de Allende eram cada dia mais evidentes para muitos militantes; o Governo, em minoria no Parlamento e frente a uma Democracia Cristã cada vez mais hostil, parecia paralisado – então começou a apelar aos militares para manter «a ordem» e tentar estabilizar a situação de conflito que o país vivia. A resposta dos trabalhadores foi ocupar mais empresas – em algumas os trabalhadores iniciaram formas parciais e transitórias de controle operário da produção - e ajudar o abastecimento das populações da região, criar sistemas de transporte coletivo alternativo, etc. Aí surgiram os que se denominaram «cordones industriales», coordenações horizontais, territoriais, situadas principalmente nas grandes artérias periféricas de Santiago, mas que também se encontravam (ainda que de forma menor) desde Arica, no norte (no setor da eletrônica), até a Patagônia (Punta Arenas) passando por cidades como Concepción ou Valparaíso. Assim, em todo o país apareceu o mesmo fenômeno de auto-organização e coordenação territorial que surgiu de baixo graças ao trabalho dos sindicalistas e dos militantes. O que o historiador Peter Winn nomeou “revolução desde baixo”.

Como funcionavam esses «cordones industriales»?

Havia várias dezenas dessas coordenadorias em Santiago. Existe uma discussão historiográfica a respeito das cifras, mas implicaram em várias dezenas de milhares de trabalhadores (cerca de 100.00 no âmbito nacional). Trabalhei durante vários anos em Santiago sobre a imprensa e fiz dezenas de entrevistas, mas continua sendo difícil estabelecer o número exato daquelas estruturas, uma vez que algumas eram muito ativas e outras só existiam «no papel», na propaganda e discursos da esquerda. Entretanto, representou um fenômeno importante porque, ainda que fosse minoritário, afetava setores chaves da economia e segmentos muito ativos do campo sindical e político.
O mais poderoso daqueles cordones industriales foi o de Cerillos-Maipú, na comuna mais industrializada de Santiago (com 250 empresas e milhares de trabalhadores fabris). Sua organização territorial linear estava muito clara, uma vez que as empresas estavam construídas ao longo das rodovias e das vias do trem. Como explico em meu livro sobre “os mil dias da UP”, existia um «cordón em si», presente objetivamente na geografia da cidade, que levaria a um «cordón para si», uma organização mobilizada, nascida da auto-organização da classe operária nesses territórios urbanos. Em Maipú, um grande número de empresas pequenas e médias, que não estavam integradas na Área da Propriedade Social, eram bastiões sindicais do MIR e da ala esquerda do PS (muito ativa). Desde junho de 1972, portanto antes da grande crise de outubro, o cordão industrial começou a organizar-se. Isso indica que essa forma de organização estava latente na classe operária e explica por que durante a crise de outubro essas organizações se multiplicaram.
Os cordões nasceram, geralmente, da iniciativa de militantes de esquerda e sindicalistas. Nas empresas mais mobilizadas o resultado de autênticas assembleias operárias foi que elegeram um ou dois delegados para a assembleia do cordón industrial da zona. A investigação que realizei sobre o terreno graças à imprensa da época indica, entretanto, que há que relativizar a imagem do «soviete a la chilena», uma vez que só se tratava de um embrião de formas de poder dual (no sentido de Lenin ou do marxista boliviano Zavaleta Mercado), não sempre consolidado, o que também explica em parte a rapidez do golpe de Estado. Seguidamente, os cordões tinham dificuldades para superar o estado defensivo e transitório, devido às orientações políticas majoritárias da esquerda, de conflitos interpartidários ou interpessoais nas empresas e aos problemas de coordenação comunal e nacional. As assembleias estavam abertas a todos, mas em geral eram sobretudo os militantes dos partidos e os dirigentes sindicais que participavam e as animavam.

Essas assembleias eram uma forma de superação ou desenvolvimento dos comitês da Unidade Popular (CUP) ou outra coisa diferente?

Eram uma coisa muito diferente, uma vez que os Comitês da Unidade Popular entraram em recessão desde 1971 por falta de orientação política, mais além da campanha eleitoral, por parte da direção da Unidade Popular. Os cordões estavam realmente ancorados na classe operária industrial e sindical, reclamavam do controle operário, a aceleração das reformas, sempre defendendo o Governo frente à burguesia. Entraram em contradição com a Central Única de Trabajadores (CUT), que tinha uma organização territorial débil. Então os cordões supriram e superaram o déficit de organização.

Como funcionava a assembleia dos trabalhadores em uma fábrica? Era uma assembleia geral de todos os assalariados ou somente participava uma parte deles?

Existe, seguidamente, uma história sensivelmente diferente em cada fábrica. O historiador Peter Winn fez um estudo monográfico da grande fábrica têxtil Yarur, um bastião da classe operária onde o nível de organização era tal que se tratavam de autênticas assembleias dos trabalhadores, nas quais se discutia política, a orientação produtiva da fábrica e também a luta de classes em nível nacional, da participação nos cordões, das limitações da esquerda governamental ou da via institucional de Allende… Em outras fábricas havia mais dificuldades e as assembleias gerais só reuniam os assalariados mais organizados e politizados, seguidamente pessoas pertencentes à ala esquerda do PS. Segundo o ambiente político da fábrica, a dinâmica era diferente. Por exemplo, um estudo empírico que se realizou durante a UP em mais de 30 empresas, confirmava que onde dominavam a Democracia Cristã ou o PCC, o nível de participação era muito mais débil, a burocracia sindical marcava a linha e a construção dos cordões não era uma prioridade (inclusive estava contundentemente recusada). Aí se vê o papel fundamental desempenhado então pelo PCC para canalizar e «moderar» as mobilizações, mas também para frear este tipo de iniciativas de poder popular «de baixo» que ultrapassavam o marco da CUT e a orientação «gradualista» do Governo. Em um primeiro momento, a direção do PCC condenou firmemente os cordones industriales considerados como um elemento de divisão dos trabalhadores, uma iniciativa «esquerdista» e «aventureira»; entretanto, foram os cordones industriales que, em outubro de 1972 e depois em junho de 1973, ou seja, nos grandes momentos de crise política, permitiram que Allende se mantivesse na presidência. É aí onde aparece claramente o papel de todo um setor da Unidade Popular, em particular do Partido Comunista devido a sua implantação sindical, para frear as iniciativas de auto-organização e do que eu chamo formas de «poder popular constituinte», já que isso podia pôr em perigo as negociações com a Democracia Cristã no Parlamento e as tentativas de Allende de encontrar certo apoio institucional. Ao contrário, a ala esquerda do PS, os cristãos revolucionários e o MIR chamavam a «avançar sem ceder» e «criar, criar, o poder popular», ainda que por outra parte isso não fosse sempre seguido de ações concretas e, sobretudo, não permitisse construir uma via alternativa ao socialismo concreta e compreensível para as grandes maiorias. O vanguardismo, o propagandismo e o verticalismo também marcaram muito a esquerda revolucionaria “rupturista”. Entre a propaganda e a ação, às vezes, há muita distância!

Qual era, em 1970-1973, a taxa de filiação sindical? E a influência dos partidos políticos no movimento popular?

A taxa de filiação sindical era muito diferente segundo os setores. No setor público era quase obrigatória, portanto chegava a mais de 85%. No setor privado era importante - da ordem de 20% como média. A Central Unitaria de Trabajadores (CUT) era hegemônica e fundamental para as mobilizações, mas não representava todo o movimento sindical, já que nas pequenas e médias empresas havia numerosos sindicatos não filiados à CUT, devido entre outras coisas ao código do trabalho. Apesar de tudo, a CUT agrupava cerca de 700.000 trabalhadores em 1970 (de uma população de 9 milhões de habitantes). Na Central havia três correntes políticas principais: o PC, muito forte, muito estruturado e disciplinado, fortemente marcado pelo stalinismo (tinha mais de 250.000 membros) que era o principal apoio de Allende; o PS, muito mais heterogêneo, com uma forte ala esquerda capaz inclusive de chamar à greve geral insurrecional armada, mais interclassista (cerca de 180.000 membros); e não se pode esquecer da Democracia Cristã, que era a segunda ou terceira força sindical, dirigindo grandes sindicatos. Então a esquerda extraparlamentar estava formada, sobretudo pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), organização muito jovem (formada em 1965), marcada pela teoria da «guerra popular prolongada» e obrigada a fazer frente à hegemonia dos grandes partidos operários, insertando-se nos setores mais marginais da classe operária, menos “controlados” – frequentemente abandonados - pela CUT, com um número de militantes entre 10.000 e 15.000 e um círculo de simpatizantes amplo e dinâmico. Existiam, por outra parte, algumas outras pequenas organizações ou grupos, como o PSR (Partido Socialista Revolucionário, trotskista), o PCR (maoísta) ou a Liga Comunista. Quanto mais apareciam as limitações ou dificuldades do projeto pacífico de Allende e à medida que as possibilidades de uma transição legal-institucional ao socialismo entravam em crise, mais se desenvolvia a influência ideológica do MIR, dirigido por Miguel Enríquez, em particular na esquerda da Unidade Popular. A política do MIR oscilava então entre uma crítica radical do «reformismo e o legalismo burguês» da esquerda e as tentativas de aliança com a ala esquerda do PS. Apesar de tudo, o MIR se reunia regularmente com Allende, inclusive proporcionou por um tempo uma proteção pessoal ao presidente (os Grupos de Amigos Pessoais, GAP).

No debate que você moderou na Universidad de Verano do NPA, um camarada chileno afirmou que, nas estruturas do poder popular, a grande maioria dos trabalhadores eram ao mesmo tempo «allendistas». Como explica essa situação, os avanços práticos que ultrapassam a legalidade e ao mesmo tempo certa forma de subordinação ideológica?

Até o final, Allende foi para a grande maioria do movimento operário «o camarada presidente», ou seja, muito mais que um símbolo da vitória eleitoral. Inclusive Allende teve uma influência cada vez mais forte sobre os operários democratas cristãos, que viam claramente que o Governo havia tomado medidas a favor dos trabalhadores, dos pobres – aumento dos salários, nacionalização do cobre, participação e gestão operária conjunta… A aura carismática de Allende nunca se questionou, apesar das limitações de seu programa ou as ilusões da esquerda com respeito às forças armadas «constitucionalistas». A contradição dialética é que o poder popular se desenvolvia em nome da defesa de “seu” Governo, mas sobre a base de reivindicações próprias dos trabalhadores, da classe… com ferramentas de luta que ultrapassam este mesmo Governo, como todos os partidos e poderes constituídos, por outra parte. Por exemplo, os lemas do cordão industrial Cerrillos e Maipú de 1972, são a ampliação do setor nacionalizado, alguns exigindo uma Assembleia Constituinte e o fechamento do «Parlamento burguês», fazendo eco da Assembleia Popular de Concepción de maio de 1972, o abastecimento sob controle popular, uma intervenção política no exército para mandar embora os reacionários, o controle operário da produção, etc. Tinham, portanto, reivindicações que iam muito além do marco político fixado por Allende, mas quase sempre em nome da “via chilena ao socialismo”. Assim o demonstra também a carta «ao camarada presidente», do dia 5 de setembro de 1973, da coordenadora provincial dos cordones industriales de Santiago (que aparece publicada no livro Venceremos) e dizia, em essência, «se você não confia nas massas, se continua tergiversando e procurando alianças parlamentares com a Democracia Cristã ou integrando os militares no Governo, você terá a responsabilidade do massacre frio da classe operária mais organizada da América Latina». E é o que aconteceu… A carta se dirige a Allende para que se apoie mais fortemente nas formas de poder popular e não procure consensos com a oposição. Isso indica também que o setor denominado «rupturista» pela historiografia atual – o MIR, a ala esquerda do PS e os setores cristãos revolucionários - não teve êxito para apresentar, para propor, um projeto alternativo ao de Allende, à estratégia de uma transição legal, pacífica, ao socialismo. O sociólogo Tomás Moulian falou da “dupla incapacidade” dos dois polos da esquerda, nesse momento histórico.
Em duas ocasiões, Allende integrou os mais altos representantes das forças armadas em seu Governo, inclusive ao lado dos principais dirigentes da CUT, que também foram nomeados ministros… Foi Allende quem nomeou Pinochet chefe do Estado Mayor em agosto de 1973, convencido de que se tratava de um «legalista». E foi o exército, encarregado de controlar o abastecimento ou aplicando a “lei de controle de armas”, que começou, um ano antes do golpe, a avaliar as resistências e fiscalizar violentamente as fábricas, reprimir os marinheiros de Valparaíso que denunciavam os preparativos golpistas. Tudo isso durante o governo da UP.
Ainda que os militantes do MIR tivessem razão em uma série de coisas – anunciaram o golpe de Estado mais de dois anos antes, insistiram na necessidade de um trabalho político com os soldados assim como na necessidade de reforçar as formas de poder popular - essa pequena organização revolucionária não pode tampouco representar e propor uma alternativa política nacional, que teria podido mudar o curso da história.

Pode voltar a Assembleia Popular de Concepción?

Em 1972, as divergências se acumulavam na esquerda, por conta das tentativas de Allende e do PC de procurar acordos com a Democracia Cristã para continuar suas reformas, consolidando a política do Governo, enquanto a esquerda – já o disse e isso era essencial - era minoritária no Parlamento. Frente a isso, assistimos ao crescimento das lutas sociais que fazem com que os setores políticos da cidade de Concepción do PS, do MAPU – os cristãos radicalizados procedentes da Democracia Cristã - e do MIR chamam de acelerar as coisas, «avançar sem ceder», romper com o Estado burguês e a ordem dominante. Após grandes manifestações de rua, em maio de 1972 se celebrou uma “Assembleia Popular” em Concepción, convocada por dezenas de organizações sindicais e sociais, comitês de populações e toda a esquerda, menos os comunistas. A Assembleia chamou à unificação das formas de poder popular. Às vezes, a posteriori, se quis ver neste ato público uma espécie de duplo poder local. Na verdade foi uma grande assembleia deliberativa, de alerta, de uma parte da esquerda da Unidade Popular e da extrema esquerda, um ato mais de interpelação do Governo que de poder dual. A princípio, devia tratar-se de um debate público entre dirigentes de partidos, mas os sindicalistas, os habitantes e os militantes sociais presentes na sala se impuseram para falar de seu cotidiano e esperanças, mas também temores, intervindo sobre as contradições do período, criticando suas direções políticas e as debilidades da esquerda, chamando à unidade e denunciando o imperialismo, os “múmias”, etc. A assembleia foi denunciada imediatamente pelo PC (que foi o único partido que se negou a participar) como uma manobra esquerdista, inclusive “manipulada pelo imperialismo”; o próprio Allende que, desde o dia seguinte, em uma tribuna do Mercurio afirmou que poderia tratar-se de uma divisão perigosa para o governo popular, chamou à unidade com o executivo.

Você falou dos Cordones industriales. Estavam também os que se denominavam «Comandos Comunales», você pode dizer em que se diferenciavam dos cordones?

Os Comandos Comunales eram essencialmente uma reivindicação do MIR e de certos setores da esquerda da Unidade Popular. Supunha-se que agrupariam, além da classe operária, todos os setores sociais subalternos, os «pobres da cidade» como dizia o MIR, os estudantes, os pequenos comerciantes, os camponeses, a pequena-burguesia. Deviam ser uma prefiguração de futuras comunas revolucionárias e de um duplo poder. Essa era a teoria que o MIR defendia em particular. Na prática se comprovou que tinham muitas dificuldades para ir mais além dos setores sociais urbanos denominados «marginais», dos pobladores e das problemáticas específicas (abastecimento, moradia, desemprego) dessas populações. A falta de união entre a classe operária e esses fragmentos importantes do movimento social, foi uma dificuldade real para o processo revolucionário: Como construir a unidade desse campo social, tão heterogêneo e com práticas históricas longínquas? A esquerda do PS, pelo contrário, desejava dar a prioridade aos cordones, quando o MIR insistia nos comandos. Muito frequentemente, esse debate representou a diferença da inserção social dos partidos: o PS era muito forte nos cordones industriales e na classe operária, o MIR, que tinha uma débil inserção industrial, desenvolveu os comandos comunais, partindo das populações urbanas pobres, como em Nueva La Habana. A posteriori, isso se pode analisar como uma orientação errônea do MIR, que sempre quis que os cordones industriales – a forma mais avançada do poder popular constituinte chileno - se reintegrassem como organização de base da CUT, uma vez que, em sua concepção, o comando comunal era a forma autêntica do poder popular. Porque o que realmente funcionou foram os cordones industriales, ao menos em Santiago e em algumas cidades médias… Por suposto, também haveria que analisar o que sucedia no campo, mas este é outro debate e significa outra investigação. Seja como for, o MIR nunca assumiu a necessidade de centralizar, de coordenar esses cordones industriales que ficaram entre os «tesouros perdidos», nas palavras de Hannah Arendt em seu Ensayo sobre la revolución, dois mil dias da Unidade Popular… e que há 40 anos do golpe de Estado e do início da repressão de 17 anos de ditadura neoliberal, merecem sair do esquecimento com o fim de ensinar lições para o futuro. Um legado essencial para essa nova geração de chilenas e chilenos que reencontrou o caminho das mobilizações sociais.


Tradução: Liborio Júnior


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