Pelo Mundo

João Paulo II: acobertamento e canonização

Os elementos disponíveis mostram o pontífice polonês tinha informações suficientes para conhecer os crimes de pedofilia de Marcial Maciel.

24/04/2014 00:00

José Cruz/ABr

Créditos da foto: José Cruz/ABr

Slawomir Oder, o sacerdote polonês que lidera o processo de canonização de João Paulo II, afirmou na terça-feira (22) que não há sinais de participação pessoal do falecido pontífice no escândalo de pedofilia que envolveu a Congregação dos Legionários de Cristo e seu fundador, Marcial Maciel.
 
Se for considerado o contexto de críticas em que a canonização do polonês surgiu –tanto em setores progressistas da opinião pública como em grupos católicos ultraortodoxos–, a declaração de Oder representa uma medida de controle de estragos compreensível e até mesmo óbvia, cuja finalidade seria atenuar as denúncias: no mesmo sentido, parece considerar, conforme afirmaram alguns vaticanistas nas últimas semanas, a decisão adotada pelo papa Francisco de canonizar em uma mesma cerimônia João Paulo II e João XXIII – principal idealizador do Concílio Vaticano II – como uma forma de tirar protagonismo da figura de Karol Wojtyla e atenuar as acusações. 
 
Contudo, os elementos disponíveis mostram que tanto o pontífice polonês como seu sucessor, Joseph Ratzinger, tiveram informações suficientes para conhecer os crimes de Marcial Maciel. Vale lembrar que, em 2004, o próprio Ratzinger teve a oportunidade de reabrir, quando ainda presidia a Congregação para a Doutrina da Fé, o expediente do fundador dos Legionários; a autoridade católica, entretanto, recusou submeter Maciel a um processo canônico e, com isso, selou a impressão de que o Vaticano preferia preservar a impunidade do religioso do que desatar um escândalo e uma confrontação com essa ordem, que possui grande parte de poder político e econômico. Com isso, o Vaticano não apenas acentuou os danos às vítimas de Maciel, como deu margem para a omissão de outros abusos sexuais contra menores no seio da Igreja e exibiu uma pauta de encobrimento de casos de pedofilia clerical nas esferas mais altas da hierarquia católica. 
 
A insistência dos que impulsionaram a canonização de Wojtyla sob o pressuposto de que ele não tinha conhecimento dos crimes de Maciel é, ao contrário, anticlimática no contexto de um pontificado – liderado por Jorge Mario Bergoglio– que começou, pelo menos no discurso, com um claro espírito de renovação da Igreja católica e com uma nítida atitude de denúncia de alguns dos lastros e vícios mais palpáveis da hierarquia do Vaticano. Um dos principais elementos simbólicos dessa virada aconteceu há apenas algumas semanas, quando o papa Francisco pediu desculpas pelos casos de abuso sexual cometidos por sacerdotes.
 
A demarcação que a Igreja católica pode estabelecer em relação aos pontos obscuros do pontificado de João Paulo II talvez seja conveniente neste momento, quando a instituição parece estar mais preocupada em consumar a elevação do pontífice polonês à santidade do que em esclarecer as denúncias. Mas dificilmente ajudará a Igreja a recuperar sua credibilidade e seu prestígio: para isso é necessário que a hierarquia do Vaticano mostre a sensibilidade e o apego irrestrito à legalidade e um sentido elementar de justiça que até agora faltaram no que diz respeito aos episódios de pedofilia que envolvem integrantes do clero católico.





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