Pelo Mundo

Jornalista infiltrado expõe condições de trabalho na Amazon

Adam Litter trabalhou cerca de 10 horas e meia por turno, andou 17 quilômetros diários e recolheu em seu carrinho uma ordem de compra a cada 33 segundos.

27/11/2013 00:00

BBC

Créditos da foto: BBC


Londres - Na era da internet os “Tempos Modernos” de Charles Chaplin teriam que ser filmados nos armazéns de estoque da Amazon. Uma câmara oculta do programa “Panorama”, da BBC, se infiltrou em um dos cinco depósitos da Amazon no Reino Unido para revelar as condições chaplinianas do trabalho do gigante das vendas online.

O depósito de Swansea, País de Gales, tem quatro pisos e uma superfície de 74 mil metros quadrados de intermináveis galerias. O jornalista infiltrado, Adam Litter, que trabalhava como recolhedor noturno cerca de 10 horas e meia por turno, devia andar uns 17 quilômetros diários e recolher em seu carrinho uma ordem de compra a cada 33 segundos.

No programa, o jornalista de 23 anos carrega na mão um scanner que indica a localização dos objetos a recolher e que tem um sistema de contagem regressiva de segundos para medir quanto tempo falta para fazê-lo. O sistema tem um som similar ao que se escuta nos aparelhos que medem a frequência cardíaca dos pacientes em um hospital com um apito que alerta se foi cometido um erro semelhante ao que soa quando o coração e as funções vitais estão em perigo.
“Somos como máquinas, como robôs, uma vez que nos conectamos ao scanner é como se estivéssemos conectando nossa vida”, disse Litter à câmera.

O programa, transmitido segunda-feira à noite, traz a opinião de um especialista em legislação e de um em psicologia do trabalho sobre as condições laborais dos recolhedores na Amazon. O advogado Giles Bedloe não tem dúvida. “É ilegal. Se é o caso de um trabalho físico pesado ou com forte stress mental, o trabalhador de turnos noturnos não pode estar empregado mais de oito horas por dia”, disse à BBC.

O professor Michael Marmot, um dos maiores nomes da Psicologia do Trabalho britânica, foi igualmente contundente sobre o impacto que esse tipo de trabalho tem na saúde. “Há um altíssimo risco de enfermidade física ou psicológica. É certo que este tipo de trabalho não qualificado sempre vai existir, mas podemos torná-lo pior ou melhor. Neste caso, trata-se das piores condições imagináveis”, assinalou à BBC.

Os pés de Litter são uma prova do imenso desgaste físico que implica percorrer 17 quilômetros diários empurrando um carrinho cada vez mais pesado de objetos. Nas imagens pode-se ver os pés feridos do jornalista-recolhedor que confessa que “é a parte do corpo da qual queria me livrar neste momento”.

Ao desgaste físico se soma a pressão para cumprir com os “objetivos de produtividade”. Estes “objetivos”, que servem para qualificar o desempenho e a continuidade do empregado, são medidos pelo tempo que demora em recolher cada ordem. Se não cumpre a média de 33 segundos por ordem, a Amazon coloca o trabalhador em um regime de observação.

Na primeira etapa deste regime, o empregado se reúne com um “assessor laboral” para ver como melhorar seu desempenho. Se depois da assessoria ainda não consegue cumprir com os “objetivos” é advertido. No caso dos trabalhadores temporários, é como entrar em uma rota de plano inclinado: dificilmente sobrevivem ao período natalino.

Em resposta ao programa, a Amazon negou categoricamente ter violado as leis trabalhistas britânicas ou explorado seus trabalhadores. “A segurança de nossos empregados é nossa prioridade número um e nós cumprimos com toda a legislação laboral vigente. Segundo nosso especialista laboral independente as condições nas quais trabalha o recolhedor são similares as que existem em outros lugares”, disse a empresa em um comunicado.

A defesa da Amazon parece mais uma condenação dos outros estabelecimentos – “condições similares” – do que uma justificação de sua própria prática laboral. Esta prática não se limita aos depósitos da companhia no Reino Unido. Na Alemanha, o gigante estadunidense enfrentou uma nova greve de seus trabalhadores na segunda-feira. Eles reclamam melhores salários e condições de trabalho. Os sindicatos vêm protestando desde o verão europeu para exigir que a empresa aplique a seus empregados as condições válidas para os trabalhadores do comércio varejista. Um porta-voz do sindicato Verdi assinalou que estão dispostos a melar as vendas de natal para que a empresa atenda as suas demandas.

A Amazon propagandeia com frequência os benefícios que recebe o consumidor ao adquirir produtos mais baratos sem ter que sair de casa, mas essa inegável vantagem tem como preço não só as condições laborais dos empregados, mas o fechamento de pequenas e médias empresas. Essas empresas se queixaram que a Amazon mal paga os impostos, algo que se encontra na boca do povo desde que começou a era dos ajustes na União Europeia depois do estouro da bolha financeira de 2008.

No Reino Unido a pressão do Tax Uncut, um grupo que luta contra os cortes fiscais, expôs que essas grandes multinacionais da internet são uma rede sistemática de evasão e sonegação fiscal. Em 2001, a Amazon teve vendas equivalentes a 5 bilhões de dólares no Reino Unido e não pagou um centavo de impostos corporativos.

O tema diz respeito às 28 nações que formam a União Europeia. Esta semana, a Comissão Europeia apresentou um projeto de reforma da legislação tributária para fechar a brecha legal aproveitada por estas multinacionais que permite que se registrem em países como a República da Irlanda, com baixos níveis tributários e muitas isenções, para pagar o mínimo e não deixar um centavo nos lugares onde fazem seus negócios. Este mínimo é efetivamente infinitesimal. Segundo um informe recente da OCDE, não passa de 1%.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer





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